

Srie: A Mediadora

REUNIO

Meg Cabot
Sob o pseudnimo de Jenny Carroll

Da autora da srie O Dirio da Princesa

Contracapa
   Suzannah  uma adolescente como outra qualquer. Bem, quase... Ela tem um pequeno segredo:  uma - mediadora. Fala com fantasmas e os ajuda a descansar em paz.
Um dom um tanto incomum para ser dividido com os colegas, irmos e at mesmo com a me.
   Mas de uma pessoa Suzannah no conseguir esconder seu segredo. Gina, sua melhor amiga de Nova York, est na cidade passando uns dias com ela. Durante sua estada,
quatro adolescentes morrem num acidente de carro. E Suzannah se v obrigada a abrir mo de seus dias tranqilos com a amiga para ajudar as almas penadas. E para
isso, ela precisar contar com a cobertura de Gina.
   No entanto, no so s os fantasmas que precisam de ajuda. Michael Meducci, tambm envolvido no acidente, passa a ser perseguido e corre perigo. Mas quando foras
sobrenaturais esto em ao quem est em segurana?
   Reunio  o terceiro volume da srie A Mediadora, iniciada com A terra das sombras e O arcano nove.

Reunio

Obras da autora publicadas pela Record
A garota americana
O garoto da casa ao lado
Garoto encontra garota
dolo teen
Tamanho 4 no  gorda

Srie O Dirio da Princesa
O dirio da princesa
A princesa sob os refletores
A princesa apaixonada
A princesa  espera
A princesa de rosa-shocking
A princesa em treinamento

Lies de princesa

Srie A Mediadora
A terra das sombras
O arcano nove
Reunio
A hora mais sombria
Assombrado

REUNIO
Jenny Carroll
Traduo de Alves Calado

 EDIO

EDITORA RECORD
RIO DE JANEIRO * SO PAULO
006

CIP-Brasil. Catalogao-na-fonte
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.
     Carroll, Jenny, 1967-
C313r       Reunio / Jenny Carroll; traduo de Alves
 ed.   Calado. -  ed. - Rio de Janeiro: Record, 006.
7p. - (A mediadora; 3)

Traduo de: Reunion
Sequncia de: O arcano nove
ISBN 85-01-06870-5

  1. Adolescncia (Meninas) - Literatura infanto-
juvenil. . Literatura infanto-juvenil. I. Alves
Calado, Ivanir, 1953-. II. Ttulo. III. Srie.
      CDD - 08.5
05-1455                                CDU - 087.5

Ttulo original norte-americano:
REUNION

Copyright (c) 001 by Meggin Cabot

Publicado mediante acordo com Simon Pulse, uma diviso da Simon & Schuster Children's Publishing Division

Projeto grfico: Glenda Rubinstein

Todos os direitos reservados. Proibida a reproduo, no todo ou em parte, atravs de quaisquer meios.

Direitos exclusivos de publicao em lngua portuguesa somente para o Brasil adquiridos pela
EDITORA RECORD LTDA.
Rua Argentina 171 -091-380 - Rio de Janeiro, RJ - Tel.: 585-000
que se reserva a propriedade literria desta traduo

Impresso no Brasil
ISBN 85-01-06870-5

PEDIDOS PELO REEMBOLSO POSTAL
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Rio de Janeiro, RJ - 09-970

ASSOCIAO BRASILEIRA DE DIREITOS REPROGRFICOS
EDITORA AFILIADA

Em memria de J.V.C.

Captulo 1

   - Olha, isso  que  vida - disse Gina.
   Fui obrigada a concordar com ela. Estvamos deitadas de biquni, absorvendo os raios de sol e os agradveis 4C na praia de Carmel. Era maro, mas no parecia,
pelo modo como o sol se lanava por cima de ns. Bom, afinal de contas isso era a Califrnia.
   - Srio - insistiu Gina. - No sei como voc consegue fazer isso todo dia.
   Eu estava de olhos fechados. Vises de Diet Cokes compridas e geladas danavam na minha cabea. Se ao menos existisse servio de garom na praia! Era realmente 
a nica coisa que faltava. J tnhamos acabado com todos os refrigerantes do isopor, e era uma caminhada bem longa, subir da praia at o mercadinho Jimmy's.
   - Fazer o qu? - murmurei.
   - Ir  escola quando se tem essa praia fabulosa a um quilmetro e meio de distncia.
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   -  difcil - admiti com os olhos ainda fechados. - Mas se formar no segundo grau continua a ser considerado uma das maiores conquistas da vida. Quero dizer, 
j ouvi falar que sem um diploma do segundo grau a gente no tem chance de conseguir um daqueles empregos importantes de servir no Starbucks, para onde sei que estou 
destinada depois da formatura.
   - Srio, Suze. - Senti Gina se agitar ao meu lado e abri os olhos. Ela havia se apoiado nos cotovelos e estava examinando a praia atravs de seus culos Ray Ban. 
- Como voc agenta?
   Verdade. Como? O dia estava estupendo. O Pacfico se esticava at onde a vista alcanava, azul-turquesa escurecendo at o azul-marinho  medida que se aproximava 
do horizonte. As ondas eram gigantescas, chocando-se na areia amarela, jogando surfistas e bodyboarders no ar como se fossem destroos de naufrgios.  direita, 
longe, erguiam-se os penhascos verdes de Pebble Beach.  esquerda, os enormes pedregulhos cheios de focas, que eram o caminho para o que eventualmente se transformava 
em Big Sur, um trecho particularmente acidentado do litoral do Pacfico.
   E em toda parte o sol golpeava, queimando a nvoa que mais cedo havia ameaado arruinar nossos planos. Era a perfeio. O paraso.
   Se ao menos eu conseguisse algum para me trazer uma bebida!
   - Ah, meu Deus. - Gina baixou os culos e espiou por cima da armao. - Saca s isso!
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   Acompanhei seu olhar atravs das lentes dos meus Donna Karan. O salva-vidas, que estivera sentado em sua torre branca a alguns metros de nossas toalhas, pulou 
de repente da cadeira, segurando numa das mos o flutuador laranja. Pousou na areia com uma graa felina e de repente partiu para as ondas, com os msculos ondulando 
por baixo da pele bronzeada, o cabelo louro e comprido balanando atrs.
   Turistas procuraram as mquinas fotogrficas enquanto as pessoas que tomavam banho de sol se sentavam para ver melhor. Gaivotas saltaram num vo espantado e os 
ratos de praia saram rapidamente do caminho do salva-vidas. Ento, com o corpo magro e musculoso fazendo um arco perfeito no ar, ele mergulhou nas ondas e surgiu 
metros adiante, nadando rpido e com fora na direo de um garoto que fora apanhado numa correnteza.
   Para minha diverso, vi que o garoto era ningum menos do que Dunga, um dos meus meios-irmos que tinha nos acompanhado  praia naquela tarde. Reconheci sua voz 
instantaneamente - assim que o salva-vidas o havia puxado de volta  superfcie -, xingando-o com veemncia por ter tentado salvar sua vida, envergonhando-o diante 
dos colegas.
   O salva-vidas, para meu deleite, xingou-o de volta.
   Gina, que tinha olhado o drama se desdobrar com uma ateno fascinada, disse preguiosa:
   - Que babaca!
   Ela obviamente no reconheceu a vtima. Para minha perplexidade, Gina havia me informado que eu tinha uma
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sorte incrvel porque todos os meus meios-irmos eram to "maneiros". At mesmo Dunga, aparentemente.
   Gina nunca fora especialmente discriminadora no quesito garotos.
   Depois, suspirou e se deitou outra vez na toalha.
   - Isso foi extremamente incmodo - falou recolocando os culos no lugar. - A no ser pela parte que o salva-vidas gato passou correndo por ns. Dessa parte eu 
gostei.
   Alguns minutos depois o salva-vidas voltou na nossa direo, no parecendo menos bonito de cabelo molhado do que quando estava seco. Subiu em sua torre, falou 
brevemente pelo rdio - na certa emitindo um boletim "F.A." sobre Dunga. Fiquem atentos a um praticante de luta-livre extremamente estpido com roupa de neoprene 
querendo se mostrar para a melhor amiga da irm adotiva e que veio de outra cidade -, depois voltou a examinar as ondas em busca de outras potenciais vtimas de 
afogamento.
   -  isso - declarou Gina subitamente. - Estou apaixonada. Aquele salva-vidas  o homem com quem vou me casar.
   Est vendo o que eu quis dizer? Total falta de discriminao.
   - Voc se casaria com qualquer cara de sunga - falei com repulsa.
   - No  verdade. - Gina apontou para um turista com as costas particularmente peludas, usando sunga, que estava a alguns metros de distncia ao lado da esposa
queimada de sol. - Eu no gostaria de casar com ele, por exemplo.
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   - Claro que no. Ele j tem dona.
   Gina revirou os olhos.
   - Voc  estranha demais. Venha, vamos arranjar alguma coisa para beber.
   Ficamos de p e achamos os shorts e as sandlias, em seguida nos enfiamos neles. Deixando as toalhas onde estavam, atravessamos a areia quente at a escada ngreme 
que levava ao estacionamento onde Soneca tinha deixado o carro.
   - Quero um milk-shake de chocolate - declarou Gina quando chegamos  calada. - No um daqueles metidos a besta, que servem por aqui. Quero um completamente artificial, 
cheio de qumica, que nem os do McDonald's.
   - , bem - falei tentando recuperar o flego. No foi moleza subir aquela escadaria. E eu estou bastante em forma. Fao exerccios com uma fita de kick-boxing
praticamente toda noite. - Voc vai ter de ir a outra cidade para isso, porque no existem lanchonetes por aqui.
   Gina revirou os olhos.
   - Que cidade mais caipira! - reclamou fingindo indignao. - No tem lanchonete, no tem sinais de trnsito, nem crime, nem nibus.
   Mas no estava falando srio. Desde que tinha chegado de Nova York, na vspera, Gina estava boquiaberta com minha vida nova: invejando a gloriosa vista para o 
oceano da janela do meu quarto, fascinada pela habilidade culinria de meu novo padrasto, e sem desprezar nem um pouco as tentativas de meus meios-irmos para impression-la.


Nenhuma vez tinha dito, como eu esperava, a Soneca ou Dunga - que pareciam loucos para atrair sua ateno - para se catarem.
   - Meu Deus, Simon - disse ela quando eu a questionei sobre isso. - Eles so uns gatos. O que voc espera que eu faa?
   Como  que ? Meus meios-irmos, gatos?
   Acho que no.
   Bom, se voc quisesse um gato, no precisava procurar alm do sujeito atrs do balco do Jimmy's, o mercadinho logo em frente  escadaria da praia. Burro como 
um brinquedo inflvel de piscina, mesmo assim Kurt - esse era o nome do cara, juro por Deus - era lindo de morrer, e depois de eu ter colocado diante dele a garrafa 
suada de Diet Coke que tinha apanhado no freezer, dei a velha examinada de cima a baixo. Ele estava profundamente absorvido num exemplar da Surf Digest, por isso 
no notou meu olhar de peixe morto. Acho que eu estava bbada de sol, ou algo assim, porque continuei ali parada espiando o Kurt, mas na verdade estava pensando
em outra pessoa.
   Algum em quem no deveria estar pensando de jeito nenhum.
   Acho que foi por isso que, quando Kelly Prescott me disse oi, nem notei. Era como se ela nem estivesse ali.
   At que ela balanou a mo na frente da minha cara e disse:
   - Ol, Terra para Suze. Cmbio, Suze.
   Arranquei o olhar de Kurt e me peguei espiando Kelly, a presidente da turma do segundo ano, loura radiante e


vtima da moda. Vestia uma camisa social do pai, desabotoada para revelar o que havia por dentro, um biquni de croch verde-oliva. Tinha forro cor da pele, para
a gente no ver atravs dos furos.
   Parada ao lado estava Debbie Mancuso, a ex-namorada de meu irmo Dunga.
   - Ah, meu Deus - disse Kelly. - No fazia idia de que voc estava na praia hoje, Suze. Onde ps sua toalha?
   - Perto da torre do salva-vidas.
   - Ah, meu Deus. timo lugar. Ns estamos superlonge da escada.
   Debbie falou casualmente demais:
   - Eu notei o Rambler no estacionamento. Brad est a, com a prancha?
   Brad  o nome pelo qual todo mundo, menos eu, chama meu meio-irmo Dunga.
   -  - disse Kelly. - E Jake?
   Jake  o meio-irmo que eu chamo de Soneca. Por motivos que me so insondveis, Soneca, que est no ltimo ano da Academia da Misso, e Dunga, segundanista como 
eu, so considerados grandes partidos. Obviamente essas garotas nunca viram meus meios-irmos comendo.  uma viso absolutamente revoltante.
   - Est - falei. E como sabia o que elas queriam, acrescentei: - Por que vocs duas no se juntam  gente?
   - Legal - disse Kelly. - Vai ser manei...
   Gina apareceu e Kelly parou no meio da frase.
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   Bem, Gina  o tipo de garota que faz as pessoas pararem as frases no meio para admirar. Mede cerca de ,80m, e o fato de ter recentemente transformado o cabelo
num esfrego de cachos eriados cor de cobre, formando uma aura de dez ou doze centmetros em volta da cabea, s a fazia parecer maior. Alm disso, por acaso, estava 
usando um biquni de vinil preto, sobre o qual tinha enfiado um short que parecia feito com as argolas de um monte de latas de refrigerante.
   Ah, e o fato de que estivera no sol o dia inteiro havia escurecido sua pele normalmente caf-com-leite at ficar na cor de um caf puro, o que sempre chocava 
quando combinado com um brinco no nariz e o cabelo laranja.
   - Achei! - disse Gina empolgada, enquanto colocava uma embalagem de seis garrafas no balco ao lado de minha Diet Coke. -  isso a, cara. A perfeita combinao 
qumica.
   - Ah, Gina - falei, esperando que ela no desejasse minha participao no consumo de nenhuma daquelas garrafas. - Essas so duas amigas da escola, Kelly Prescott 
e Debbie Mancuso. Kelly, Debbie, esta  Gina Augustin, uma amiga minha de Nova York.
   Os olhos de Gina se arregalaram por trs dos culos Ray Ban. Acho que ficou pasma com o fato de que, desde que tinha me mudado para c, eu havia feito algumas 
amigas, algo que em Nova York eu certamente no tinha em grande quantidade, alm dela. Mesmo assim conseguiu controlar a surpresa e disse muito educadamente:
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   - Como vo?
   Debbie murmurou:
   - Oi.
   Mas Kelly foi direto ao ponto:
   - Onde voc conseguiu esse short incrvel?
   Foi enquanto Gina estava respondendo a ela que eu notei pela primeira vez os quatro jovens usando roupa de festa parados perto da gndola de bronzeadores.
   Voc pode estar se perguntando como eu no os tinha notado antes. Bom, a verdade  que, at aquele momento especfico, eles no estavam ali.
   E, de repente, estavam.
   Sendo do Brooklyn, j vi coisas muito mais estranhas do que quatro adolescentes vestindo roupa formal num mercadinho durante uma tarde de domingo na praia. Mas 
como aqui no era Nova York, e sim Califrnia, a viso era espantosa. Ainda mais espantoso era o fato de que os quatro estavam roubando uma embalagem de doze cervejas.
   No estou brincando. Uma embalagem de doze, em plena luz do dia, e eles vestidos nos trinques - as garotas at estavam com flores nos pulsos. Kurt no  um cientista 
espacial, verdade, mas certamente aqueles garotos no podiam pensar que ele iria deix-los sair dali com sua cerveja - particularmente vestidos com roupas de baile 
de formatura.
   Ento levantei meus culos Donna Karan para olhar melhor.
   E foi a que notei.
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   Kurt no ia fazer nada com aqueles garotos. No mesmo.
   Kurt no podia v-los.
   Porque estavam mortos.
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Captulo 2

   Ento,  isso mesmo. Eu consigo ver os mortos e falar com eles.  meu talento "especial". Voc sabe, aquele "dom" com que todos ns supostamente nascemos, que
nos torna diferentes de todo mundo no planeta, mas que to poucos de ns acabam descobrindo.
   Descobri o meu por volta dos dois anos, mais ou menos na poca em que conheci meu primeiro fantasma.
   Veja bem, meu dom especial  ser uma mediadora. Eu ajudo a guiar as almas torturadas dos recm-falecidos at seus destinos ps-vida - quaisquer que sejam eles 
- em geral limpando a baguna que deixaram para trs quando bateram as botas.
   Algumas pessoas podem achar isso muito legal - voc sabe, poder falar com os mortos. Deixe-me garantir que no  bem assim. Em primeiro lugar, com algumas poucas 
excees, normalmente os mortos no tm nada muito
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interessante a dizer. E em segundo, eu no posso andar por a contando vantagem aos meus amigos sobre esse talento incomum. Quem iria acreditar?
   Bom, de qualquer modo l estvamos ns, no mercadinho Jimmy's: eu, Kurt, Gina, Kelly, Debbie e os fantasmas.
   Uau!
   Voc pode estar se perguntando por que nesse ponto Kurt, Gina, Debbie e Kelly no saram correndo gritando da loja. At porque, olhando novamente, aqueles garotos 
eram obviamente espritos do mal. Estavam com aquela postura especial tipo Olhem para mim! Eu estou morto!, que s as assombraes tm.
   Mas  claro que Kurt, Gina, Debbie e Kelly no podiam ver esses fantasmas. S eu.
   Porque eu sou a mediadora.
    um trabalho nojento, mas algum tem de fazer.
   C entre ns: naquele momento especfico eu no estava muito a fim.
   Isso porque os fantasmas se comportavam de um modo particularmente repreensvel. Pelo que eu via, eles estavam tentando roubar cerveja. No  uma coisa nobre 
em qualquer momento e, pensando bem,  ainda mais estpida se por acaso voc estiver morto. No me entenda mal, os fantasmas bebem, sim. Na Jamaica, as pessoas tradicionalmente 
deixam copos de aguardente de coco para Chango Macho, o espiritu de la buena suerte. E, no Japo, os pescadores deixam saqu para os fantasmas de seus irmos afogados. 
E dou-lhe minha palavra: no  s a evaporao que faz o
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nvel do lquido naqueles copos baixar. A maioria dos fantasmas gosta de uma boa bebida, quando conseguem uma.
   No, o que era estpido no que aqueles fantasmas estavam fazendo era o fato de serem obviamente bastante novos nessa coisa de estar mortos, por isso ainda no 
se coordenavam muito bem. No  fcil para os fantasmas levantar coisas, mesmo coisas relativamente leves.  preciso um bocado de treino. Conheo fantasmas que so 
muito bons em chacoalhar correntes, jogar livros e at coisas mais pesadas - em geral contra a minha cabea, mas isso  outra histria.
   Mas na maioria das vezes uma embalagem de doze cervejas est muito alm das novas habilidades de um fantasma mediano, e aqueles panacas no iam conseguir. Eu 
teria dito isso a eles. Mas como era a nica que podia v-los - e que podia ver a embalagem de doze cervejas pairando atrs da gndola de bronzeadores, fora do alcance 
da viso de todos, menos da minha -, isso teria parecido meio estranho.
   Mas eles captaram a mensagem mesmo sem eu falar nada. Uma das garotas - uma loura com um vestido de festa azul-gelo - sibilou:
   - Aquela de preto est olhando para a gente!
   Um dos garotos - os dois estavam de smoking, ambos eram louros, ambos eram musculosos; o tipo bsico de atleta - disse:
   - No. Ela est olhando para o Bain de Soleil.
   Empurrei os culos para o topo da cabea, para eles verem que eu estava realmente encarando-os.
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   - Merda - disseram os garotos ao mesmo tempo. Largaram a embalagem de cerveja como se ela subitamente tivesse pegado fogo. A sbita exploso de vidro e cerveja 
fez com que todo mundo na loja -, menos eu, claro - pulasse de susto.
   Kurt, atrs do balco, ergueu os olhos do seu exemplar de Surf Digest e perguntou:
   - Que diabo...?
   Em seguida fez uma coisa muito surpreendente. Enfiou a mo sob o balco e pegou um taco de beisebol. Gina observou isso com grande interesse.
   - Vai fundo, meu querido - disse ela a Kurt.
   Kurt pareceu no ouvir essas palavras de encorajamento. Ignorou a todos ns e deu um pulo at onde a embalagem de cervejas estava, atrs da gndola de bronzeadores. 
Olhou para a sujeira espumante com vidro quebrado e papelo e perguntou de novo, em tom de lamento:
   - Que diabo...?
   S que dessa vez no disse diabo, se  que voc me entende.
   Gina foi olhar a baguna.
   - Ah, que pena - disse ela cutucando um dos cacos maiores com sua sandlia plataforma. - O que voc acha que provocou isso, um terremoto?
   Quando meu padrasto, levando-a do aeroporto para nossa casa, perguntou o que ela mais queria experimentar na Califrnia, Gina respondeu sem hesitao: "Um grande 
terremoto." Terremoto era a nica coisa que a gente no tinha muito em Nova York.
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   - No houve terremoto - disse Kurt. - E essas cervejas so da geladeira que fica naquela parede l atrs. Como vieram parar aqui?
   Kelly e Debbie se juntaram a Gina e Kurt examinando os danos e imaginando a causa. S eu fiquei para trs. Acho que poderia ter dado uma explicao, mas no creio 
que algum fosse acreditar - pelo menos se eu dissesse a verdade. Bem, Gina provavelmente acreditaria. Ela sabia um pouquinho sobre o negcio de ser mediadora - 
mais do que todo mundo que eu conhecia, com a exceo, talvez, do meu meio-irmo mais novo, Mestre, e do padre Dom.
   Mesmo assim o que ela sabia no era muito. Eu sempre meio que guardei meus negcios em segredo. Facilita as coisas, sabe.
   Achei que seria mais sensato simplesmente ficar de fora. Abri meu refrigerante e tomei um baita gole. Ah. Benzoato de potssio! Sempre bate fundo.
   S ento, com os pensamentos em devaneio, notei a manchete na primeira pgina do jornal local. Anunciava: Quatro mortos em acidente noturno.
   - Talvez algum tenha apanhado e fosse comprar - dizia Kelly - e no ltimo minuto mudou de idia e deixou ali na prateleira...
   -  - interrompeu Gina entusiasmada. - E ento um terremoto derrubou!
   - No houve terremoto - disse Kurt. S que no parecia to seguro quanto antes. - Houve?
   - Eu meio que senti alguma coisa - murmurou Debbie.
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   Kelly concordou:
   - , acho que eu senti tambm.
   - S por um minutinho - explicou Debbie.
   -  - disse Kelly.
   - Droga! - Gina ps as mos nos quadris. - Vocs esto dizendo que houve um terremoto de verdade agora mesmo, e eu perdi?
   Peguei um exemplar do jornal na pilha e desdobrei.
   
   Quatro formandos da Escola Robert Louis Stevenson morreram tragicamente num acidente de carro ontem  noite enquanto voltavam de um baile. Felicia Bruce, 17 anos; 
Mark Pulsford, 18; Josh Saunders, 18; e Carrie Whitman, 18, foram declarados mortos no local depois de uma coliso de frente num trecho perigoso da auto-estrada 
Califrnia 1 que fez o carro atravessar uma barreira de segurana e cair no mar.
   
   - Como  a sensao? - perguntou Gina. - Para eu saber, se houver outro.
   - Bem - disse Kelly. - Esse no foi muito grande. S foi... bem, se voc passou por um bocado deles, meio que sabe, certo?  como uma sensao que a gente tem; 
na nuca. Os plos ficam arrepiados.
   -  - concordou Debbie. - Foi isso que eu senti. No tanto como se o cho se mexesse embaixo de mim, mas como se uma brisa fria passasse atravs de mim bem depressa.
   - Exatamente - disse Kelly.


   Uma nvoa densa que veio do mar depois da meia-noite de ontem, provocando baixa visibilidade e condies perigosas para dirigir ao longo do litoral conhecido 
como Big Sur, teria colaborado para o acidente.
   
   - Isso no se parece com nenhum terremoto do qual eu j ouvi falar - declarou Gina, com o ceticismo ntido na voz. - Parece mais histria de fantasma.
   - Mas  verdade - insistiu Kelly. - Algumas vezes existem tremores que so to pequenos que no d para sentir realmente. So muito localizados. Por exemplo, 
h dois meses houve um terremoto que derrubou um pedao considervel de uma cobertura no ptio da nossa escola. E foi s isso. Nenhum outro dano aconteceu em outros 
lugares.
   Gina no pareceu impressionada. No sabia o que eu sabia, que aquele pedao do telhado da escola caiu no por causa de um terremoto, e sim por uma ocorrncia 
sobrenatural provocada por uma discusso entre mim e um fantasma inconformado.
   - Minha cadela sempre sabe quando vai haver um terremoto - disse Debbie. - Ela no sai de baixo da mesa da piscina.
   - Ela estava embaixo da mesa da piscina hoje de manh? - quis saber Gina.
   - Bem. No...
   
   O motorista do outro veculo, um menor cujo nome no foi revelado pela polcia, feriu-se no acidente, mas foi tratado
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e liberado do Hospital Carmel. Ainda no se sabe se o lcool teve alguma participao no acidente, mas a polcia diz que estar investigando a questo.
   - Olhem - disse Gina. Em seguida se abaixou e pegou alguma coisa no meio dos cacos. - Uma sobrevivente.
   Ela ergueu uma garrafa de Budweiser.
   - Bem - disse Kurt pegando a garrafa. - J  alguma coisa, eu acho.
   O sino na porta do Jimmy's tocou, e de repente entraram meus dois meios-irmos seguidos por dois de seus colegas surfistas. Tinham tirado as roupas de neoprene 
e abandonado as pranchas em algum lugar. Aparentemente estavam numa pausa para comer carne-seca, porque foi na direo dela, sobre o balco, que se dirigiram.
   - Oi, Brad - disse Debbie em tom de flerte.
   Dunga se separou da carne-seca por tempo suficiente para dizer oi de volta, de um modo extremamente desajeitado - desajeitado porque, mesmo que fosse com Debbie 
que Dunga estava ficando, era de Kelly que ele realmente gostava.
   Mas o pior era que, desde a chegada de Gina, ele tambm a vinha paquerando de modo escandaloso.
   - Oi, Brad - disse Gina. Seu tom no era de flerte. Gina jamais flertava. Era muito direta com os garotos. Por esse motivo, desde a stima srie no ficava sem 
algum para sair nas noites de sbado. - Oi, Jake.
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   Com a boca cheia de carne, Soneca se virou para ela e piscou. Eu achava que Soneca tinha algum problema com drogas, mas depois descobri que ele est sempre desse 
jeito.
   - Oi - disse Soneca. Em seguida engoliu e fez uma coisa extraordinria. Bem, pelo menos para Soneca.
   Sorriu.
   Foi realmente demais. Eu morava com esses caras h quase dois meses, desde que mame tinha se casado com o pai deles e me feito mudar do outro lado do pas para 
vivermos todos juntos e sermos Uma Grande Famlia Feliz, e durante esse tempo talvez eu tenha visto Soneca sorrir umas duas vezes. E agora ali estava ele, babando 
pela minha melhor amiga.
   Fiquei enjoada, juro. Enjoada!
   - E a - disse Soneca. - Vocs vo voltar l para baixo? Quero dizer, para a gua?
   - Bom - respondeu Kelly devagar. - Acho que depende...
   Gina foi direto ao ponto:
   - O que vocs vo fazer? - perguntou aos garotos.
   - Vamos voltar e ficar mais uma hora, mais ou menos - respondeu Soneca. - Depois vamos parar para comer uma pizza. Est a fim?
   - Pode ser - disse Gina. E me olhou interrogativamente. - Simon?
   Segui a direo de seu olhar, e vi que ela havia notado o jornal na minha mo. Coloquei-o de volta rapidamente.
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   - Claro - falei. - Tanto faz.
   Achei que era melhor comer enquanto ainda podia. Estava com a sensao de que em breve ficaria bem ocupada.
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Captulo 3

   Ah - disse o padre Dominic. - Os Anjos da RLS. Nem olhei para ele. Estava jogada numa das cadeiras que ele mantm diante de sua mesa, jogando um Gameboy que um 
dos professores tinha confiscado de algum aluno e que no fim foi parar na gaveta de baixo da mesa do diretor. Seria bom ter essa gaveta do padre Dom em mente quando 
o Natal chegasse. Tinha uma boa idia de onde arranjar presentes para Soneca e Dunga.
   - Anjos? - resmunguei, e no somente porque estava perdendo feio no Tetris. - No havia nada muito anglico neles, se  que o senhor quer saber.
   - Eram jovens muito bonitos, pelo que eu soube. - O padre Dominic comeou a remexer nas pilhas de papel sobre a mesa. - Lderes de turma. Jovens muito inteligentes. 
Acho que foi o diretor da escola que os chamou de Anjos da RLS no comunicado  imprensa sobre a tragdia.
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   - H. - Tentei virar um objeto de formato estranho e enfiar no pequeno espao destinado a ele. - Anjos que estavam tentando levantar uma caixa de doze cervejas.
   - Aqui. - O padre Dom achou um exemplar do jornal que eu tinha olhado na vspera, s que ele, diferentemente de mim, havia se dado ao trabalho de abri-lo. Foi 
at o obiturio, onde havia fotos dos falecidos. - D uma olhada, veja se so os jovens que voc viu.
   Entreguei-lhe o Gameboy.
   - Termine esse jogo para mim - falei, pegando o jornal.
   O padre Dominic olhou para o Gameboy, consternado.
   - Minha nossa. Acho que eu no...
   -  s girar as formas para fazer com que elas se encaixem nos espaos embaixo. Quanto mais fileiras o senhor completar, melhor.
   - Ah - respondeu o padre Dominic. O Gameboy soltava bings e bongs enquanto ele apertava os botes freneticamente. - Minha nossa. Acho que qualquer coisa mais 
complicada do que um jogo de pacincia no computador...
   Sua voz sumiu enquanto se entretinha no jogo. Embora eu devesse estar lendo o jornal, olhei para ele.
    um velhinho gentil, o padre Dominic. Normalmente est furioso comigo, mas isso no significa que eu no goste dele. Na verdade eu estava ficando surpreendentemente 
ligada ao cara. Descobri que mal podia esperar, por exemplo, para vir correndo contar a ele sobre os garotos que tinha visto no mercadinho. Acho que  porque, aps 
16 anos sem poder contar a ningum sobre minha capacidade
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"especial", finalmente havia algum com quem podia me abrir, j que o padre Dom tinha a mesma capacidade "especial" - algo que descobri no primeiro dia na Academia 
da Misso Junpero Serra.
   Mas o padre Dominic  um mediador muito melhor do que eu. Bem, talvez no melhor. Mas diferente, sem dvida. Veja s, ele realmente acha que  melhor tratar os 
fantasmas com orientao gentil e conselhos srios - e o mesmo se aplica aos vivos. Eu sou mais a favor de uma abordagem direto ao ponto, que tende a envolver meus 
punhos.
   Bem, algumas vezes esses mortos simplesmente no ouvem.
   Nem todos, claro. Alguns so timos ouvintes. Como o que mora no meu quarto, por exemplo.
   Mas ultimamente venho fazendo o mximo para no pensar nele mais do que o necessrio.
   Voltei a ateno ao jornal que o padre Dom tinha me entregado. , ali estavam eles, os Anjos da RLS. A mesma garotada que eu tinha visto antes no Jimmy's, s 
que nas fotos da escola no usavam roupas de festa.
   O padre Dom estava certo. Eram bonitos. E inteligentes. E lderes. Felcia, a mais nova, fora chefe da torcida da escola. Mark Pulsford fora capito do time de 
futebol. Josh Saunders tinha sido presidente da turma no ltimo ano. Carrie Whitman tinha sido a rainha do baile das boas-vindas no ltimo perodo - o que no  
exatamente um cargo de liderana, mas mesmo assim era eleito de modo bastante
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democrtico. Quatro jovens inteligentes e bonitos, todos mortinhos da Silva.
   E, pelo que eu sabia, a fim de barbarizar.
   Os obiturios eram tristes e coisa e tal, mas eu no tinha conhecido aquela gente. Eles estudavam na escola Robert Louis Stevenson, a maior rival da nossa. A 
Academia da Misso Junpero Serra, onde eu e meus meios-irmos estudvamos, e da qual o padre Dom  o diretor, vive levando surras acadmicas e esportivas da RLS. 
E ainda que eu no possua muito esprito escolar, sempre senti uma queda pelos perdedores - o que, em comparao com a RLS, a Academia da Misso , sem dvida.
   Por isso no ia ficar toda sentida devido  perda de alguns alunos da RLS. Especialmente sabendo o que eu sabia.
   No que soubesse grande coisa. Na verdade no sabia nada. Mas na noite anterior, aps voltar para casa depois da pizza com Soneca e Dunga, Gina havia sucumbido 
ao jet lag - ns temos trs horas de diferena com relao a Nova York, de modo que, por volta das nove horas, Gina praticamente apagou no sof-cama que mame tinha 
comprado para ela dormir no meu quarto durante a estada.
   No me importei exatamente. O sol tinha me exaurido, de modo que fiquei bastante satisfeita em me sentar na cama, do outro lado do quarto, e fazer o dever de 
geometria que tinha prometido a mame que terminaria antes da chegada de Gina.
   Foi mais ou menos nessa hora que Jesse se materializou de repente perto da minha cama.
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   - Shiu! - reagi quando ele comeou a falar e apontei para Gina. Eu tinha lhe explicado, bem antes da chegada dela, que Gina vinha de Nova York ficar uma semana, 
e que eu agradeceria se ele fosse discreto durante a visita.
   No  exatamente uma piada ter de dividir o quarto com o inquilino anterior - o fantasma do inquilino anterior, devo dizer, j que Jesse est morto h cerca de 
um sculo e meio.
   Por outro lado, consigo entender muito bem a posio de Jesse. No  sua culpa ter sido assassinado - pelo menos  como suspeito que ele morreu. Ele - compreensivelmente 
- no se sente muito ansioso para falar sobre isso.
   E acho que tambm no  culpa dele se, depois da morte, em vez de partir para o cu, ou para o inferno, ou para outra vida, ou sei l para onde as pessoas vo 
depois que morrem, ele tenha acabado preso no quarto onde foi morto. Porque, independentemente do que voc possa pensar, a maioria das pessoas no vira fantasma. 
Graas a Deus. Se fosse assim, minha vida social seria to... no que ela seja fantstica, para comear. As nicas pessoas que viram fantasmas so as que deixam 
algum tipo de negcio inacabado.
   No fao a menor idia quanto ao que Jesse deixou inacabado - e a verdade  que tambm no creio que ele saiba. Mas no parece justo que, se estou destinada a 
dividir o quarto com o fantasma de um defunto, o defunto seja to gato.
   Srio mesmo. Jesse  lindo demais para minha paz de esprito. Eu posso ser mediadora, mas ainda sou humana, caramba.
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   Mas, de qualquer modo, ali estava ele, depois de eu ter lhe dito muito educadamente que passasse um tempo sem aparecer. Todo masculino, gato e coisa e tal na 
roupa de fora-da-lei do sculo XIX que ele sempre usa. Voc conhece o tipo: com aquelas calas pretas justas e a camisa branca aberta at o...
   - Quando ela vai embora? - perguntou Jesse, levando minha ateno do lugar at onde sua camisa se abria, revelando abdominais extremamente musculosos, at o rosto. 
Um rosto que, como provavelmente no preciso enfatizar,  totalmente perfeito, a no ser por uma pequena cicatriz branca numa das sobrancelhas escuras.
   Ele nem se incomodou em sussurrar. Gina no poderia ouvi-lo.
   -J falei - respondi. Eu, por outro lado, tinha de sussurrar, uma vez que havia grande probabilidade de ser ouvida. - No domingo que vem.
   - Tanto tempo assim?
   Jesse estava irritado. Eu gostaria de dizer que ele estava irritado porque considerava cada momento que eu passava com Gina um momento roubado dele, e que se 
ressentia profundamente dela por causa disso.
   Mas, para ser honesta, duvido tremendamente que fosse isso. Tenho quase certeza de que Jesse gosta de mim, e coisa e tal...
   Mas s como amiga. No de um modo especial. Por que deveria? Ele tem cento e cinqenta anos - cento e setenta se voc contar o fato de que estava com uns vinte 
quando
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morreu. O que um cara que viveu cento e setenta anos de coisas poderia ver numa garota de dezesseis anos do segundo ano do segundo grau que nunca teve namorado e 
nem consegue passar no exame de motorista?
   No podia ser grande coisa.
   Vamos encarar os fatos, eu sabia perfeitamente bem por que Jesse queria que Gina fosse embora.
   Por causa de Spike.
   Spike  o nosso gato. Digo "nosso" gato porque, apesar de os animais em geral no suportarem fantasmas, Spike desenvolveu uma estranha afinidade com Jesse. O 
seu afeto por Jesse equilibra, de certo modo, sua total falta de considerao para comigo, mesmo que seja eu quem lhe d comida, limpe sua caixa de areia e, ah, 
sim, o tenha resgatado de uma vida de privaes nas malvadas ruas de Carmel.
   E aquela coisa idiota demonstra um mnimo de gratido por mim? De jeito nenhum. Mas Jesse, ele adora. Na verdade, Spike passa a maior parte do tempo fora de casa 
e s se incomoda em aparecer quando sente que Jesse pode ter se materializado.
   Como agora, por exemplo. Ouvi uma batida familiar no telhado da varanda - Spike pousando depois de pular do pinheiro em que sempre sobe para chegar ali - e depois 
o grande pesadelo laranja estava passando pela janela que eu tinha deixado aberta para ele, miando de dar d, como se no tivesse sido alimentado h sculos.
   Quando Jesse viu Spike, foi at ele e comeou a co-lo atrs das orelhas, fazendo o gato ronronar to alto que achei que fosse acordar Gina.
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   - Olhe - falei. -  s por uma semana. Spike vai sobreviver.
   Jesse me olhou com uma expresso que parecia sugerir que eu havia escorregado alguns pontos na escala de QI.
   - No  com o Spike que estou preocupado.
   Isso s serviu para me confundir. Eu sabia que no podia ser comigo que Jesse estava preocupado. Quero dizer, acho que entrei em algumas encrencas desde que o 
conheci - encrencas das quais, com freqncia, Jesse teve de me tirar. Mas agora no estava acontecendo nada. Bem, fora os quatro garotos mortos que eu tinha visto 
 tarde no Jimmy's.
   - ? - Olhei Spike virar a cabea para trs num xtase bvio enquanto Jesse o coava embaixo do queixo. - Ento o que ? Gina  maneira, voc sabe. Mesmo que 
ela descobrisse sobre voc, duvido que iria sair correndo e gritando do quarto, ou sei l o qu. Ela provavelmente s iria querer sua camisa emprestada uma hora 
dessas, ou algo do tipo.
   Jesse olhou para minha hspede. De Gina s dava para ver uns calombos embaixo do edredom e um monte de caracis cor de cobre espalhados no travesseiro embaixo 
da cabea.
   - Tenho certeza de que ela  muito... maneira - disse Jesse, meio hesitante. Algumas vezes meu vocabulrio do sculo XXI o incomoda. Mas tudo bem. Seu emprego 
freqente do espanhol, lngua da qual no falo uma palavra, me incomoda. - S que aconteceu uma coisa...
   Isso me deixou alerta. Ele parecia bastante srio. Tipo, talvez o que houvesse acontecido era que ele finalmente
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percebeu que eu era a mulher perfeita para ele, e que durante todo esse tempo ele vinha lutando contra uma atrao avassaladora por mim, e que finalmente teve de 
desistir da luta diante de minha incrvel irresistibilidade.
   Mas a ele teve de dizer:
   - Andei ouvindo umas coisas.
   Afundei nos travesseiros, desapontada.
   - Ah. Ento voc sentiu uma perturbao na Fora, foi, Luke?
   Jesse franziu as sobrancelhas, perplexo.  claro que no fazia idia do que eu estava falando. Meus raros ataques de humor espirituoso so quase sempre desperdiados
com ele. No  de se espantar que no esteja nem um pouquinho apaixonado por mim.
   Suspirei e disse:
   - Ento voc ouviu algo de podre no reino dos fantasmas. O que foi?
   Jesse costumava captar coisas que aconteciam no que eu gosto de chamar de plano espectral, coisas que frequentemente no tm nada a ver com ele, mas que em geral 
terminam me envolvendo, muitas vezes de algum modo que pe minha vida em risco - ou pelo menos fazendo uma confuso terrvel. Na ltima vez em que ele tinha "ouvido 
umas coisas" acabei quase sendo morta por um empresrio imobilirio psictico.
   Ento acho que d para ver por que meu corao no fica exatamente empolgado quando Jesse diz que ouviu alguma coisa.
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   - H alguns recm-chegados - disse ele enquanto continuava a acariciar Spike. - Jovens.
   Levantei as sobrancelhas, lembrando-me dos garotos vestidos com roupa de baile no Jimmy's.
   - ?
   - E esto procurando alguma coisa.
   - . Eu sei. Cerveja.
   Jesse balanou a cabea. Estava com uma expresso meio distante, e no olhava para mim, e sim meio que para alm de mim, como se houvesse uma coisa bem distante, 
logo atrs do meu ombro direito.
   - No - disse ele. - No  cerveja. Eles esto procurando algum. E esto com raiva. - Seus olhos escuros entraram em foco e se cravaram no meu rosto. - Esto 
com muita raiva, Suzannah.
   Seu olhar era to intenso que tive de baixar o meu. Os olhos de Jesse so de um castanho to profundo, e muitas vezes no sei onde terminam suas pupilas e comeam 
as ris.  meio irritante. Quase to irritante quanto o modo como ele sempre me chama pelo nome inteiro, Suzannah. Ningum, alm do padre Dominic, me chama assim.
   - Com raiva? - Olhei para o caderno de geometria. Os garotos que eu vi no pareciam raivosos. Com medo, talvez, depois de perceberem que eu podia v-los. Mas 
no com raiva. Achei que ele devia estar falando de outras pessoas. - Tudo bem. Ficarei de olhos bem abertos. Obrigada - agradeci.
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   Jesse parecia a fim de dizer mais alguma coisa, mas de repente Gina rolou, levantou a cabea e franziu os olhos na minha direo.
   - Suze? - disse ela, sonolenta. - Com quem voc est falando?
   - Ningum. - Rezei para que ela no pudesse ler a culpa na minha expresso. Odeio mentir para Gina. Afinal de contas, ela  minha melhor amiga. - Por qu?
   Gina se apoiou nos cotovelos e olhou boquiaberta para Spike.
   - Ento esse  o famoso Spike, de quem ouvi seus irmos falarem tanto? Nossa, ele  feio mesmo.
   Jesse, que tinha ficado onde estava, ficou na defensiva. Spike era o seu xod, e ningum pode sair chamando o xod de Jesse de feio.
   - Ele no  to mau - falei, esperando que Gina captasse a mensagem e calasse a boca.
   - Voc est fumando crack? Simon, esse negcio a s tem uma orelha.
   De repente, o grande espelho com moldura dourada acima da penteadeira comeou a tremer. Ele tinha uma tendncia a fazer isso sempre que Jesse ficava chateado, 
chateado de verdade.
   Sem saber disso, Gina olhou o espelho numa empolgao crescente.
   - Ei! - exclamou ela. - Isso a! Mais um!
   Queria dizer um terremoto, claro, mas este, como o anterior, no era terremoto. Era s Jesse soltando fogo pelas ventas.
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   A prxima coisa que eu vi foi um vidro de esmalte de unhas que Gina tinha deixado na penteadeira sair voando e, desafiando a lei da gravidade, pousar de cabea 
para baixo na mala que ela havia posto no cho, perto do sof-cama, a mais de dois metros de distncia.
   Provavelmente no preciso acrescentar que o vidro de esmalte - que era verde-esmeralda - estava sem tampa. E que foi parar em cima das roupas que Gina ainda no 
havia tirado da mala.
   Gina soltou um grito agudo terrvel, jogou o edredom longe e mergulhou no cho, tentando salvar o que pudesse. Enquanto isso, eu lanava um olhar raivoso para 
Jesse.
   Mas tudo que ele disse foi:
   - No me olhe assim, Suzannah. Voc ouviu o que ela falou sobre ele - Jesse parecia magoado. - Chamou de feio.
   Resmunguei:
   - Eu digo que ele  feio o tempo todo, e voc nunca faz isso comigo.
   Ele levantou a sobrancelha que tinha a cicatriz e falou:
   - Bem,  diferente quando voc diz.
   E ento, como se no suportasse nem mais um minuto, desapareceu abruptamente, deixando Spike muito desolado - e Gina muito confusa.
   - No entendo - disse ela enquanto levantava um mai de oncinha que agora estava manchado, sem recuperao.
   - No entendo como isso aconteceu. Primeiro a cerveja naquele mercadinho e agora isso. Vou lhe contar, a Califrnia  esquisita.
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   Refletindo sobre tudo isso na sala do padre Dominic na manh seguinte, acho que consegui entender como Gina se sentiu. Quero dizer, provavelmente parecia que 
as coisas estavam voando um bocado ultimamente. O denominador comum, que Gina ainda no tinha notado,  que elas s voavam quando eu estava presente.
   Tive a sensao de que, se ela ficasse a semana inteira, iria acabar sacando. E rpido.
   O padre Dominic estava vidrado no Gameboy que eu lhe dera. Larguei a pgina do obiturio e disse:
   - Padre Dom.
   Seus dedos voavam freneticamente sobre os botes que controlavam as peas do jogo.
   - Um minuto, por favor, Suzannah.
   - Olha, padre Dom. - Balancei o jornal na sua direo. - So eles. Os garotos que eu vi ontem.
   - Ah - disse o padre. O Gameboy soltou bipes.
   - Ento acho que devemos ficar atentos. O Jesse me falou... - O padre Dominic sabia sobre Jesse, embora o relacionamento deles no fosse, digamos, dos mais ntimos: 
o padre D tinha um enorme problema com o fato de que, basicamente, havia um rapaz morando no meu quarto. Ele bateu um papo particular com Jesse, mas apesar de ter 
sado meio tranqilizado - sem dvida com o fato de que Jesse obviamente no tinha o menor interesse por mim, em termos amorosos -, mesmo assim ficava claramente 
desconfortvel sempre que o nome de Jesse era citado, por isso eu s tentava mencion-lo quando
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era absolutamente necessrio. Agora achei que fosse uma dessas ocasies.
   - Jesse falou que sentiu uma grande... ... agitao por l. - Pousei o jornal e apontei para cima, por falta de uma direo melhor. - E muita raiva. Parece que 
temos uns turistas infelizes por a. Disse que eles esto procurando algum. A princpio achei que no podia estar falando desses caras - bati no jornal -, porque 
tudo que eles pareciam estar procurando era cerveja. Mas  possvel que tenham outro objetivo. - Um objetivo mais assassino, pensei, mas no falei alto.
   Mas o padre Dom, como acontecia sempre, pareceu ler meus pensamentos.
   - Que coisa, Suzannah! - disse ele erguendo o olhar da tela do Gameboy. - Voc no pode estar pensando que esses jovens que voc viu e a agitao sentida por 
Jesse tenham alguma relao, pode? Porque devo dizer que acho muito improvvel. Pelo que eu soube, os Anjos eram apenas isso... verdadeiros faris em sua comunidade.
   Nossa! Faris! Imaginei se havia algum que algum dia falaria de mim como um farol, depois que eu morrer. Duvidei tremendamente. Nem minha me chegaria to longe.
   Mas guardei meus sentimentos. Sabia, pela experincia, que o padre D no ia gostar do que eu estava pensando, que dir acreditar. Em vez disso falei:
   - Bem, s fique de olhos abertos, certo? Avise se vir esse pessoal por a. Quero dizer, os... ... Anjos.
   - Claro. - O padre Dom balanou a cabea. - Que tragdia! Coitados. To inocentes. To jovens. Ah. Minha nossa.
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- Ele levantou o Gameboy, sem jeito. - Pontuao mxima.
   Foi ento que decidi que eu tinha passado tempo suficiente na sala do diretor para um dia s. Gina, que havia estudado comigo l no Brooklyn, tirava frias de 
primavera num perodo diferente da Academia da Misso, por isso, enquanto passava as frias na Califrnia, precisava suportar alguns dias me seguindo de uma sala 
de aula  outra - pelo menos at eu descobrir um modo de matar aula sem ser apanhada. Gina estava na aula de histria geral, do sr. Walden, e eu no tinha dvidas 
de que estava se metendo em todo tipo de encrenca enquanto eu ficava longe.
   - Certo, ento - falei me levantando. - Avise se souber de mais alguma coisa sobre esses garotos.
   - Sim, sim - disse o padre Dominic com a ateno fixa de novo no Gameboy. - Tchau.
   Enquanto saa de sua sala, pude jurar que o ouvi dizer um palavro depois que o Gameboy soltou um bipe de alerta. Mas isso seria to improvvel que devo ter ouvido 
mal.
   . Certo.
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Captulo 4
   
   Quando voltei  aula de histria geral, Kelly Prescott, meu amigo Adam, Rob Kelleher - um dos atletas da turma e amigo do Dunga - e um garoto quieto cujo nome 
nunca lembro estavam acabando uma apresentao chamada Corrida Armamentista Nuclear: Quem Chegar na Frente?
   Era uma tarefa idiota, se voc me perguntasse. Digo, com a queda do comunismo na Rssia, quem se importava?
   Acho que esse era o ponto. A gente deveria se importar. Porque, como revelavam os cartazes que o grupo de Kelly estava segurando, havia alguns pases com mais 
bombas e coisas parecidas do que ns.
   - Certo - estava dizendo Kelly enquanto eu entrava e colocava o passe de sada na mesa do sr. Walden antes de ir para minha carteira. - Tipo, como vocs podem 
ver, os Estados Unidos tm um bom estoque de msseis e coisa e
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tal, mas quanto a tanques, os chineses tm sido bem melhores em incrementar seu aparato militar... - Kelly apontou para um punhado de pequenas bombas vermelhas em 
seu grfico. - E eles poderiam nos aniquilar totalmente, se quisessem.
   - S que - observou Adam - h mais armas de uso particular nos Estados Unidos do que em todo o exrcito chins, de modo que...
   - E da? - perguntou Kelly. Eu podia sentir que havia alguma diviso entre as tropas daquele grupo especfico. - De que adiantam armas particulares contra tanques? 
Tenho certeza de que todos vamos ficar atirando com nossas armas pessoais contra os tanques com os quais os chineses vo nos esmagar.
   Adam revirou os olhos. No estava exatamente empolgado por ficar num grupo com Kelly.
   -  - disse Rob.
   A nota para os trabalhos em grupo era dividida; eram dados trinta por cento pela participao. Acho que esse "" foi a contribuio de Rob.
   O garoto cujo nome eu no sabia no disse nada. Era alto e magro, de culos. Tinha o tipo de pele branca e opaca que tornava bvio que no ia muito  praia. O 
Palm Pilot no bolso da camisa revelava por qu.
   Gina, que estava sentada atrs de mim, se inclinou e me entregou um bilhete escrito numa pgina do caderno espiral em que estivera rabiscando.
   Onde  que voc esteve?
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   Peguei uma caneta e escrevi de volta: Eu disse a voc. O diretor queria me ver.
   Por qu?, perguntou Gina. Voc andou armando seus velhos truques de novo?
   No a culpei por perguntar. Digamos apenas que na nossa escola antiga, l no Brooklyn, eu era obrigada a matar aula um bocado. Bem, o que voc esperava? Eu era 
a nica mediadora em todos os cinco distritos de Nova York.  muito fantasma! Aqui pelo menos eu tinha o padre D para ajudar de vez em quando.
   Escrevi de volta: Nada do tipo. O padre Dom  o conselheiro do nosso grmio estudantil. Tive de verificar com ele uns gastos recentes.
   Achei que esse seria um tpico to chato que Gina iria deixar de lado, mas no fez isso, no mesmo.
   E da? O que foram? Quero dizer, os gastos?
   De repente o caderno foi arrancado das minhas mos. Ergui os olhos e vi Cee Cee, que sentava na minha frente nessa aula e havia se tornado minha melhor amiga 
desde que eu tinha me mudado para a Califrnia, rabiscar nele furiosamente. Alguns segundos depois ela o passou de volta.
   Voc soube?, tinha escrito Cee Cee em sua letra esparramada. Sobre o Michael Meducci?
   Escrevi de volta: Acho que no. Quem  Michael Meducci?
   Quando leu o que eu tinha escrito Cee Cee fez uma careta e apontou para o garoto parado na frente da sala, o branquelo com o Palm Pilot.
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   Ah, murmurei. Bom, eu s estava na Academia da Misso h dois meses, desde janeiro. Ento me processe se ainda no sabia o nome de todo mundo.
   Cee Cee se curvou sobre o caderno, escrevendo o que parecia ser um romance. Gina e eu trocamos olhares. Gina pareceu achar divertido. Parecia achar toda a minha 
existncia na Costa Oeste tremendamente divertida.
   Por fim Cee Cee entregou o caderno. Tinha rabiscado nele: Mike  que estava dirigindo o outro carro naquele acidente na Estrada Pacific Coast na noite de sbado. 
Voc sabe, aquele em que morreram os quatro alunos da RLS.
   Uau, pensei. Essa  a vantagem de ser amiga da editora do jornal estudantil. De algum modo Cee Cee sempre consegue saber tudo sobre todo mundo.
   Ouvi dizer que ele vinha da casa de um amigo, escreveu ela. Havia neblina, e acho que eles no se viram at o ltimo minuto, quando todo mundo virou o volante. 
O carro dele subiu num barranco, mas o dos outros bateu na barreira de proteo e mergulhou sessenta metros dentro do mar. Todo mundo no outro carro morreu, mas 
Michael escapou s com duas costelas contundidas por causa do air-bag.
   Levantei os olhos e espiei Mike Meducci. No parecia um garoto que naquele fim de semana tinha se envolvido num acidente que matou quatro pessoas. Parecia um 
garoto que talvez tivesse ficado acordado at tarde jogando videogame ou participando de uma sala de bate-papo sobre Guerra nas estrelas na internet. Eu estava sentada 
muito longe para ver se os dedos dele, segurando o cartaz,
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tremiam, mas na expresso tensa do seu rosto havia alguma coisa sugerindo que estavam.
    especialmente trgico, rabiscou Cee Cee, quando a gente considera o fato de que no ms passado a irm menor dele - voc no a conhece, ela  da oitava srie 
- quase se afogou numa festa  beira da piscina e est em coma desde ento. Isso  que  maldio de famlia...
   - Ento, concluindo - disse Kelly, sem tentar fingir que no estava lendo numa ficha e juntando todas as palavras de modo que mal dava para perceber o que estava 
falando. - Os-Estados-Unidos-precisam-gastar-muito-mais-dinheiro-incrementando-seu-aparato-militar-porque-ficamos-atrasados-com-relao-aos-chineses-e-eles-podem-nos-atacar-quando-




quiserem-obrigada.
   O sr. Walden estivera sentado com os ps apoiados na mesa, olhando por cima de nossas cabeas, para o mar, que d para ver claramente pelas janelas da maioria 
das salas de aula da Academia da Misso. Agora, ouvindo o silncio sbito que caiu sobre a sala, levou um susto e baixou os ps no cho.
   - Muito bem, Kelly - disse, ainda que obviamente no tivesse escutado uma palavra do que ela havia dito. - Algum tem alguma pergunta para Kelly? Certo, timo, 
prximo grupo...
   Ento o sr. Walden piscou para mim.
   - H... - disse ele numa voz estranha. - Sim?
   Como eu no tinha levantado a mo nem indicado que tinha algo a dizer, fiquei meio pasma. Ento uma voz atrs de mim disse:
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   - H, desculpe, mas essa concluso de que ns, como pas, precisamos comear a incrementar o arsenal militar para competir com os chineses me parece tremendamente 
mal concebida.
   Virei-me lentamente na cadeira e olhei para Gina. Ela estava com uma expresso perfeitamente calma. Mesmo assim eu a conhecia.
   Ela estava entediada. E esse era o tipo de coisa que Gina fazia quando estava entediada.
   O sr. Walden se ajeitou ansioso na cadeira e disse:
   - Parece que a convidada da srta. Simon discorda da concluso  qual vocs chegaram, Grupo Sete. Como gostariam de responder?
   - Mal concebida em que sentido? - perguntou Kelly, sem consultar qualquer um dos membros do grupo.
   - Bem, eu s acho que o dinheiro do qual vocs esto falando seria mais bem gasto em outras coisas, alm de garantir que ns tenhamos tantos tanques quanto os 
chineses - disse Gina. - Quero dizer, quem se importa se eles tm mais tanques do que ns? Eles no vo poder dirigir todos os tanques at a Casa Branca e dizer: 
"Certo, rendam-se agora, porcos capitalistas." Puxa, h um oceano bem grande entre ns, no ?
   O sr. Walden estava praticamente batendo palmas de alegria.
   - Ento como sugere que o dinheiro seja mais bem gasto, srta. Augustin?
   Gina deu de ombros.
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   - Bem, em educao,  claro.
   - De que adianta a educao - quis saber Kelly - quando h um tanque apontando para voc?
   Adam, parado junto de Kelly, revirou os olhos expressivamente.
   - Talvez se ns educssemos melhor as geraes futuras - disse ele - elas possam evitar a guerra, atravs da diplomacia criativa e do dilogo inteligente com 
os outros homens.
   -  - concordou Gina. - O que ele disse.
   - Com licena, mas vocs todos piraram? - perguntou Kelly.
   O sr. Walden jogou um pedao de giz na direo do Grupo Sete. O giz acertou o cartaz deles com rudo e quicou. Esse no era um comportamento incomum da parte 
do sr. Walden. Ele costumava jogar giz quando achava que no estvamos prestando ateno, particularmente depois do almoo, quando todos ficvamos meio atordoados 
por ter ingerido salsichas demais.
   Incomum de verdade foi a reao de Mike Meducci quando o giz acertou o cartaz que ele estava segurando. Soltou o grfico com um grito e se abaixou - se abaixou 
de verdade, com as mos em cima do rosto - como se um tanque chins estivesse indo em sua direo.
   O sr. Walden no notou isso. Ainda estava furioso demais.
   - A tarefa de vocs era levantar uma argumentao persuasiva - gritou para Kelly. - Querer saber se os detratores de sua posio piraram no  argumentar persuasivamente.
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   - Mas srio, sr. Walden - disse Kelly. - Se eles olhassem o grfico, veriam que os chineses tm muito mais tanques do que ns, e nem toda a educao do mundo 
vai mudar isso...
   Foi nesse ponto que o sr. Walden notou Mike saindo de sua posio defensiva.
   - Meducci - disse ele resoluto. - O que h com voc?
   Percebi que o sr. Walden no sabia como Mike tinha passado o fim de semana. Talvez tambm no soubesse da irm em coma. Como Cee Cee conseguia descobrir essas
coisas que nem nossos professores sabiam sempre foi um mistrio para mim.
   - N... nada - gaguejou Mike, parecendo mais plido do que nunca. Havia algo estranho em sua expresso. Eu no conseguia identificar exatamente o que havia de 
errado, mas era algo a mais do que a tpica falta de jeito dos nerds. - D... desculpe, sr. Walden.
   Scott Turner, um dos amigos de Dunga, sentado a algumas carteiras de onde eu estava, murmurou "D... desculpe, sr. Walden" em um sussurro esganiado, mas mesmo 
assim suficientemente alto para ser ouvido por todo mundo na sala, especialmente por Michael, cujo rosto plido ganhou um pouquinho de cor quando os risinhos o alcanaram.
   Como vice-presidente da turma do segundo ano  meu dever instilar disciplina nos colegas durante as reunies do diretrio. Mas eu levo as responsabilidades executivas 
bem a srio e costumo corrigir o comportamento dos meus colegas mais desordeiros sempre que acho necessrio, no somente nas assemblias do diretrio.
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   Por isso me inclinei e sussurrei:
   - Ei, Scott.
   Scott, ainda rindo de sua prpria piada, me olhou. E parou de rir abruptamente.
   No sei exatamente o que eu ia dizer - teria de ter algo a ver com o ltimo encontro de Scott com Kelly Preston e uma pina - mas infelizmente o sr. Walden foi 
mais rpido.
   - Turner - gritou ele. - Quero uma redao de mil palavras sobre a batalha de Gettysburg na minha mesa amanh de manh. Grupo Oito, prepare-se para fazer a apresentao 
amanh. A turma est dispensada.
   No h sistema de campainha na Academia da Misso. Ns mudamos de sala a cada hora, e devemos fazer isso em silncio. Todas as salas de aula da Academia da Misso 
se abrem para caminhos cobertos, ao ar livre, que do para o lindo ptio contendo um monte de palmeiras bem altas, uma fonte e uma esttua do fundador da misso, 
Junpero Serra. A Misso, com uns trezentos anos de idade, atrai um bocado de turistas, e o ptio  o ponto alto do passeio, depois da baslica.
   O ptio  um dos meus locais prediletos para sentar e meditar sobre coisas como... ah, no sei: como tive a infelicidade de nascer uma mediadora e no uma garota 
normal, porque no consigo fazer Jesse gostar de mim, voc sabe, daquele modo especial. O som da fonte borbulhando, o chilreio dos pardais nos caibros dos caminhos 
cobertos, o zumbido das asas dos beija-flores em volta dos hibiscos do
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tamanho de pratos, a conversa em voz baixa dos turistas - que sentem a grandiosidade do lugar e baixam as vozes - tudo isso tornava o ptio da Misso um local tranqilo 
onde se sentar e meditar sobre o destino.
   Mas tambm era um dos locais preferidos pelas novias para ficar paradas esperando estudantes inocentes passarem falando alto demais entre as aulas.
   Mas ainda no fora criada uma novia que mantivesse Gina quieta.
   - Cara, aquilo foi uma tremenda besteira - reclamou ela em voz alta enquanto amos at o meu armrio. - Que tipo de concluso foi aquela? Tenho toda a certeza
de que os chineses viro em tanques para nos atacar! Mas como  que vo chegar aqui? Passando pelo Canad?
   Tentei no rir, mas era difcil. Gina estava escandalizada.
   - Eu sei que aquela garota  presidente da turma - continuou ela -, mas por falar em loura burra...
   Cee Cee, que estivera andando ao nosso lado, resmungou:
   - Cuidado. - No, como eu tinha pensado, porque, sendo albina, Cee Cee  a mais loura das louras, mas porque uma novia estava lanando adagas pelos olhos na
nossa direo, do outro lado do ptio.
   - Ah, bom,  voc - disse Gina quando notou Cee Cee, deixando totalmente de perceber seu olhar de alerta para a novia e sem baixar a voz nem um pouco. - Simon,
a Cee Cee aqui disse que vai ao shopping depois da aula.
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   -  aniversrio da minha me - explicou Cee Cee num pedido de desculpas. Ela sabe como eu me sinto com relao a shoppings. Gina, que sempre tivera uma espcie
de memria seletiva, aparentemente havia esquecido. - Tenho de comprar um perfume, um livro, ou sei l o qu para ela.
   - O que voc acha? - perguntou Gina. - Quer ir com ela? Eu nunca estive num verdadeiro shopping da Califrnia. Quero dar uma olhada.
   - Voc sabe que a Gap vende a mesma coisa em todo o pas - falei enquanto girava a combinao da tranca do armrio.
   - Aloo! - respondeu Gina. - Quem se importa com a Gap? Estou falando de gatinhos.
   - Ah. - Guardei o livro de histria geral e pesquei o de biologia, que era a prxima aula. - Desculpe. Esqueci.
   - Esse  o seu problema, Simon - disse Gina se encostando no armrio ao lado do meu. - Voc no pensa em garotos o suficiente.
   Bati a porta do armrio.
   - Eu penso um bocado em garotos.
   - No pensa no. - Gina olhou para Cee Cee. - Ela j saiu com algum desde que veio para c?
   - Claro que sim - respondeu Cee Cee. - Bryce Martinson.
   - No - falei.
   Cee Cee ergueu a cabea e me olhou. Ela era um pouco mais baixa do que eu.
   - O que voc quer dizer com "no"?
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   - Bryce e eu nunca samos de verdade - expliquei, meio desconfortvel. - Voc se lembra, ele quebrou a clavcula...
   - Ah, . Naquele acidente maluco com o crucifixo. E depois se transferiu para outra escola.
   , porque aquele acidente maluco no foi nenhum acidente: o fantasma da namorada de Bryce tinha jogado o crucifixo nele, num esforo totalmente injusto de impedir 
que eu sasse com o cara.
   O que, infelizmente, deu certo.
   Ento Cee Cee falou, toda animada:
   - Mas sem dvida voc saiu com Tad Beaumont. Eu vi vocs dois juntos no Coffee Clutch.
   Empolgada, Gina perguntou:
   - Verdade? Simon saiu com um cara? Descreva.
   Cee Cee franziu a testa.
   - Bom, o negcio acabou no durando muito, no foi, Suze? Houve um acidente com o tio dele, ou sei l o qu, e Tad teve de ir morar com uns parentes em So Francisco.
   Traduo: depois de eu ter impedido o tio de Tad, um assassino em srie psictico, de matar ns dois, Tad foi morar com o pai.
   Isso  que  gratido, no ?
   - Nossa! - disse Cee Cee, pensativa. - Parece que acontecem coisas ruins com os caras com quem voc sai, no , Suze?
   De repente me senti um pouco deprimida e falei:
   - Nem todos. - Estava pensando em Jesse. Ento me lembrei de que Jesse:
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   (a) estava morto, de modo que s eu podia v-lo - portanto no  l um material fantstico em termos de namorado - e
   (b) na verdade nunca tinha me convidado para sair, de modo que no se pode dizer que estvamos exatamente namorando.
   Foi mais ou menos a que alguma coisa passou zumbindo por ns, to depressa que era apenas um borro cqui, seguido por um tnue cheiro levemente familiar de 
colnia masculina. Olhei em volta e vi que o borro tinha sido Dunga. Estava dando uma chave de cabea em Michael Meducci enquanto Scott Turner metia um dedo na 
cara dele e rosnava:
   - Voc vai escrever aquela redao para mim, Meducci. Sacou? Mil palavras sobre Gettysburg para amanh de manh. E no se esquea de digitar com espaos duplos.
   No sei o que me deu. Algumas vezes sou simplesmente dominada por impulsos sobre os quais no tenho o menor controle.
   Mas de repente empurrei meus livros para Gina e fui at onde estava meu meio-irmo. Um segundo depois puxei um tufo do cabelo curto da sua nuca.
   - Solte-o - falei torcendo com fora os plos. Esse mtodo de tortura, que eu tinha descoberto recentemente, era muito mais eficaz do que minha velha tcnica 
de dar um floco na barriga de Dunga. Nas ltimas semanas ele havia aumentado muito os msculos abdominais, sem dvida como defesa contra esse tipo especfico de 
ocorrncia.
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   O nico modo para ele me impedir de agarr-lo pelo cabelo curto, no entanto, era raspar a cabea, e isso aparentemente no lhe havia ocorrido.
   Abrindo a boca para soltar um uivo, Dunga libertou Michael imediatamente. Michael se afastou cambaleando, correndo para pegar os livros que tinha deixado cair.
   - Suze - gritou Dunga -, me solta!
   -  - disse Scott. - Isso no tem a ver com voc, Simon.
   - Ah, tem sim. Tudo que acontece nesta escola tem a ver comigo. Sabe por qu?
   Dunga j sabia a resposta. Eu tinha deixado clara para ele em vrias ocasies anteriores.
   - Porque voc  a vice-presidente - disse ele. - Agora me solta, p, ou eu juro que conto ao papai...
   Soltei-o, mas s porque a irm Ernestine apareceu. Aparentemente a novia tinha ido cham-la. Tornou-se uma poltica oficial da Academia da Misso pedir ajuda 
sempre que surgem brigas entre mim e Dunga.
   - Algum problema, srta. Simon?
   A irm Ernestine, vice-diretora,  uma mulher muito gorda, que usa uma cruz enorme entre os seios igualmente notveis. Tem uma capacidade incrvel de evocar o 
terror onde quer que v, s de franzir a testa.  um talento que admiro e espero ser capaz de imitar algum dia.
   - No, irm - falei.
   Irm Ernestine voltou a ateno para Dunga.
   - Sr. Ackerman? Algum problema?
   Carrancudo, Dunga massageou a nuca.
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   - No, irm - respondeu ele.
   - Bom - disse a irm Ernestine. - Fico feliz por finalmente vocs dois estarem se dando to bem. Esse afeto fraterno  uma inspirao para todos ns. Agora vo 
logo para a aula, por favor.
   Virei-me e me juntei a Cee Cee e Gina, que tinham ficado olhando a cena toda.
   - Minha nossa, Simon - disse ela com nojo enquanto amos para o laboratrio de biologia. - No  de se espantar que os caras daqui no gostem de voc.
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Captulo 5
   
   - Menina - disse Gina. - Isso  a sua cara. Cee Cee olhou para a roupa que Gina a havia convencido a comprar e depois induzido a vestir para nossa inspeo.
   - No sei - respondeu ela, em dvida.
   -  a tua cara - disse Gina de novo. - Estou dizendo.  a sua cara mesmo. Diga a ela, Suze.
   -  chiquersimo - falei com sinceridade. Gina levava jeito. Tinha transformado Cee Cee de um desafio  moda num exemplo da moda.
   - Mas voc no vai poder usar na escola - no pude deixar de observar. -  curto demais. - Eu tinha aprendido, do modo mais difcil, que o cdigo de vestimenta 
da Academia da Misso, ainda que bastante flexvel, no admitia minissaias sob nenhuma circunstncia. E eu duvidava tremendamente de que a irm Ernestine aprovaria 
a nova blusa de
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tric de Cee Cee, que revelava o umbigo e tinha acabamento de pele falsa.
   - Ento onde  que eu vou usar?
   - Na igreja - respondi dando de ombros.
   Cee Cee me lanou um olhar bem sarcstico. Falei:
   - Ah, certo. Bem, voc pode definitivamente usar no Coffee Clutch. E nas festas.
   O olhar de Cee Cee, por trs das lentes violeta dos culos, era tolerante.
   - Eu no sou convidada para festas, Suze - lembrou ela.
   - Pode usar na minha casa - sugeriu Adam, solcito. O olhar espantado que Cee Cee lhe lanou me garantiu que, independentemente do quanto ela havia gastado na 
roupa (e devia ter custado vrios meses de mesada, no mnimo) valera a pena: Cee Cee tinha uma paixonite secreta por Adam McTavish desde que eu a conhecia, e provavelmente 
desde muito antes disso.
   - Certo, Simon - disse ela sentando-se numa das cadeiras de plstico duro que atulhavam a praa de alimentao. - O que voc fez enquanto eu coordenava o guarda-roupa 
de primavera da srta. Webb?
   Levantei minha bolsa da Music Town.
   - Comprei um CD - falei pouco convincente.
   Aparvalhada, Gina ecoou:
   - Um o qu?
   - Um CD. - Eu nem queria comprar, mas largada nas vastides do shopping com instrues para comprar alguma
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coisa nova, entrei em pnico e me enfiei na primeira loja que vi.
   - Voc sabe que os shoppings me do sobrecarga sensorial - falei, explicando.
   Gina balanou a cabea, com os caracis de cobre oscilando, e falou a Adam:
   - A gente realmente no pode ficar furiosa com ela. Suze  to bonitinha!
   Adam afastou a ateno da nova roupa de Cee Cee para mim.
   -  - disse ele. -  mesmo. - Ento seu olhar passou para alm de mim, e se arregalou. - Mas a vm algumas pessoas que eu no sei se acham o mesmo.
   Virei a cabea e vi Soneca e Dunga vindo na nossa direo. O shopping era como a segunda casa de Dunga, mas no dava para imaginar o que Soneca estaria fazendo 
ali. Todo o seu tempo livre entre a escola e as entregas de pizzas (ele estava economizando para comprar um Camaro) geralmente era gasto surfando. Ou dormindo.
   Ento ele se deixou cair numa cadeira perto de Gina e disse numa voz que eu nunca o tinha escutado usar:
   - Oi, ouvi dizer que voc estava aqui.
   De repente tudo ficou claro.
   - Ei - falei a Cee Cee, que ainda olhava fascinada na direo de Adam. Dava para ver que minha amiga estava tentando deduzir exatamente o que ele queria dizer 
quando falou que ela podia usar a roupa nova em sua casa. Ser que a estava assediando sexualmente (como sem dvida ela esperava) ou apenas jogando conversa fora?
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   - Hein? - perguntou Cee Cee. E nem se incomodou em virar a cabea na minha direo.
   Fiz uma careta. Dava para ver que eu estava sozinha nessa.
   - J comprou o presente da sua me? - perguntei.
   - No - respondeu Cee Cee debilmente.
   - Beleza. - Larguei o meu CD em seu colo. - Segure isso a. Vou comprar para ela a ltima indicao da Oprah neste ms. O que acha?
   - Parece fantstico - disse Cee Cee, ainda sem sequer me olhar, embora balanasse uma nota de vinte dlares.
   Revirando os olhos, peguei a nota e sa batendo os ps antes que estourasse uma veia gritando o mais alto que podia. Voc tambm teria gritado se tivesse visto 
o que eu vi ao sair da praa de alimentao: Dunga tentando desesperadamente espremer uma cadeira entre Soneca e Gina.
   No entendo. Verdade. Puxa, eu sei que provavelmente pareo insensvel e at mesmo um pouco esquisita, com o negcio de ser mediadora, mas no fundo sou realmente 
uma pessoa que se importa. Sou bastante sensata e inteligente, e algumas vezes at engraada. E sei que no sou uma baranga. Quero dizer, eu fao escova no cabelo 
toda manh, e j me disseram mais de uma vez (certo, quem disse foi mame, mas mesmo assim conta) que meus olhos parecem esmeraldas. E da? Por que Gina tem dois 
caras brigando por sua ateno e eu no tenho nenhum? Puxa, nem os mortos parecem gostar muito de mim, e no acho que eles tenham muitas opes.
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   Ainda estava pensando nisso na fila do caixa da livraria, segurando o livro para a me de Cee Cee. Foi ento que uma coisa roou no meu ombro. Virei-me e me peguei 
olhando para Michael Meducci.
   - H - disse ele. Michael estava segurando um livro sobre programao de computadores.  luz fluorescente da loja parecia mais macilento do que nunca. - Oi. - 
Ele tocou os culos nervosamente, como se quisesse garantir que estavam ali. - Achei que era voc.
   - Oi, Michael - falei, e andei mais um pouco na fila.
   Michael andou tambm.
   - Ah, voc sabe o meu nome. - Ele pareceu satisfeito.
   No falei que, at aquele dia, eu no fazia a mnima idia. S disse:
   - . - E sorri.
   Talvez o sorriso tenha sido um erro. Porque Michael chegou um pouco mais perto e falou entusiasmado:
   - Eu s queria agradecer. Pelo que voc fez com seu... ... meio-irmo hoje. Voc sabe. Obrigar ele a me soltar.
   -  - falei de novo. - Bem, no se preocupe com isso.
   - No, srio. Ningum nunca fez algo assim por mim. Quero dizer, antes de voc vir estudar na Misso, ningum enfrentava Brad Ackerman. Ele se dava bem com tudo. 
Praticamente at com assassinato.
   - Bem. No se d mais.
   - No - disse Michael com um riso nervoso. - No mais.
   A pessoa na minha frente chegou ao caixa e eu ocupei o lugar dela. Michael tambm andou, s que foi um pouco demais, e acabou trombando em mim. Falou:
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   - Ah, desculpe. - E recuou.
   - Tudo bem. - Comecei a desejar ter ficado com Gina, ainda que isso significasse uma hemorragia cerebral.
   - Seu cabelo tem um cheiro muito bom - disse Michael em voz baixa.
   Ah, meu Deus. Achei que ia ter um aneurisma ali mesmo. Seu cabelo tem um cheiro muito bom? Seu cabelo tem um cheiro muito bom? Quem ele pensava que era? James 
Bond? No se diz a algum que seu cabelo tem um cheiro bom. No numa loja.
   Felizmente o caixa gritou:
   - O prximo!
   E me adiantei para pagar a compra, pensando que quando me virasse de novo Michael teria sumido.
   Errada. Muito errada.
   No somente ele ainda estava ali, como por acaso j tinha comprado o livro sobre programao de computadores - s estava carregando o dito cujo - de modo que 
nem precisou parar no caixa... onde eu planejava me livrar dele.
   No. Ah, no. Em vez disso me seguiu para fora da loja.
   Certo, falei comigo mesma. A irm do cara est em coma. Foi a uma festa na piscina e acabou dependendo de aparelhos para viver. Isso deve acabar com uma pessoa. 
E o acidente de carro? O cara simplesmente passou por um acidente de carro horroroso.  totalmente possvel que tenha matado quatro pessoas. Quatro pessoas! No 
de propsito, claro. Mas quatro pessoas mortas enquanto voc escapou totalmente inclume! Isso e a irm em coma... bem,  de deixar o cara abalado, certo?
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   Por isso pegue leve. Seja um pouco legal com ele.
   O problema  que eu j havia sido um pouco legal com ele, e olha o que aconteceu: o cara estava praticamente me perseguindo.
   Michael me acompanhou direto at a Victoria's Secret, para onde eu tinha ido instintivamente, achando que nenhum garoto acompanharia uma garota at um lugar onde 
sutis eram exibidos de modo to proeminente. Cara, como estava errada!
   - E a, o que voc achou da apresentao do nosso grupo? - quis saber Michael. E eu fiquei ali examinando um suti com estampa de guepardo, em raiom. - Concorda 
com sua... ... amiga, que o argumento de Kelly era ftuo?
   Ftuo? Que tipo de palavra era essa?
   Uma vendedora chegou perto de ns antes de eu ter chance de responder.
   - Ol - disse ela, animada. - J viu nossa banca de ofertas? Se comprar trs calcinhas leva mais uma de graa.
   No pude acreditar que ela disse a palavra calcinha na frente de Michael. E no pude acreditar que Michael s ficou ali parado sorrindo! Eu nem conseguia dizer 
a palavra calcinha na frente da minha me! Girei e sa da loja.
   - Normalmente eu no venho ao shopping - estava dizendo Michael. Estava grudado em mim como uma sanguessuga. - Mas quando soube que voc ia estar aqui, bem, pensei 
em dar um pulo. Voc vem muito?
   Eu estava tentando ir na direo da praa de alimentao, com vaga esperana de conseguir despistar Michael
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na multido diante do Chick Fill-A. Mas era difcil andar. Para comeo de conversa, parecia que praticamente toda a garotada da pennsula tinha decidido ir ao shopping 
depois da escola. E alm disso o shopping tinha tido um daqueles eventos, voc sabe, que os shoppings sempre tm. Esse era algum tipo de carnaval fajuto, com carros 
alegricos, mscaras douradas, colares e coisa e tal. Acho que tinha sido um sucesso, j que eles haviam deixado boa parte das coisas por ali, tipo uns enormes bonecos 
brilhantes, em roxo e dourado. Maiores do que o tamanho de uma pessoa, os bonecos eram suspensos no teto de vidro do ptio do shopping. Alguns tinham cinco ou seis 
metros de altura. Seus membros balanavam de um modo que imagino que deveria ser aleatrio, mas em alguns casos isso tornava difcil a gente manobrar na multido.
   - No - falei respondendo  pergunta de Michael. - Eu tento nunca vir aqui. Odeio.
   Michael se animou.
   - Verdade? - falou empolgado enquanto uma onda de estudantes mais novos passava em volta dele. - Eu tambm! Uau, que coincidncia! Sabe, no h muita gente da 
nossa idade que no goste de lugares assim. O homem  um animal social, voc sabe, por isso costuma ser atrado para reas de congregao. Na verdade, o fato de 
voc e eu no estarmos nos divertindo indica alguma disfuno biolgica.
   Ocorreu-me que meu meio-irmo mais novo, Mestre, e Michael Meducci possuam muita coisa em comum.
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   Tambm me ocorreu que dizer a uma garota que ela est sofrendo de disfuno biolgica no  exatamente o modo de ganhar seu corao.
   - Talvez voc e eu pudssemos ir a um lugar mais calmo - disse Michael enquanto nos livrvamos de uma grande mo pendurada num boneco com riso insano uns cinco 
metros acima de ns. - Eu estou com o carro da minha me. A gente poderia ir tomar um caf, ou algo assim, na cidade, se voc quiser...
   Foi ento que ouvi. Um risinho familiar.
   No pergunte como pude ouvir no meio de toda a tagarelice em volta de ns, da msica de fundo e do grito de um menino cuja me no queria deixar que ele tomasse 
sorvete. Ouvi. E isso  tudo.
   Riso. O mesmo riso que tinha ouvido no dia anterior no Jimmy's, bem antes de ver os fantasmas daqueles quatro garotos mortos.
   E a prxima coisa que eu soube  que houve um estalo alto - o tipo de som que um elstico muito esticado faz ao se arrebentar. Gritei:
   - Cuidado! - E me choquei contra Michael Meducci, jogando-o no cho.
   E foi uma coisa boa. Porque um segundo depois, exatamente onde a gente estivera, caiu com estardalhao a cabea de um boneco, gigantesca e sorridente.
   Quando a poeira baixou, levantei o rosto da frente da camisa de Michael Meducci e olhei para aquilo. No era feito de papel mach, como eu tinha pensado. Era 
feito de
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gesso. Havia pedaos de gesso em toda parte; nuvens de gesso ainda flutuavam, me fazendo tossir. Pedaos de gesso tinham sido arrancados do rosto do boneco, de modo 
que, apesar de ele continuar me espiando, fazia isso apenas com um olho e um sorriso desdentado.
   Por alguns instantes no houve qualquer som alm de minha tosse e da respirao insegura de Michael.
   Ento uma mulher gritou.
   E se estabeleceu o pandemnio. As pessoas se trombavam num esforo para sair de baixo dos bonecos, como se todos fossem despencar ao mesmo tempo.
   Acho que no podia culp-las. O negcio devia pesar uns cem quilos, pelo menos. Se tivesse cado em cima de Michael, ele estaria morto, ou pelo menos muito ferido. 
Disso eu no tinha dvida.
   Assim como no havia dvida, mesmo antes de eu t-lo visto, de quem era a voz zombeteira que falou apenas um segundo depois:
   - Bem, olha s o que temos aqui. No  aconchegante?
   Ergui a cabea e vi que Dunga - com Gina ofegante, Cee Cee, Adam e Soneca - tinham vindo correndo.
   Eu nem havia notado que ainda estava em cima de Michael, at que Soneca estendeu a mo e me puxou.
   - Por que  que voc no consegue ficar sozinha por cinco minutos sem que alguma coisa despenque em cima de voc? - perguntou meu meio-irmo numa voz entediada.
   Olhei-o furiosa enquanto me levantava. Preciso dizer: mal posso esperar at que Soneca v para a faculdade.
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   - Ei - disse Soneca, estendendo a mo para dar uns dois tapas no rosto de Michael, acho que numa tentativa equivocada de reanim-lo, mas duvido de que esse seja 
um mtodo autorizado pelo Ministrio da Sade. Os olhos de Michael estavam fechados, e mesmo podendo ver que ele estava respirando, sua aparncia no era boa.
   Mas os tapas funcionaram. As plpebras de Michael se abriram.
   - Voc est bem? - perguntei preocupada.
   Ele no viu a mo estendida. Tinha perdido os culos. Tateou procurando-os em meio ao p de gesso.
   - M... meus culos - disse ele.
   Cee Cee os encontrou, pegou e limpou do melhor modo possvel antes de devolv-los.
   - Obrigado. - Michael ps os culos, e seus olhos, por trs das lentes, ficaram muito grandes quando ele percebeu a carnificina ao redor. O boneco o havia errado, 
mas conseguiu acertar um banco e uma lata de lixo de ao sem qualquer problema.
   - Ah, meu Deus - disse ele.
   - Nem fale - confirmou Adam. - Se no fosse a Suze voc teria sido morto, esmagado por uma cabea de boneco gigante. Modo meio idiota de morrer, no ?
   Michael continuou olhando para o entulho.
   - Ah, meu Deus - disse de novo.
   - Voc est bem, Suze? - perguntou Gina, pondo a mo no meu brao.
   Confirmei com a cabea.
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   - , acho que sim. Pelo menos no tenho nenhum osso quebrado. Michael? E voc? Ainda est inteiro?
   - Como  que ele vai saber? - perguntou Dunga com um riso de desprezo, mas lancei um olhar furioso e acho que ele se lembrou de como consigo puxar cabelos, j 
que dessa vez ficou quieto.
   - Estou bem - respondeu Michael. Em seguida empurrou para longe as mos que Soneca havia estendido para ajud-lo a ficar de p. - Me deixa em paz. Eu disse que 
estou bem.
   Soneca recuou.
   - Epa! Desculpe, eu s estava tentando ajudar. Venha, Gi. Nosso milk-shake est derretendo.
   Espera um minuto. Lancei um olhar espantado na direo da minha melhor amiga e do meu meio-irmo mais velho. Gi? Quem  Gi?
   Cee Cee pescou uma bolsa embaixo das ondas de material brilhante roxo e dourado.
   - Ei - disse ela, encantada. -  esse o livro que voc comprou para minha me?
   Vi que Soneca estava voltando para a praa de alimentao com o brao em volta de Gina. Gina. Minha melhor amiga! Minha melhor amiga parecia estar deixando meu 
meio-irmo lhe pagar um milk-shake e passar o brao em volta dela! E cham-la de Gi!
   Michael tinha ficado de p. Alguns guardas do shopping chegaram bem nessa hora e comearam:
   - Ei, cara, v com calma. H uma ambulncia a caminho.
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   Mas Michael, com um movimento violento, se livrou deles e, com um ltimo olhar incompreensvel para a cabea do boneco, se afastou cambaleando, com os policiais 
indo atrs obviamente preocupados com a possibilidade de uma concusso... ou um processo judicial.
   - Uau - disse Cee Cee, balanando a cabea. - Isso  que  gratido por voc. Voc salva a vida do cara e ele vai embora sem nem mesmo agradecer.
   -  - concordou Adam. - Suze, como  que, sempre que alguma coisa est para cair em cima da cabea de um cara, voc fica sabendo e tira a vtima do caminho pulando 
em cima dela? E como  que eu posso fazer alguma coisa cair na minha cabea para voc pular em cima de mim?
   Cee Cee deu-lhe um soco na barriga. Adam fingiu que doeu e ficou cambaleando comicamente durante um tempo, antes de quase tropear no boneco e depois parar para 
olh-lo.
   - O que ser que causou isso? - perguntou. Alguns empregados do shopping estavam ali agora, imaginando a mesma coisa, com muitos olhares nervosos na minha direo. 
Se soubessem que minha me era jornalista de TV provavelmente estariam fora de si na tentativa de me dar vales grtis para o Casual Corner e coisas assim.
   - Quero dizer,  meio estranho pensar isso - continuou Adam. - O negcio ficou l em cima durante semanas, e de repente Michael Meducci pra embaixo e...
   - Bum - disse Cee Cee. - Meio, tipo... no sei. Algum l em cima est querendo acabar com ele, ou sei l.
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   O que me fez lembrar. Olhei em volta, pensando que poderia ver o dono da risadinha que escutei logo antes de o boneco despencar em cima de ns.
   No vi ningum, mas no importa. Eu sabia quem estava por trs disso.
   E com certeza no era um anjo.
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Captulo 6
   
   - Bem - disse Jesse quando contei tudo naquela noite -, voc sabe o que tem de fazer, no sabe?
   -  - falei mal-humorada, com o queixo nos joelhos. - Tenho de contar sobre a vez em que achei aquela revista de mulher pelada embaixo do banco da frente do Rambler.
Isso deve fazer com que ela mude de idia rapidinho.
   A sobrancelha com cicatriz se ergueu.
   - Suzannah. De qu voc est falando?
   - De Gina - respondi, surpresa por ele no saber. - E Soneca.
   - No. Eu estou falando do garoto, Suzannah.
   - Que garoto? - Ento me lembrei. - Ah, do Michael?
   - . Se o que voc contou  verdade, ele est correndo muito perigo, Suzannah.
   - Eu sei. - Apoiei-me nos cotovelos. Ns dois estvamos sentados no telhado da varanda da frente, que por acaso se
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projetava abaixo da janela do meu quarto. Era bem legal ali fora, sob as estrelas. Ns estvamos suficientemente alto para ningum ver - no que algum alm de mim
e do padre Dom pudesse ver Jesse - e o cheiro era bom por causa do pinheiro gigante ao lado da varanda. Nesses dias era o nico lugar em que podamos ficar conversando 
sem medo de ser interrompidos por pessoas. Bem, s por uma pessoa: minha hspede Gina.
   - Ento, o que voc vai fazer? - Ao luar, a camisa branca de Jesse parecia azul. Bem como os reflexos em seu cabelo preto.
   - No tenho idia.
   - No?
   Jesse me olhou. Odeio quando ele faz isso. Eu me sinto... sei l. Como se ele estivesse me comparando mentalmente com algum. E a nica pessoa em quem conseguia 
pensar era Maria da Silva, a garota com quem Jesse ia se casar quando morreu. J vi um retrato dela. Era uma gata, para a dcada de 1850. Vou lhe contar, no  divertido 
ser comparada com uma garota que morreu antes mesmo de a gente ter nascido.
   E que sempre tinha uma saia-balo para esconder o tamanho da bunda.
   - Voc vai ter de encontr-los - continuou Jesse. - Os Anjos. Porque, se eu estiver certo, aquele garoto no estar em segurana enquanto eles no forem convencidos 
a ir em frente.
   Suspirei. Jesse estava certo. Jesse estava sempre certo. S que rastrear um bando de fantasmas festeiros no era nem
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um pouco o que eu queria fazer enquanto Gina estivesse na cidade.
   Por outro lado, ficar comigo no era exatamente o que Gina parecia a fim de fazer.
   Levantei-me e andei com cuidado pelas telhas da varanda, depois me inclinei para olhar pela janela do meu quarto. O sof-cama estava vazio. Desci at Jesse e 
me sentei ao lado dele outra vez.
   - Minha nossa - falei. - Ela ainda est l.
   Jesse me olhou enquanto o luar brincava no pequeno sorriso em seu rosto.
   - Voc no pode culp-la por estar interessada no seu irmo.
   - Meio-irmo. E, sim, posso. Ele  um rato. E est com ela na toca.
   O sorriso de Jesse ficou mais largo. At seus dentes pareciam azuis ao luar.
   - Eles s esto jogando no computador, Suzannah.
   - Como  que voc sabe? - Ento me lembrei. Ele era um fantasma. Podia ir a qualquer lugar. - Bem, claro. Talvez na ltima vez em que voc olhou. Quem sabe o 
que esto fazendo agora?
   Jesse suspirou.
   - Quer que eu olhe de novo?
   - No. - Eu estava horrorizada. - No me importa o que ela faz. Se Gina quiser ficar com um tremendo fracassado como o Soneca, no posso impedir.
   - Brad tambm estava l - observou Jesse. - Na ltima vez em que olhei.
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   - Ah, fantstico. Ento ela est com dois fracassados.
   - No entendo por que voc fica to infeliz com isso. - Jesse havia se deitado nas telhas, contente como eu nunca tinha visto. - Eu gosto muito mais assim.
   - Assim, como? - reclamei. No conseguia me sentir to confortvel quanto ele. As agulhas de pinheiro ficavam espetando minha bunda.
   - S ns dois - disse ele dando de ombros. - Como sempre foi.
   Antes que eu tivesse chance de responder ao que - pelo menos para mim - parecia uma confirmao extraordinariamente sincera e talvez at romntica, faris surgiram 
na entrada de veculos e Jesse olhou para alm de mim.
   - Quem ?
   No olhei. No me importava. Disse:
   - Um dos amigos de Soneca, tenho certeza. O que voc estava dizendo mesmo? Sobre como gosta de sermos s nos dois?
   Mas Jesse estava forando a vista na escurido.
   - No  um amigo de Jake - disse ele. - Est trazendo muito... medo. Ser que poderia ser o garoto, Michael?
   - O qu?
   Girei e, agarrando a beira do telhado, vi uma perua vindo pela entrada de veculos e parando atrs do carro da minha me.
   Um segundo depois Michael Meducci saiu de trs do volante e, com um olhar nervoso para a porta da frente de casa, comeou a andar em sua direo, com a expresso 
decidida.
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   - Ah, meu Deus - exclamei, recuando da beira do telhado. - Voc est certo!  ele! O que eu fao?
   Jesse apenas balanou a cabea.
   - O que quer dizer com "o que eu fao"? Voc sabe o que fazer. J fez isso centenas de vezes. - Quando continuei a encar-lo ele se inclinou para a frente, at 
estar com o rosto a centmetros do meu.
   Mas em vez de me beijar como esperei por um louco momento com o corao martelando, ele falou, enunciando claramente:
   - Voc  uma mediadora, Suzannah. V mediar.
   Abri a boca para informar que duvidava tremendamente de que Michael estivesse em minha casa porque queria ajuda com seu problema de poltergeists, considerando 
que ele no podia saber que eu atuava no ramo de fantasmas. Era muito mais provvel que tivesse vindo me convidar para sair. Um encontro. Algo que eu tinha certeza 
de que jamais ocorreu a Jesse, j que os jovens no costumavam ter encontros quando ele estava vivo, mas que acontecia com alarmante regularidade com as garotas 
do sculo XXI. Bem, no comigo, necessariamente, mas com a maioria das garotas.
   Eu estava para dizer que isso ia arruinar nossa maravilhosa oportunidade de ficar juntos quando a campainha tocou, e no fundo da casa ouvi Mestre gritar:
   - Eu atendo!
   - Ah, meu Deus - falei, e pousei a cabea nas mos.
   - Suzannah - disse Jesse. Havia preocupao em sua voz. - Voc est bem?
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   Eu me sacudi. Em que estava pensando? Michael Meducci no estava na minha casa para me convidar para sair. Se quisesse isso teria ligado, como uma pessoa normal. 
No, ele estava aqui por algum outro motivo. Eu no tinha com o que me preocupar. De jeito nenhum.
   - Estou bem - falei e me levantei lentamente.
   - Voc no parece bem.
   - Estou. - Comecei a engatinhar de volta para o quarto, me esgueirando pela janela que Spike usava.
   Tinha passado a maior parte do corpo quando houve a batida inevitvel na minha porta.
   - Entre - falei de onde estava, desmoronada contra o banco da janela, e Mestre abriu a porta e enfiou a cabea no quarto.
   - Ei, Suze - sussurrou ele. - Tem um cara aqui querendo ver voc. Acho que  o cara de quem vocs estavam falando no jantar. Voc sabe, o cara do shopping.
   - Sei - falei para o teto.
   - Bem. - Mestre ficou meio sem jeito. - O que eu devo fazer? Quero dizer, sua me me mandou aqui para avisar. Devo dizer que voc est no banho ou alguma coisa 
assim? - A voz de Mestre ficou meio seca. -  o que as garotas sempre mandam os irmos dizerem quando meus amigos e eu tentamos ligar para elas.
   Virei a cabea e olhei para Mestre. Se eu tivesse de escolher um dos irmos Ackerman para ficar comigo numa ilha deserta, a escolha seria definitivamente Mestre. 
Ruivo e sardento, ainda no tinha crescido para se ajustar s
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orelhas enormes, mas com apenas doze anos era de longe o mais inteligente dos meus meios-irmos.
   A idia de alguma garota inventando desculpa para no falar com ele fez meu sangue ferver.
   Sua declarao cutucou minha conscincia. Claro que eu no ia inventar uma desculpa. Michael Meducci pode ser um nerd. E pode no ter agido com classe no shopping. 
Mas ainda era um ser humano.
   Eu acho.
   - Diga a ele que j vou descer - falei.
   Mestre ficou visivelmente aliviado. Riu, revelando na boca o aparelho brilhante.
   - Certo - disse ele. E desapareceu.
   Levantei-me devagar e fui at o espelho acima da penteadeira. A Califrnia tinha melhorado muito minha pele e meu cabelo. A pele - apenas levemente bronzeada
graas ao filtro solar fator 15 - era bonita sem maquiagem, e eu tinha desistido de tentar alisar meu longo cabelo castanho e simplesmente deixava ficar encaracolado. 
Um pouquinho de brilho labial e eu estava a caminho. No me incomodei em trocar a cala cargo e a camiseta. Afinal de contas, no queria sobressair tanto.
   Michael estava me esperando na sala de estar, as mos enfiadas nos bolsos da cala, olhando os muitos retratos escolares de mim e meus meios-irmos, pendurados 
na parede. Meu padrasto estava sentado na poltrona onde nunca se senta, falando com Michael. Quando entrei ele se calou e ficou de p.
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   - Bem - disse Andy, depois de alguns segundos de silncio. - Vou deixar vocs dois a ss, ento. - Depois saiu da sala, mesmo dando para ver que no queria fazer 
isso. O que era meio estranho, j que em geral Andy s demonstra um interesse superficial nos meus casos, a no ser quando eles envolvem a polcia.
   - Suze - disse Michael quando Andy havia sado. Sorri para ele encorajando-o, j que o sujeito parecia a ponto de morrer de nervosismo.
   - Oi, Mike. Voc est bem? No houve danos permanentes?
   Ele falou com um sorriso que imaginei ser destinado a se igualar ao meu, mas que na verdade era muito dbil.
   - No houve danos permanentes. A no ser ao meu orgulho.
   Num esforo para reduzir a energia nervosa na sala, deixei-me cair numa das poltronas de mame - a que tem a capa do Pottery Barn, por causa da qual ela vive 
gritando com o cachorro para no subir em cima - e falei:
   - Ei, no foi sua culpa o pessoal do shopping fazer um servio vagabundo na hora de pendurar os enfeites de carnaval.
   Observei-o atentamente para ver como ia responder. Ser que ele sabia?
   Michael se deixou afundar na poltrona diante da minha.
   - No  isso que eu quis dizer. Quis dizer que estou com vergonha do modo como agi hoje. Em vez de agradecer,
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eu... bem, me comportei de modo ingrato, e vim aqui pedir desculpa. Espero que voc me perdoe.
   O cara no sabia. No sabia por que o boneco tinha cado em cima dele, ou ento era o melhor ator que eu j vira.
   - H... Claro. Perdo. Sem problema.
   Ah, mas isso era um problema. Para Michael aparentemente era um grande problema.
   -  que... - Ele se levantou da poltrona e comeou a andar pela sala. Nossa casa  a mais antiga do bairro, h at um buraco de bala numa das paredes, da poca 
em que Jesse era vivo, quando nossa casa era abrigo de jogadores, garimpeiros e noivos a caminho de encontrar as noivas. Andy a havia reconstrudo praticamente do 
zero (a no ser pelo buraco de bala, que ele emoldurou), mas as tbuas do piso ainda estalavam um bocado sob os ps de Michael enquanto ele andava.
   -  que me aconteceu uma coisa este fim de semana - disse Michael  lareira - e desde ento... bem, situaes estranhas vm acontecendo.
   Ento ele sabia. Sabia pelo menos de alguma coisa. Era um alvio. Significava que eu no teria de dizer a ele.
   - Coisas como o boneco cair em cima de voc? - perguntei, mesmo j sabendo a resposta.
   - . E outras coisas tambm. - Ele balanou a cabea. - Mas no quero incomodar voc com meus problemas. J me sinto suficientemente mal com o que aconteceu.
   - Ora - falei dando de ombros. - Voc ficou abalado.  compreensvel. Sem ressentimentos. Olhe, sobre o que aconteceu com voc neste fim de semana, voc quer...
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   - No. - Michael, em geral a pessoa mais quieta do mundo, falou com uma nfase que eu nunca o vira usar. - No  compreensvel - disse com veemncia. - No  
compreensvel e no  desculpvel. Suze, voc j... quero dizer, aquele negcio com o Brad hoje...
   Encarei-o com expresso vazia. No fazia idia de onde o cara queria chegar. Se bem que, pensando direito, deveria fazer. Deveria mesmo.
   - E depois, quando voc salvou minha vida no shopping...  que eu estava me esforando tanto, voc sabe, para mostrar que no sou assim... o tipo de cara que 
precisa de uma garota para travar as batalhas por ele. E ento voc fez de novo...
   Meu queixo caiu. Isso no estava acontecendo nem um pouco como eu supunha.
   - Michael - comecei, mas ele levantou a mo.
   - No. Deixe eu terminar. No  que eu seja ingrato, Suze. No  que eu no aprecie o que voc est tentando fazer por mim. S que... eu realmente gosto de voc, 
e se voc concordar em sair comigo nesta sexta  noite, eu mostro que no sou o covarde manhoso que fiquei parecendo ser at agora no nosso relacionamento.
   Encarei-o. Era como se as engrenagens do meu crebro tivessem parado subitamente. No conseguia pensar. No conseguia pensar no que fazer. Tudo em que conseguia 
pensar era: relacionamento? Que relacionamento?
   - Eu j pedi ao seu pai - disse Michael parado no centro da sala. - E ele disse que tudo bem, desde que voc estivesse de volta antes das onze.
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   Meu pai? Ele tinha pedido ao meu pai? Tive uma viso sbita de Michael falando com meu pai, que havia morrido h mais de uma dcada, mas que frequentemente aparece 
como fantasma para me torturar sobre como dirijo mal e coisas do tipo. Ele iria curtir de monto com a cara de Michael, e eu ficaria ouvindo isso at o fim da vida.
   - Quero dizer, seu padrasto - corrigiu Michael, como se tivesse lido meus pensamentos.
   Mas como poderia ter lido meus pensamentos se eles estavam numa confuso to grande? Porque isso estava errado. Estava tudo errado. No deveria ser assim. Michael 
deveria me contar sobre o acidente de carro, e ento eu diria, de um modo gentil, que j sabia. Ento avisaria sobre os fantasmas, e ele ou no acreditaria em mim 
ou ficaria eternamente grato. E isso seria o fim - s que, claro, eu ainda teria de achar os Anjos da RLS e aplacar sua ira assassina antes que eles conseguissem 
pr as mos em Michael de novo.
   Era como deveria ser. Ele no deveria me convidar para sair. Convidar para sair no fazia parte do programa. Pelo menos nunca tinha sido assim antes.
   Abri a boca - dessa vez no por perplexidade, mas para dizer: Ah, no, Michael, desculpe, mas nesta sexta vou estar ocupada... e em todas as sextas pelo resto
da vida, por sinal - quando uma voz familiar ao meu lado falou rapidamente:
   - Pense antes de dizer no, Suzannah.
   Virei a cabea e vi Jesse sentado na cadeira de onde Michael havia se levantado.
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   - Ele precisa da sua ajuda, Suzannah - prosseguiu Jesse rapidamente, em sua voz profunda e grave. - Michael corre um srio perigo por parte dos espritos dos 
jovens mortos por ele, ainda que acidentalmente. E voc no vai poder proteg-lo  distncia. Se o afastar agora, ele nunca ir deix-la chegar suficientemente perto 
para ajud-lo depois, quando realmente precisar.
   Estreitei os olhos para Jesse. No podia lhe dizer nada, claro, porque Michael ouviria e pensaria que eu estava falando comigo mesma, ou coisa pior. Mas o que 
eu queria de fato dizer era: olha, isso est indo um pouquinho longe demais, no acha?
   Mas no podia. Porque percebi que Jesse estava certo. O nico modo de eu ficar de olho nos Anjos era ficando de olho em Michael.
   Contive um suspiro e disse:
   - , certo. Na sexta est bem.
   No vou descrever o que Michael disse depois disso. O negcio foi embaraoso demais para ser posto em palavras. Tentei me lembrar de que Bill Gates provavelmente 
era assim na escola, e olha s agora. Aposto que todas as garotas que o conheciam na poca esto se chutando por ter recusado os convites dele para os bailes, ou 
sei l o qu.
   Mas, para dizer a verdade, no adiantou muito. Mesmo que ele tivesse um trilho de dlares como Bill Gates, eu ainda no deixaria Michael Meducci pr a lngua 
na minha boca. Michael acabou saindo e eu subi a escada de novo, carrancuda - bem, depois de suportar um interrogatrio de
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minha me, que saiu assim que ouviu a porta ser fechada e exigiu saber quem eram os pais de Michael, onde ele morava, aonde ns iramos e por que eu no estava mais 
empolgada. Afinal, um garoto tinha me convidado para sair!
   Voltando finalmente ao quarto, notei que Gina estava l. Deitada no sof-cama, fingindo ler uma revista e agindo como se no fizesse idia de onde eu tinha ido. 
Fui at l, arranquei a revista da sua mo e bati em sua cabea com ela algumas vezes.
   - Certo, certo - disse Gina levantando os braos acima da cabea e rindo. - , eu j sei. Voc disse sim?
   - O que eu deveria dizer? - perguntei, deixando-me cair na cama. - Ele estava praticamente chorando.
   No instante em que falei isso me senti desleal. Os olhos de Michael, por trs dos culos, tinham ficado muito brilhantes, verdade. Mas ele no estava chorando. 
Disso eu tinha certeza.
   - Ah, meu Deus - disse Gina ao teto. - No acredito que voc vai sair com um nerd.
   - . Bem, voc tambm no andou exercendo muita discriminao ultimamente, Gi.
   Gina virou de barriga para baixo e me olhou sria.
   - Jake no  to mau quanto voc acha, Suze. Na verdade ele  muito doce.
   Resumi a situao numa palavra:
   - Eca.
   Rindo, Gina se deitou de costas outra vez.
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   - Bem, e da? Eu estou de frias. No posso ir a lugar nenhum, mesmo.
   - S me prometa que no vai... no sei. Ir longe demais com algum deles, ou sei l o qu.
   Gina apenas riu mais um pouco.
   - E voc e o nerd? Vo se beijar tipo desentupidor de pia?
   Peguei um dos travesseiros da minha cama e joguei nela. Gina se sentou e o pegou, rindo.
   - Qual  o problema? Ele no  o Dito Cujo?
   Recostei-me no resto dos travesseiros. L fora ouvi o som familiar das quatro patas de Spike batendo no telhado da varanda.
   - Quem?
   - Voc sabe. O Dito Cujo. O tal de quem a vidente falou.
   Pisquei para ela.
   - Que vidente? Do que voc est falando?
   - Ah, qual ! Madame Zara. Lembra? Ns nos consultamos com ela naquela feira escolar, tipo na sexta srie. E ela disse que voc era uma mediadora.
   - Ah. - Fiquei perfeitamente imvel. Estava preocupada pensando que, se me mexesse ou falasse qualquer coisa, revelaria mais do que desejava. Gina sabia... mas 
s um pouco. No o bastante para entender de verdade.
   Pelo menos foi o que pensei na hora.
   - No se lembra do que mais ela disse? Sobre voc? Que voc s teria um amor na vida mas que ia durar at o fim dos tempos?
   Olhei o acabamento de renda do dossel sobre a minha cama. Falei com a garganta misteriosamente seca.
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   - No lembro.
   - Bem, no acho que voc tenha ouvido grande coisa do que ela falou, depois daquela parte sobre ser mediadora. Voc ficou em estado de choque. Ah, olha. A vem 
aquele... gato.
   Notei que Gina evitou fazer qualquer descrio de Spike, que passou pela janela aberta, foi at sua tigela de comida e chorou para ser alimentado. Aparentemente 
a lembrana do que tinha acontecido na ltima vez em que havia falado mal do gato - o negcio com o esmalte de unhas - ainda estava fresca na mente de Gina. Aparentemente 
to fresca quanto o que a vidente dissera h tantos anos.
   Um amor que duraria at o fim dos tempos.
   Percebi, enquanto pegava o saco de comida de Spike, que as palmas das minhas mos tinham comeado a suar frio.
   - Voc no morreria se o seu verdadeiro amor fosse Michael Meducci? - perguntou Gina.
   - Totalmente - respondi, sem pensar.
   Mas no era. Se fosse verdade - e eu no tinha motivo para duvidar, j que Madame Zara estivera certa sobre o negcio de ser mediadora. Era a nica pessoa no 
mundo, com a exceo do padre Dominic, que j havia adivinhado -, ento eu sabia perfeitamente quem era.
   E no era Michael Meducci.
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Captulo 7
   
   No que Michael no tentasse.
   Na manh seguinte estava esperando por mim no estacionamento enquanto Gina, Soneca, Dunga, Mestre e eu saamos do Rambler e comevamos a ir para as vrias filas 
antes da aula. Michael perguntou se poderia carregar meus livros. Dizendo a mim mesma que os Anjos da RLS poderiam aparecer a qualquer momento e tentar assassin-lo 
de novo, consenti. Melhor ficar de olho nele, pensei, do que deix-lo se meter em s Deus sabe o qu.
   Mas no foi divertido. Atrs de ns Dunga ficava fazendo uma imitao muito convincente de algum vomitando.
   E mais tarde, no almoo, que eu tradicionalmente passava com Adam e Cee Cee - ainda que neste dia em particular, como Gina estava conosco, seus fs houvessem 
se juntado a ns: Soneca, Dunga e meia dzia de garotos que eu
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no conhecia, cada um disputando desesperadamente a ateno dela -, Michael perguntou se podia ficar com a gente. De novo no tive opo alm de concordar.
   E ento, quando, indo para o Rambler depois da escola, foi sugerido que usssemos as prximas quatro horas de luz do dia fazendo o dever de casa na praia, Michael 
devia estar por perto. De que outro modo apareceria na praia de Carmel carregando uma cadeira de praia, uma hora depois?
   - Ah, meu Deus - disse Gina deitada em sua toalha. - No olhe agora, mas seu verdadeiro amor se aproxima.
   Olhei. E contive um gemido. E rolei para abrir espao para ele.
   - Voc pirou? - perguntou Cee Cee, o que era uma pergunta interessante vinda dela, considerando que estava sentada  sombra de uma barraca (o que no era grande 
coisa, e perfeitamente compreensvel, considerando a quantidade de vezes em que fora levada ao hospital devido  insolao).
   Mas alm disso estava usando um chapu de chuva - cuja aba havia puxado bem para baixo -, cala comprida e uma camiseta de manga comprida. Gina, esticada ao sol 
ao lado dela como uma princesa nbia, tinha levantado uma sobrancelha em tom casual e perguntado:
   - Quem voc ? Gilligan?
   - Srio, Suze - disse Cee Cee enquanto Michael se aproximava. -  melhor voc cortar isso pela raiz, e depressa.
   - No posso - grunhi, virando os livros na areia para abrir espao para Michael e sua cadeira de praia.
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   - O que quer dizer com no pode? - perguntou Cee Cee. - Voc no teve problema para mandar o Adam se catar nestes ltimos dois meses. No que eu no tenha apreciado 
isso - acrescentou ela com o olhar indo para as ondas onde todos os caras, inclusive Adam, estavam surfando.
   -  uma longa histria - disse eu.
   - Espero que no esteja fazendo isso porque sente pena dele por causa do negcio com a irm - disse Cee Cee mal-humorada. - Para no falar daqueles garotos mortos.
   - Cale a boca, t? Ele est vindo.
   E ento ele estava ali, largando suas coisas por todo canto, derramando refrigerante gelado nas costas de Gina e demorando um tempo incomensurvel para deduzir 
como a cadeira de praia funcionava. Suportei isso do melhor modo possvel, dizendo a mim mesma: voc  a nica que pode impedir que ele vire uma panqueca de nerd.
   Mas vou contar, era meio difcil de crer, ali no sol, que qualquer coisa ruim - como fantasmas vingativos - sequer existissem. Tudo estava to... certo.
   Pelo menos at que Adam largou sua prancha, dizendo que precisava dar um tempo - mas notei que na verdade aproveitava a oportunidade para cair na areia perto 
de ns e mostrar seus cinco ou seis plos no peito. - Ento Michael ergueu os olhos do livro de clculo - ele estava fazendo aulas de matemtica avanada e cincias 
- e disse:
   - Posso pegar isso emprestado?
   Adam, o cara mais tranqilo do mundo, deu de ombros:
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   -  vontade. O mar est meio flat, mas de repente voc consegue pegar alguma onda. S que a gua est fria.  melhor pegar meu neoprene.
   Ento, enquanto Gina, Cee Cee e eu olhvamos com um leve interesse, Adam abriu o zper de sua roupa de neoprene, tirou-a e, vestido s de sunga, entregou aquele 
negcio de borracha preta a Michael, que imediatamente tirou os culos e a camisa.
   Uma das mos de Gina saltou e pegou meu pulso. Suas unhas se cravaram na minha pele.
   - Ah, meu Deus - ofegou ela.
   At Cee Cee, notei com um olhar rpido, estava espiando totalmente hipnotizada Michael Meducci vestir a roupa de neoprene de Adam e fechar o zper.
   - Pode tomar conta disso? - perguntou ele apoiando um dos joelhos na areia ao meu lado.
   Michael colocou os culos nas minhas mos. Tive a chance de olhar seus olhos, e pela primeira vez notei que eram de um azul muito fundo, muito brilhante.
   - Claro - me ouvi murmurando.
   Ele sorriu. Depois se levantou de novo, pegou a prancha de Adam e, com um educado cumprimento de cabea para ns, garotas, entrou nas ondas.
   - Ah, meu Deus - disse Gina de novo.
   Adam, que tinha desmoronado na areia ao lado de Cee Cee, apoiou-se num dos cotovelos e perguntou:
   - O que ?
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   Quando Michael tinha se juntado a Soneca, Dunga e os outros amigos deles na gua, Gina virou o rosto lentamente para mim e perguntou:
   - Voc viu aquilo?
   Assenti entorpecida.
   - Mas aquilo... aquilo... - gaguejou Cee Cee. - Aquilo desafia toda a lgica.
   Adam sentou-se.
   - Do que vocs esto falando?
   Mas s podamos balanar a cabea. Era impossvel falar. Porque, por acaso, por baixo do bolso cheio de canetas, Michael Meducci possua uns peitorais de arrasar.
   - Ele deve malhar umas trs horas por dia - sugeriu Cee Cee.
   - Na certa umas cinco - murmurou Gina.
   - Ele poderia me levantar fazendo supino - falei, e Cee Cee e Gina concordaram.
   - Vocs esto falando de Michael Meducci? - perguntou Adam.
   Ns o ignoramos. Como poderamos no ignorar, se tnhamos visto um deus - de pele macilenta, verdade, mas perfeito em todos os outros sentidos.
   - Ele s precisa sair de trs daquele computador de vez em quando e pegar um pouquinho de cor - ofegou Gina.
   - No - falei. No podia suportar a idia daquele corpo perfeitamente esculpido danificado pelo cncer de pele.  - Ele est timo como est.
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   - S um pouquinho de cor - repetiu Gina. - Quero dizer, com filtro solar 15 ele ainda se bronzeia um pouco. S precisa disso.
   - No - repeti.
   - Suze est certa - disse Cee Cee. - Ele  perfeito como .
   - Ah, meu Deus - disse Adam, deixando-se cair de novo na areia, enojado. -Michael Meducci. No acredito que vocs esto falando assim do Michael Meducci.
   Mas como poderamos evitar? Ele era a perfeio. Certo, no era o melhor surfista. Isso seria pedir demais, percebemos enquanto o vamos ser jogado da prancha 
de Adam por uma onda bem pequena, que Soneca e Dunga dominaram com facilidade.
   Mas em todos os outros sentidos era um gato cem por cento genuno.
   Pelo menos at ser derrubado por uma onda de mdia para grande e no voltar  superfcie.
   A princpio no ficamos alarmadas. Surfar no era uma coisa que eu quisesse particularmente experimentar - apesar de adorar praia, no tenho a mnima atrao 
pelo oceano. Na verdade  bem o oposto: a gua me d medo porque no d para dizer o que mais est nadando em volta da gente naquela escurido. Mas eu tinha visto 
Soneca e Dunga pegar ondas suficientes para saber que os surfistas costumam desaparecer por longo tempo, e aparecem a metros de distncia, em geral com um riso enorme 
e um sinal de OK com o polegar para cima.
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   Mas a espera para Michael aparecer foi maior do que o normal. Vimos a prancha de Adam saltar de uma onda particularmente grande e vir sozinha at a praia. Ainda 
no havia sinal de Michael.
   Foi ento que o salva-vidas - o mesmo louro grando que tentara resgatar Dunga (tnhamos parado perto de sua cadeira, como havia se tornado nosso costume) - empertigou-se 
e de repente levantou o binculo ao rosto.
   Mas eu no precisava de binculo para ver o que vi em seguida. Michael finalmente rompeu a superfcie depois de estar afundado por quase um minuto. S que, nem 
bem apareceu, ele foi puxado para baixo de novo, e no por uma correnteza.
   No. Isso eu vi claramente: Michael foi puxado por uma corda de algas que, de algum modo, havia se enrolado em seu pescoo.
   E ento vi que no havia "de algum modo" naquilo. A alga estava sendo segura ali por duas mos.
   Duas mos pertencentes a algum que estava na gua abaixo dele.
   Algum que no tinha necessidade de vir  superfcie para respirar. Porque esse algum j estava morto.
   Bom, no vou dizer que fiz o que fiz em seguida com algum tipo de pensamento consciente. Se estivesse pensando, teria ficado exatamente onde estava e esperado 
o melhor. S posso dizer em defesa de meus atos que, depois de anos e anos lidando com fantasmas, agi puramente por instinto, sem pensar em nada.
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   E foi por isso que, enquanto o salva-vidas disparava pelas ondas na direo de Michael, com o pequeno flutuador laranja na mo, saltei e fui atrs.
   Bom, talvez eu tenha visto o filme Tubaro vezes demais, mas sempre fiz questo de nunca entrar em gua mais funda do que a minha cintura - em nenhum oceano. 
Por isso, quando me vi partindo para o lugar onde tinha visto Michael pela ltima vez e senti o banco de areia em que estivera correndo desaparecer sob os ps, tentei 
dizer a mim mesma que a cambalhota que meu corao deu foi de adrenalina, e no de medo.
   Tentei dizer isso a mim mesma, claro. Mas no acreditei. Quando percebi que teria de comear a nadar, pirei de vez. Nadei, certo - pelo menos isso eu sei fazer. 
Mas o tempo todo estava pensando: ah, meu Deus, por favor, no deixe que nada nojento, tipo uma enguia, toque qualquer parte do meu corpo. Por favor no deixe uma 
gua-viva me atingir. Por favor, no deixe um tubaro vir nadando por baixo e me cortar ao meio.
   Mas me dei conta de que eu tinha coisas muito piores do que enguias, guas-vivas ou tubares com que me preocupar.
   Atrs de mim podia escutar vozes gritando longe. Gina, Cee Cee e Adam, deduzi com a parte do crebro que no estava paralisada de medo. Gritando para eu sair 
da gua. O que eu pensava que estava fazendo? O salva-vidas tinha a situao sob controle.
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   Mas o salva-vidas no podia ver as mos que puxavam Michael para baixo, nem lutar contra elas.
   Vi o salva-vidas - que, tenho certeza, no fazia idia de que uma garota maluca havia mergulhado atrs dele - deixar a enorme onda que se aproximava de ns levantar 
suavemente seu corpo e empurr-lo para perto de onde Michael havia desaparecido. Tentei imitar sua tcnica e acabei engasgando com a boca cheia de gua salgada. 
Meus olhos estavam ardendo e os dentes comeando a bater. Estava muito, muito frio na gua sem uma roupa de borracha.
   E ento, a poucos metros de mim, Michael veio  superfcie, ofegando e agarrando a corda de alga em volta do pescoo. O salva-vidas, em duas braadas rpidas, 
chegou ao lado dele, jogando-lhe o flutuador laranja e dizendo para relaxar, que tudo ia ficar bem.
   Mas nada ia ficar bem. Ao mesmo tempo em que o salva-vidas falava, vi uma cabea surgir ao lado de Michael. Apesar de o cabelo molhado estar grudado no rosto, 
reconheci Josh, o lder dos Anjos da RLS - um grupinho fantasmagrico com uma deciso infernal de fazer maldades... e evidentemente coisas bem piores.
   Eu no podia falar, claro - tinha certeza de que meus lbios estavam ficando azuis. Mas ainda podia dar socos. Puxei o brao e soltei um dos bons, carregado de 
todo o pnico por me sentir sem nada alm de gua sob os ps.
   Josh no devia estar me reconhecendo do Jimmy's ou do shopping, ou no me reconhecia com o cabelo molhado. De qualquer modo, no estivera prestando ateno a 
mim.
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   Isto , at que meu punho se ligou solidamente com sua cartilagem nasal.
   O osso estalou satisfatoriamente e Josh soltou um grito cheio de dor, que s eu pude ouvir.
   Ou pelo menos foi o que pensei. Tinha me esquecido dos outros anjos.
   Pelo menos at que fui abruptamente puxada para baixo das ondas por dois pares de mos que se enrolaram nos meus tornozelos.
   Deixe-me esclarecer uma coisa aqui. Ainda que para o resto da humanidade os fantasmas no tenham matria - a maioria de vocs anda atravs deles o tempo todo 
e nem sabe; talvez sinta um ponto frio, ou um arrepio estranho, como Kelly e Debbie no mercadinho -, para um mediador eles so definitivamente feitos de carne e 
osso. Como foi ilustrado pelo meu soco na cara de Josh.
   Mas como no tm matria em termos humanos, os fantasmas precisam contar com mtodos mais criativos para fazer mal s suas vtimas do que, digamos, enrolar as 
mos no pescoo delas. Por esse motivo Josh estava usando algas. Ele podia segurar a corda de algas - com algum esforo, como a cerveja no mercadinho. E podia enrolar 
a alga no pescoo de Michael. Misso cumprida.
   Eu, por outro lado, sendo mediadora, no estava sujeita s leis que governam o contato entre humanos e fantasmas, e, assim, eles rapidamente fizeram uso de sua 
vantagem inesperada.
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   Certo, eu percebi naquela hora que tinha cometido um tremendo erro. Uma coisa  lutar contra os bandidos em terra, onde, devo admitir, tenho bastante recursos, 
e - sinto que posso dizer sem cantar vantagem - sou bem gil.
   Mas uma coisa totalmente diferente  tentar lutar contra algo embaixo d'gua. Particularmente contra algo que no precisa respirar com tanta freqncia quanto 
eu. Os fantasmas respiram - alguns hbitos so difceis de superar - mas no precisam, e algumas vezes, se estiverem mortos h tempo suficiente, percebem isso. Os 
Anjos da RLS no estavam mortos h muito tempo, mas tinham morrido embaixo d'gua, de modo que podemos dizer que tiveram uma vantagem inicial sobre seus colegas 
espectrais.
   Dadas essas circunstncias, vi minha situao progredindo de dois modos possveis: ou eu desistia, deixava os pulmes se encherem de gua e afundava, ou ia pirar 
de vez, acertar qualquer coisa que se aproximasse de mim e fazer com que aqueles fantasmas lamentassem no terem ido para a luz.
   No creio que seja grande surpresa para ningum - com a exceo de mim mesma, talvez - que eu tenha escolhido a segunda opo.
   Percebi - apesar de ter demorado um pouco; eu estava bem desorientada - que as mos envoltas nos meus tornozelos eram ligadas a corpos, os quais, presumivelmente, 
estavam ligados a cabeas. No h nada to desagradvel, sei por experincia, como um p na cara. E assim, prontamente, e com toda a fora, chutei na direo em 
que eu supunha
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que esses rostos estariam, e me senti gratificada ao sentir os macios ossos faciais cederem sob meus calcanhares.
   Ento dei uma braada forte, j que os braos ainda estavam livres, e rompi a superfcie da gua, engolindo um monte de ar - e verificando se Michael tinha se 
afastado em segurana. Vi que sim; o salva-vidas estava rebocando-o de volta  praia - antes de eu mergulhar de novo  procura dos agressores.
   Achei-os facilmente. Ainda estavam usando roupa de baile, e os vestidos das garotas flutuavam em volta delas como algas. Agarrei um deles, puxei e vi, na gua 
escura, o rosto espantado de Felicia Bruce. Antes que ela tivesse chance de reagir, enfiei um polegar em seu olho. Ela gritou, mas como estvamos embaixo d'gua 
no ouvi nada. S vi uma trilha de bolhas subindo para a superfcie.
   Ento algum me agarrou por trs. Reagi jogando a cabea para trs com o mximo de fora possvel, e fiquei satisfeita ao sentir meu crnio fazer um contato muito 
duro com a testa do agressor. As mos que estavam me segurando soltaram instantaneamente, e eu girei e vi Mark Pulsford nadando depressa para longe. Grande jogador 
de futebol americano ele tinha sido, se no conseguia suportar uma simples cabeada.
   Senti a necessidade urgente de respirar, por isso segui as ltimas bolhas do grito de Felicia e cheguei  superfcie no mesmo instante que os fantasmas.
   Todos chegamos  tona: eu, Josh, Felicia, Mark e Carrie, de rosto muito branco.
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   - Ah, meu Deus - disse Carrie. Seus dentes, diferentemente dos meus, no estavam batendo. -  aquela garota. A garota do Jimmy's. Eu disse que ela consegue ver 
a gente.
   Josh, cujo nariz quebrado tinha saltado de volta ao lugar, como num desenho animado, mesmo assim estava cauteloso comigo. Ainda que por acaso voc esteja morto, 
ter o nariz quebrado di de monto.
   - Ei - disse ele enquanto eu boiava. - Essa guerra no  sua, certo? Fique fora dela.
   Tentei dizer: "Ah, ? Bem, escutem. Eu sou a mediadora, e vocs tm uma opo: podem prosseguir para a prxima vida com os dentes no lugar ou sem dentes. O que 
vai ser?"
   S que meus dentes estavam chacoalhando tanto que s saiu um punhado de barulhos esquisitos que pareceram: "Aeh? Xcu. Esmedora e..."
   J deu para sacar.
   Como a tcnica do padre Dominic - o dilogo - no parecia estar funcionando naquela situao especfica, abandonei-a. Em vez disso estendi a mo e peguei a corda 
de alga com a qual eles tinham tentado estrangular Michael e enrolei o pescoo das duas garotas, que estavam boiando perto uma da outra e de mim. Elas ficaram extremamente 
surpresas ao se verem laadas como duas vacas.
   E no posso dizer realmente o que eu estava pensando, mas provavelmente  seguro dizer que meu plano - ainda que bolado meio ao acaso - envolvia rebocar as duas 
de volta  praia onde pretendia ench-las de porrada.
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   Enquanto as garotas agarravam o pescoo tentando escapar, os garotos partiram para mim. No me importei. De repente estava furiosa. Eles tinham arruinado meu 
belo momento na praia e tentado afogar o cara com quem eu ia sair. Certo, eu no gostava particularmente de Michael, mas certamente no queria v-lo afogado diante 
dos olhos - ainda mais agora que sabia como ele era um deus por baixo do suter.
   Segurando as garotas com uma das mos, estendi a outra e consegui agarrar Josh pelos - o que poderia ser? - plos curtos da nuca.
   Ainda que isso tenha se mostrado bastante eficaz - ele comeou imediatamente a se sacudir com dor - eu tinha deixado duas coisas de lado. Uma era Mark, que continuava 
nadando livre. A outra era o oceano, que ainda jogava ondas para cima de mim. Qualquer pessoa sensata estaria observando essas coisas, mas eu, na fria, no estava.
   E foi por isso que, um segundo depois, fui prontamente sugada para baixo.
   Vou lhe contar, provavelmente h modos mais agradveis de morrer do que com os pulmes cheios de gua salgada. Isso queima, sabe? Puxa, afinal de contas,  sal.
   E engasguei com um bocado dela, graas primeiro  onda que me deu um caldo. E depois engoli muito mais quando Mark agarrou meu tornozelo e me manteve no fundo.
   Uma coisa tenho de admitir sobre o oceano: l embaixo  bem calmo. Verdade. Sem gaivotas gritando, ondas estourando, gritos dos surfistas. No, embaixo do mar
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 s voc, a gua e os fantasmas que esto tentando lhe matar.
   Porque, claro, eu continuava segurando as pontas da corda de alga usada para rebocar as garotas. E no tinha soltado o cabelo de Josh.
   Descobri que meio que gostava ali de baixo. No era to ruim, verdade. No fosse pelo frio, o sal e a percepo horrvel de que, a qualquer momento, um tubaro 
de seis metros podia vir por baixo e arrancar minha perna, era, bem, quase agradvel.
   Acho que perdi a conscincia por alguns segundos. Tipo, eu tinha de estar mesmo inconsciente para ficar segurando aqueles fantasmas estpidos com tanta fora 
e pensar que ser mantida sob toneladas e toneladas de gua salgada era agradvel.
   A prxima coisa que eu soube foi que alguma coisa estava me puxando, e no era um dos fantasmas. Estava sendo puxada para a superfcie, onde dava para ver os 
ltimos raios do sol cintilando sobre as ondas. Olhei para cima e fiquei surpresa ao ver um claro de laranja e um monte de cabelos louros. Ora, pensei, maravilhada, 
 aquele lindo salva-vidas. O que est fazendo aqui?
   E ento fiquei bastante preocupada com ele, porque, claro, havia um bocado de fantasmas sedentos de sangue por perto, e era totalmente possvel que um deles tentasse 
machuc-lo.
   Mas quando olhei em volta descobri, para minha perplexidade, que todos tinham desaparecido. Eu ainda estava
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segurando a corda de alga e minha outra mo continuava agarrando o cabelo de algum. Mas no havia nada ali. S gua do mar.
   Covardes, pensei. Covardes sujos. Enfrentaram a mediadora e descobriram que no agentavam, no ? Bem, que isso sirva de lio! Ningum mexe com uma mediadora.
   E ento eu fiz uma coisa que provavelmente ser uma infmia eterna para os mediadores.
   Apaguei.
   
Captulo 8
   
   Certo, no sei se algum de vocs j perdeu a conscincia antes, ento deixe eu dizer rapidinho: No faa isso. Verdade. Se puder evitar situaes em que possa 
perder a conscincia, por favor evite. Faa qualquer coisa mas no apague. Confie em mim. No  divertido. No  nem um pouco divertido.
   A no ser,  claro, que haja a garantia de acordar com um boca-a-boca feito por um salva-vidas californiano gatsimo. Nesse caso eu digo: vai fundo.
   Essa foi a minha experincia quando abri os olhos naquela tarde na praia de Carmel. Num segundo estava enchendo os pulmes de gua salgada, e no outro estava 
com os lbios grudados em Brad Pitt. Ou pelo menos algum muito parecido com ele.
   Ser que este  o meu verdadeiro amor?, perguntei a mim mesma, com o corao a mil.
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   Ento os lbios se separaram dos meus e eu vi que no era meu amor verdadeiro, e sim o salva-vidas, com o cabelo louro e comprido caindo molhado em volta do rosto 
moreno. A pele em volta dos olhos se franziu preocupada (a devastao causada pelo sol; ele deveria ter usado Coppertone) enquanto perguntava:
   - Moa? Moa, est ouvindo?
   - Suze - escutei uma voz familiar dizendo. Seria Gina? Mas o que Gina estava fazendo na Califrnia? - O nome dela  Suze.
   - Suze - disse o salva-vidas, dando uns tapinhas bem fortes nas minhas bochechas. - Pisque se estiver entendendo.
   Este no podia ser meu amor verdadeiro, pensei. Parece achar que eu sou uma imbecil. Alm do mais, por que fica me batendo?
   - Ah, meu Deus. - A voz de Cee Cee estava mais aguda do que o usual. - Ela est paralisada?
   Para provar que eu no estava paralisada comecei a me sentar.
   E imediatamente percebi que fora uma pssima deciso.
   Acho que s vomitei uma vez. Dizer que eu botei os bofes para fora como o Vesvio  um tremendo exagero da parte de Dunga.  verdade que um monte de gua do mar 
saiu da minha boca quando tentei me sentar. Mas felizmente evitei vomit-la em cima de mim e do salva-vidas, jogando a maior parte direitinho na areia ao lado.
   Depois de vomitar me senti muito melhor.
106

   - Suze! - Gina, que subitamente lembrei que tinha vindo  Califrnia me visitar, estava de joelhos ao meu lado. - Voc est legal? Fiquei to preocupada! Voc 
estava ali deitada, imvel...
   Soneca foi muito menos simptico.
   - Que diabo voc estava pensando? Pamela Anderson morreu e deixou uma vaga em S.O.S. Malibu, ou alguma coisa assim?
   Olhei todos os rostos ansiosos em volta. Verdade, no fazia idia de que tantas pessoas se importavam. Mas ali estavam Gina, Cee Cee, Adam, Dunga, Soneca, alguns
de seus amigos surfistas e turistas tirando fotos da garota que se afogou de verdade, e Michael e...
     Michael. Meu olhar saltou de volta para ele. Michael, que estava correndo tanto perigo e mal parecia notar. Michael que, parado e pingando acima de mim, parecia
inconsciente do fato de que em volta de sua garganta havia um grande inchao vermelho onde a alga havia lanhado sua pele. Ela parecia dolorosamente inflamada.
   - Estou bem - falei, e tentei ficar de p.
   - No - disse o salva-vidas. - Uma ambulncia est vindo. Fique a at que os caras do resgate mdico faam um exame.
   - H... No, obrigada.
   Ento me levantei e fui em direo  minha toalha, que continuava onde eu tinha deixado mais adiante na praia, perto da de Gina.
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   - Moa - disse o salva-vidas, correndo atrs de mim. - Voc ficou inconsciente. Quase se afogou. Tem de ser examinada pelo resgate mdico.  o procedimento.
   - Voc deveria deixar que eles examinassem voc, Suze - disse Cee Cee correndo ao meu lado. - Rick disse que acha que voc e Michael podem ter sido vtimas de
uma caravela, sabe? Uma gua-viva gigante.
   Pisquei.
   - Rick? Quem  Rick?
   - O salva-vidas - disse Cee Cee exasperada. Parece que, enquanto eu estava inconsciente, todo mundo havia se conhecido. - Por isso ele mandou pendurar a bandeira
amarela.
   Franzi os olhos e vi a bandeira amarela desfraldada acima da cadeira do salva-vidas. Em geral ela era verde, a no ser quando havia correntezas extremamente fortes, 
mas agora era de um amarelo luminoso, avisando aos banhistas para tomar cuidado na gua.
   - Puxa, olha s o pescoo do Michael - continuou Cee Cee. Olhei para o pescoo dele, obedientemente.
   - Rick disse que quando chegou l havia uma coisa enrolada no meu pescoo - disse Michael. Percebi que ele no me encarava. - Ele disse que a princpio achou 
que fosse uma lula gigante. Mas no podia ser, claro. Nunca foi vista uma to ao norte. Por isso achou que devia ser uma caravela.
   No falei nada. Tinha quase certeza de que Rick acreditava mesmo que Michael fora vtima de uma caravela. A mente humana  capaz de qualquer coisa para acreditar
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em tudo, menos na verdade: que pode haver alguma outra coisa l fora, algo inexplicvel... algo que no  exatamente normal.
   Algo paranormal.
   Assim, a corda de alga que fora enrolada no pescoo de Michael se tornou o brao de uma lula gigante, e depois o tentculo peonhento de uma gua-viva. Certamente 
no poderia ser o que parecia: um pedao de alga sendo usado com inteno mortal por um par de mos invisveis.
   - E olha os seus tornozelos - disse Cee Cee.
   Olhei. Em volta dos dois tornozelos havia marcas vermelhas, parecendo de corda. S que no eram marcas de corda. Eram os lugares onde Felicia e Carrie tinham 
me agarrado, tentando me arrastar para o fundo do oceano e para a morte certa.
   Aquelas garotas estpidas precisavam de uma manicure, e muito.
   - Voc teve sorte - disse Adam. - Eu j fui picado por uma caravela, e di pra...
   Sua voz ficou no ar quando ele viu Gina escutando atentamente. Gina, que tinha quatro irmos, certamente j ouvira todo palavro que h no mundo, mas Adam era 
cavalheiro demais para falar algum na frente dela.
   - Caramba - terminou ele. - Mas vocs no parecem ter sido muito machucados. Bem, a no ser pelo negcio de quase se afogarem.
   Estendi a mo para a toalha e fiz o mximo para tirar a areia que me cobria inteira. O que aquele salva-vidas tinha feito, afinal? Me arrastado pelo cho?
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   -        Bem - falei. - Agora eu estou bem. No me machuquei.
   Soneca, que tinha me seguido como todo mundo, reagiu exasperado:
   - No est bem, Suze. Faa o que o salva-vidas mandou. No me obrigue a ligar para mame e papai.
   Olhei-o, surpresa. No porque estivesse furiosa com a ameaa de me dedurar, mas porque ele tinha chamado minha me de mame. Soneca nunca fizera isso antes. A 
me dos meus meios-irmos tinha morrido h anos e anos.
   Bem, pensei. Ela  a melhor me do mundo.
   - Ligue - falei. - No me importo.
   Vi Soneca e o salva-vidas trocarem olhares significativos. Corri para pegar minhas roupas e comecei a vesti-las por cima do biquni molhado. No estava tentando 
bancar a difcil. Srio, no estava. S que no podia me dar ao luxo de uma viagem ao hospital, com as trs horas que isso me faria perder. Nessas trs horas tinha 
quase certeza de que os Anjos da RLS fariam outro ataque contra Michael... e eu no poderia deix-lo, em s conscincia,  merc das tramas deles.
   - No vou levar voc para casa a no ser que voc deixe o pessoal do resgate mdico examinar voc primeiro - disse Soneca, cruzando os braos diante do peito, 
um gesto que fez a borracha de sua roupa de mergulho chiar audivelmente.
   Virei-me para Michael, que pareceu extremamente surpreso quando perguntei com educao:
   - Michael, voc se importaria de me levar para casa?
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   Agora ele no pareceu ter problema em me encarar. Seus olhos se arregalaram por trs dos culos - evidentemente os havia encontrado largados na minha toalha - 
e ele gaguejou:
   - C...claro!
   Isso fez o salva-vidas balanar a cabea insatisfeito e ir embora. Todos os outros ficaram parados em volta, me olhando como se eu fosse demente. Gina foi a nica 
que chegou perto enquanto eu pegava os livros e me preparava para acompanhar Michael at onde seu carro estava estacionado.
   - Ns duas vamos ter uma boa conversa quando voc chegar em casa - disse ela.
   Olhei-a com o que esperei que fosse uma expresso inocente. Os ltimos raios do sol tinham feito sua aura de cabelos cor de cobre brilhar como uma aurola.
   - O que voc quer dizer com isso?
   - Voc sabe o que eu quero dizer - disse ela, com um olhar expressivo.
   E ento ela se virou e voltou para onde Soneca estava me olhando preocupado.
   A verdade  que eu sabia o que ela queria dizer. Gina estava falando de Michael. O que eu estava fazendo? Brincando com um garoto como ele, que obviamente no 
era meu verdadeiro amor?
   Mas o fato  que eu no podia contar a ela. No podia contar que Michael estava sendo perseguido por quatro fantasmas com intenes assassinas, e que meu dever 
sagrado como mediadora era proteg-lo.
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   Se bem que, considerando o que aconteceu mais tarde naquela noite, provavelmente deveria ter contado.
   - Precisamos conversar - falei assim que Michael ligou o carro. Era de novo a perua de sua me. Michael explicou que o dele ainda estava na oficina.
   Agora que estava de novo com os culos e as roupas, Michael nem de longe era o intimidante espcime masculino que pareceu ser sem eles. Como o Super-homem vestido 
de Clark Kent, ele tinha voltado a ser um nerd gaguejante.
   S no pude deixar de ver que, enquanto gaguejava, ele preenchia muito bem aquele suter.
   - Conversar? - Ele segurou o volante com fora enquanto entrvamos no que, para Carmel, significava o trfego da hora do rush: um nico nibus de turismo e um 
Volkswagen cheio de pranchas de surfe. - S... sobre o qu?
   - Sobre o que aconteceu com voc neste fim de semana.
   Michael virou a cabea rapidamente para me olhar, depois, de modo igualmente rpido, virou-se de novo para a estrada. - O... o que voc q...quer dizer?
   - Qual , Michael! - Achei que no havia sentido em ser gentil. Era como um Band-Aid que precisava ser arrancado: ou voc fazia isso com uma lentido agonizante 
ou ia com tudo, bem depressa. - Eu sei sobre o acidente.
   Finalmente o nibus de turismo comeou a andar. Michael pisou no acelerador.
   - Bem - falou depois de um minuto, com um sorriso torto no rosto, apesar de manter o olhar na estrada. - Voc no deve me culpar muito, seno no teria pedido 
carona.
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   - Culpar de qu?
   - Quatro pessoas morreram naquele acidente. - Michael pegou uma lata de Coca pela metade no suporte de copos entre os bancos. - E eu ainda estou vivo. - Ele tomou 
um gole rpido e ps a lata de volta no lugar. - Faa o seu julgamento.
   No gostei do seu tom de voz. No porque fosse de autopiedade. Porque no era. Parecia hostil. E notei que ele no estava mais gaguejando.
   - Bem - falei com cuidado. Como disse, o padre Dominic  que  bom de dilogo. Eu sou mais o lado musculoso de nossa famlia mediadora. Sabia que estava me aventurando 
em guas profundas e turvas, se voc perdoar a piada de mau gosto.
   - Li hoje no jornal que seu teste do bafmetro deu negativo para lcool - falei cautelosamente.
   - E da? - explodiu Michael, me espantando um pouco. - O que isso prova?
   Pisquei para ele.
   - Bem, que pelo menos voc no estava dirigindo bbado.
   Ele pareceu relaxar um pouco.
   - Ah. - Depois me perguntou hesitante: - Voc quer...
   Olhei-o. Estvamos seguindo pelo litoral. E o sol, afundando na gua, tinha pintado tudo em laranja brilhante ou em sombras profundas. A luz refletida nos culos 
de Michael tornava impossvel ler sua expresso.
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   - Voc quer ver onde a coisa aconteceu? - perguntou ele de repente, como se quisesse pr as palavras para fora antes de mudar de idia.
   - Ah, claro. Se voc estiver com vontade de mostrar.
   - Estou. - Ele virou o rosto para me olhar, mas de novo no pude ver seus olhos por trs das lentes. - Se voc no se importar.  esquisito, mas... eu realmente 
acho que voc pode entender.
   Ha!, pensei presunosa. Engula essa, padre Dom! Toda essa sua birra porque eu sempre bato primeiro e falo depois. Bem, olhe s para mim agora!
   - Por que voc fez aquilo? - perguntou Michael abruptamente, interrompendo meus parabns a mim mesma.
   Lancei um olhar espantado na sua direo.
   - Fiz o qu? - Genuinamente no fazia a mnima idia do que o cara estava falando.
   - Entrou na gua atrs de mim - disse ele na mesma voz baixa.
   - Ah. - Pigarreei. - Aquilo. Bem, veja s, Michael...
   - No faz mal.
   Quando o olhei de novo vi que ele estava sorrindo.
   - No se preocupe - disse Michael. - No precisa me dizer. Eu sei. - Sua voz baixou uma oitava. Olhei-o alarmada. - Eu sei.
   E ento ele passou a mo por cima da Coca-cola aninhada no suporte de copos entre os bancos e ps a mo direita em cima da minha esquerda.
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   Ah, meu Deus! Senti o estmago se revirar outra vez, como tinha acontecido na praia.
   Porque subitamente tudo estava claro. Michael Meducci no tinha simplesmente uma quedinha por mim. Ah, era muito, muito pior do que isso:
   Michael Meducci acha que eu tenho uma quedinha por ele.
   Michael Meducci acha que eu tenho mais do que simplesmente uma quedinha por ele. Michael Meducci acha que estou apaixonada por ele.
   Eu tinha apenas uma coisa para dizer, e como no podia dizer em voz alta, falei dentro da cabea:
   
   EEEECA!
   
   Digo, ele pode ter ficado bonito na roupa de banho e coisa e tal, mas Michael Meducci ainda no era exatamente...
   Bem, Jesse.
   E  assim que minha vida amorosa vai ser de agora em diante, no ?, pensei com um suspiro.
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Captulo 9
   
   Com cuidado, tentei tirar minha mo de baixo da de Michael. - Ah - disse ele, levantando a mo para poder segurar o volante. - Est chegando. Quero dizer, o lugar 
onde o acidente aconteceu.
   Pavorosamente aliviada, olhei para a direita. Estvamos seguindo ao longo da Auto-estrada a uma boa velocidade. As areias da praia de Carmel tinham se transformado 
nos majestosos penhascos de Big Sur. Mais alguns quilmetros adiante pelo litoral chegaramos aos bosques de sequias e ao farol de Point Sur. Big Sur era um porto-seguro 
para quem gostava de trilhas, de acampar e praticamente qualquer pessoa que gostasse de vistas magnficas e uma beleza natural de tirar o flego. Eu gosto das paisagens, 
mas a natureza me d calafrios... especialmente depois de um pequeno incidente com sumagre venenoso
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que tinha ocorrido cerca de uma ou duas semanas depois de chegar  Califrnia.
   E nem me fale de carrapatos.
   Big Sur - ou pelo menos a estrada de mo dupla que serpenteia ao redor - tambm tem algumas curvas bem fechadas. Michael seguiu mais devagar, rodeando uma da 
qual no se podia ver nada do outro lado, quando um trailer, vindo na outra direo, surgiu trovejando do outro lado do enorme penhasco. No havia exatamente espao 
para os dois veculos, e considerando que tudo que nos separava da queda direta no mar era uma grade de metal, a coisa foi meio perturbadora. Mas Michael deu marcha 
a r - ns no estvamos indo muito depressa - e depois parou, deixando o trailer passar com apenas uns trinta centmetros entre os veculos.
   - Nossa! - falei, olhando para o trailer enorme. - Isso  meio perigoso, no ?
   Michael deu de ombros.
   - As pessoas deveriam buzinar quando chegam quela curva. Para avisar a quem est atrs da pedra. O cara obviamente no sabia porque era um turista. - Michael 
pigarreou. - Foi isso que aconteceu... ... na noite de sbado.
   Sentei-me mais ereta no banco.
   - Foi aqui... - engoli em seco - ...que aconteceu?
   - . - No havia qualquer mudana no tom de sua voz.
   - Foi aqui.
   E foi mesmo. Agora que sabia, pude ver claramente as marcas pretas de pneus que o carro de Josh tinha deixado
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enquanto ele tentava no cair. Um grande trecho da grade de segurana j fora substituda, o metal brilhante e novo exatamente onde as marcas de pneu terminavam. 
Perguntei em voz baixa:
   - Podemos parar?
   - Claro.
   Havia um mirante depois da curva, a menos de cem metros de onde os veculos tinham deixado de bater por pouco. Michael estacionou ali e desligou o motor.
   - Ponto de observao - disse ele, apontando para a placa de madeira diante de ns que dizia: Ponto de observao. Proibido jogar lixo. - Muitos jovens vm aqui 
nas noites de sbado. - Michael pigarreou e me olhou de modo significativo. - E param o carro.
   Preciso dizer que at aquele momento eu no fazia idia de que era capaz de me mover to rpido como fiz ao sair daquele carro. Mas soltei o cinto de segurana 
e desci daquele banco antes que voc possa dizer ectoplasma.
   O sol tinha baixado quase completamente e o tempo j estava esfriando. Abracei-me na ponta dos ps para olhar por cima da beira do penhasco, com o cabelo chicoteando 
o rosto ao vento do mar, que era muito mais forte e frio aqui em cima do que na praia. A pulsao rtmica do mar l embaixo era alta, muito mais alta do que os motores 
dos carros passando na Auto-estrada 1.
   Notei que no havia gaivotas. E nenhum tipo de pssaro.
   Claro que esta deveria ter sido minha primeira pista. Mas, como sempre, deixei de ver.
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   Em vez disso, s consegui me concentrar em como o penhasco era ngreme. Dezenas e dezenas de metros, caindo direto nas ondas que se chocavam contra as pedras 
gigantescas derrubadas durante vrios terremotos. No era exatamente o penhasco de onde voc veria algum mergulhando. Nem mesmo Elvis em sua poca de Acapulco.
   Curiosamente, abaixo do lugar onde o carro de Josh tinha sado da estrada, havia uma pequena praia. No do tipo onde voc vai tomar banho de sol, mas uma bela 
rea de piquenique se voc estivesse disposto a arriscar o pescoo descendo at l.
   Michael deve ter notado meu olhar, pois falou:
   - , foi onde eles caram. No na gua. Bem, pelo menos no na hora. Ento chegou a mar alta e...
   Estremeci e desviei o olhar.
   - H algum modo de descer at l? - pensei em voz alta.
   - Claro - disse ele, e apontou para uma parte aberta na grade de segurana. - Ali. H uma trilha. Praticamente s o pessoal que faz caminhada usa. Mas algumas 
vezes os turistas tentam. A praia l embaixo  incrvel. Voc nunca viu ondas to grandes. S que  perigosa demais para surfar. Tem muita correnteza.
   Olhei para ele curiosamente ao crepsculo roxo.
   - Voc j esteve l? - perguntei. A surpresa na minha voz deve ter sido evidente.
   - Suze - disse ele com um sorriso. - Eu moro aqui desde que nasci. No h muitas praias que eu no conhea.
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   Assenti e puxei uma mecha de cabelo que tinha entrado na boca graas ao vento.
   - E ento, o que aconteceu exatamente naquela noite?
   Ele franziu a vista para a estrada. Agora estava escuro a ponto de os carros acenderem os faris. De vez em quando, a luz de um deles varria o rosto de Michael 
enquanto ele falava. Era difcil, novamente, ver seus olhos por trs do reflexo da luz nas lentes dos culos.
   - Eu estava indo para casa, vindo de um seminrio no Esalen...
   - Esalen?
   - . O Instituto Esalen. Nunca ouviu falar? - Ele balanou a cabea. - Meu Deus, eu achava que o Esalen era conhecido no mundo inteiro. - Minha expresso devia 
estar vazia, porque ele disse: - Bem, de qualquer modo, eu fui a uma palestra l. "Colonizao de outros mundos, e o que isso significa para os extraterrestres aqui 
na terra."
   Tentei no explodir numa gargalhada. Afinal de contas, era uma garota que via fantasmas e falava com eles. Quem era eu para dizer que no existia vida em outros 
planetas?
   - Bom, eu estava voltando para casa, acho que era bem tarde, e eles vieram com tudo naquela curva, e nem buzinaram nem nada.
   Assenti.
   - E o que voc fez?
   - Bem, desviei para evit-los, claro, e acabei batendo naquele penhasco ali. No d para ver porque est escuro agora, mas meu pra-choque da frente arrancou 
um bom
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pedao do morro. E eles... bem, eles desviaram para o outro lado, e havia neblina, e a estrada devia estar meio escorregadia, e eles iam bem rpido, e...
   Michael terminou, a voz sem tom, dando de ombros outra vez.
   - E eles caram.
   Estremeci de novo. No podia evitar. Eu tinha conhecido aqueles garotos, lembra? Eles no estavam exatamente nas melhores condies - na verdade estavam tentando 
me matar -, mas mesmo assim no conseguia deixar de sentir pena deles. Era uma queda longa, muito longa.
   - Ento o que voc fez?
   - Eu? - Ele pareceu estranhamente surpreso com a pergunta. - Bem, eu bati com a cabea, voc sabe, ento apaguei. S voltei a mim quando algum parou e veio olhar. 
Foi quando perguntei o que tinha acontecido com o outro carro. E eles disseram: "Que outro carro?" E eu pensei que... voc sabe... eles tinham ido embora, e tenho 
de admitir que fiquei bem irritado. Puxa, eles nem tinham se incomodado em chamar uma ambulncia para mim, nem nada. Mas ento ns vimos a grade...
   Agora eu estava ficando realmente com frio. O sol tinha sumido por completo, embora o cu no oeste ainda estivesse com riscas de violeta e vermelho. Senti um 
calafrio e falei:
   - Vamos para o carro.
   E fomos.
   Ficamos ali sentados olhando o horizonte assumir um tom de azul cada vez mais profundo. Os faris dos carros
1

que passavam ocasionalmente iluminavam o interior da perua. Dentro estava muito mais silencioso, sem o vento e o barulho das ondas l embaixo. Outra onda de cansao 
extremo passou por mim. Pelo brilho do relgio no painel dava para ver que logo estaria na hora do jantar. Meu padrasto Andy tinha uma regra muito rgida sobre o 
jantar. Voc aparece na hora. E ponto final.
   - Olhe - falei rompendo o silncio. - O que aconteceu parece horrvel. Mas no foi sua culpa.
   Ele me olhou. Ao brilho verde dos instrumentos do painel dava para ver que seu sorriso era triste.
   - No foi? - perguntou ele.
   - No - falei sria. - Foi um acidente, sem dvida. O problema  que... bem, nem todo mundo v a coisa assim.
   O sorriso desapareceu.
   - Quem no v assim? Os policiais? Eu dei meu depoimento. Eles pareceram satisfeitos. Tiraram uma amostra de sangue. O teste para lcool foi totalmente negativo. 
Para todas as drogas. Eles no podem...
   - No so os policiais - falei rapidamente. Como  que eu ia dizer isso? P, o cara era obviamente um daqueles fanticos por ovnis, por isso era provvel que 
no teria problema com fantasmas, mas nunca se sabe.
   - O negcio - comecei com cuidado -  que eu notei que, desde o acidente deste fim de semana, voc andou meio propenso a... acidentes.
   - . - De repente a mo de Michael estava outra vez em cima da minha. - Se no fosse voc eu at poderia estar morto. Voc j salvou minha vida duas vezes.
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   - H h - falei nervosa, puxando a mo e fingindo que estava com outro cabelo na boca e por isso precisava usar aquela mo em particular, voc sabe, para tir-lo. 
- Ah, mas, srio, voc meio que no... quero dizer... se perguntou o que estava acontecendo? Tipo por que tantas... coisas estavam acontecendo de repente?
   Ele sorriu outra vez. Os dentes,  luz do velocmetro, pareciam verdes.
   - Deve ser o destino.
   - Certo - falei. Por que eu? - No digo esse tipo de coisa. Estou falando de coisas ruins. Como no shopping. E na praia ainda h pouco.
   - Ah. - Ento ele encolheu aqueles ombros incrivelmente fortes. - No.
   - Certo - falei de novo. - Mas se voc pensasse, no acha que uma explicao lgica poderia ser... espritos raivosos?
   Seu sorriso se desbotou um pouco.
   - O que quer dizer?
   Dei um suspiro.
   - Olha, aquilo l no foi uma gua-viva, e voc sabe. Voc estava sendo puxado para baixo, Michael. Por alguma coisa.
   Ele assentiu.
   - Eu sei. No... eu estou acostumado com correntezas, claro, mas aquilo foi...
   - No foi uma correnteza. E no foi uma gua-viva. E eu s... bem, acho que voc deveria ter cuidado.
   - O que voc est dizendo? - Michael me espiou curioso. - Parece at que est sugerindo que eu fui vtima de algum
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tipo de... fora demonaca. - Ele riu. No silncio do carro, o riso soou alto. - Provocado pela morte daqueles garotos que quase me jogaram fora da estrada?  isso?
   Olhei pela janela. No dava para ver nada alm das sombras roxas dos penhascos ngremes ao redor, mas mesmo assim continuei olhando.
   - .  exatamente isso.
   - Suze. - Michael pegou a minha mo outra vez, e desta vez apertou. - Est tentando me dizer que acredita em fantasmas?
   Olhei-o. Olhei-o direto nos olhos. E falei:
   - Sim, Michael. Estou.
   Ele riu de novo.
   - Ah, qual ! Voc acha sinceramente que Josh Saunders e seus amigos so capazes de se comunicar do alm-tmulo?
   Alguma coisa no modo como ele disse o nome de Josh me fez... no sei. Mas no gostei daquilo. No gostei nem um pouco.
   - Quero dizer... - Michael soltou minha mo, depois se inclinou para a frente e ligou o carro. - Encare os fatos. O sujeito era um atleta idiota. A coisa mais 
impressionante que j fez foi mergulhar de um penhasco com outro atleta idiota e as namoradas igualmente tapadas. No  uma coisa necessariamente to ruim eles terem 
ido embora. Eles s estavam ocupando espao.
   Meu queixo caiu. Senti isso. No entanto eu parecia no ser capaz de fazer nada a respeito.
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   - E quanto a algum deles ser capaz de invocar qualquer poder das trevas - disse Michael, pondo aspas vocais nas palavras poder das trevas - para vingar suas mortes 
estpidas e dignas de pena, bem, obrigado pelo aviso, mas acho que esse negcio tipo Eu sei o que voc fez no vero passado j saiu de moda, no acha?
   Encarei-o. Encarei de verdade. No dava para acreditar. Esse  que era o sr. Sensvel. Acho que s gaguejava e ficava vermelho quando sua vida estava sendo ameaada. 
No parecia se incomodar muito com a dos outros.
   A no ser, talvez, que fosse sair com a pessoa na noite de sexta, o que foi ilustrado pelo comentrio quando estvamos para voltar  estrada:
   - Ei. - Ele piscou. - Ponha o cinto.
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Captulo 10

   Deslizei para a minha cadeira no instante em que todo mundo ia pegando os garfos. Ha! No estava atrasada! Pelo menos tecnicamente, j que ningum tinha comeado
a comer.
   - E onde voc esteve, Suze? - perguntou mame, levantando um cesto de pezinhos e passando diretamente para Gina. O que era bom. Caso contrrio, pelo modo como 
meus meios-irmos comiam, aquilo estaria vazio antes mesmo de chegar a ela.
   - Fui passear de carro - falei, enquanto Max, o cachorro extremamente grande e extremamente babo dos meus meios-irmos, baixava a cabea no meu colo, seu posto 
tradicional na hora das refeies, e revirava os suaves olhos castanhos para mim.
   - Com quem? - perguntou mame naquele mesmo tom ameno, o que indicava que, se eu no respondesse com cuidado, poderia estar numa encrenca sria.
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   Antes que eu pudesse falar qualquer coisa Dunga disse:
   - Michael Meducci - e fez alguns sons de vmito.
   Andy levantou as sobrancelhas.
   - O garoto que esteve aqui ontem  noite?
   - Esse mesmo - falei, lanando um olhar raivoso que Dunga ignorou. Notei que Gina e Soneca tinham tomado o cuidado de se sentar um ao lado do outro e estavam 
estranhamente silenciosos. Imaginei o que veria embaixo da mesa se largasse o guardanapo e me abaixasse para pegar. Provavelmente, pensei, algo que no iria querer 
ver. Mantive o guardanapo no colo.
   - Meducci - murmurou mame. - Por que esse nome me  familiar?
   - Sem dvida voc est pensando nos Medici - disse Mestre -, uma famlia nobre italiana que produziu trs papas e duas rainhas da Frana. Cosimo, o Velho, foi 
o primeiro a governar Florena, enquanto Lorenzo, o Magnfico, foi patrono das artes, com protegidos que incluam Michelangelo e Botticelli.
   Minha me o olhou com curiosidade.
   - Na verdade no era isso que eu estava pensando - disse ela.
   Eu sabia o que estava por vir. Mame tem uma memria fantstica. Precisa disso em sua rea de trabalho. Mas eu sabia que era apenas questo de tempo antes de 
ela deduzir onde tinha ouvido o nome de Michael.
   - Foi ele que esteve naquele acidente nesse fim de semana - falei, para apressar o inevitvel. - Em que aqueles quatro estudantes da RLS morreram.
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   Dunga largou o garfo, que fez um barulho ao bater no prato.
   - Michael Meducci - Ele balanou a cabea. - De jeito nenhum. Foi o Michael Meducci? Voc est de sacanagem.
   - Brad. Cuidado com o palavreado, por favor - disse Andy incisivamente.
   - Desculpe - disse Dunga, mas notei que seus olhos estavam muito brilhantes. - Michael Meducci - repetiu ele. - Michael Meducci matou Mark Pulsford?
   - Ele no matou ningum - respondi com rispidez. Dava para ver que devia ter ficado de boca fechada. Agora a coisa estaria no ouvido de todo mundo na escola. 
- Foi um acidente.
   - Verdade, Brad - disse Andy. - Tenho certeza de que o pobre garoto no quis matar ningum.
   - Bem, desculpe - respondeu Dunga. - Mas Mark Pulsford era um dos melhores zagueiros do estado. Srio. Tinha uma bolsa para a UCLA, e coisa e tal. O cara era 
muito maneiro de verdade.
   - Ah, ? Ento o que ele fazia andando com voc? - Soneca, num raro momento de espirituosidade, riu para o irmo.
   - Cala a boca - reagiu Dunga. - Por acaso a gente foi a uma festa junto.
   - Certo - disse Soneca com um riso de desprezo.
   - Foi mesmo - insistiu Dunga. - No ms passado, no Vale. Mark era o bicho. - Ele pegou um pozinho, enfiou quase inteiro na boca e depois falou ao redor da massa: 
- At Michael Meducci chegar e matar o cara.
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   Notei que Gina estava me observando com uma das sobrancelhas - s uma - levantada. Ignorei-a.
   - O acidente no foi culpa de Michael - falei. - Pelo menos ele no foi acusado de nada.
   Mame pousou seu garfo.
   - A investigao do acidente ainda no terminou - disse ela.
   - Com tantos acidentes que acontecem naquele trecho - disse meu padrasto, enquanto colocava alguns talos de aspargo no prato de mame e depois passava a bandeja 
para Gina -,  de pensar que algum devia fazer alguma coisa para melhorar as condies da estrada.
   - A parte mais estreita da estrada no trecho de 160 quilmetros de litoral chamado Big Sur  tradicionalmente considerada traioeira, e at mesmo perigosa - disse 
Mestre em tom casual. - Frequentemente encoberta pela nvoa litornea, essa estrada de montanha, sinuosa e estreita, tem pouca probabilidade de ser expandida, graas 
aos preservacionistas histricos. O prprio isolamento da rea  o que atrai tanto os muitos poetas e artistas que construram casas por l, inclusive Robinson Jeffers, 
que achou muito atraente o esplendor das vastides descampadas.
   Olhei de relance para o meu meio-irmo mais novo. s vezes sua memria fotogrfica era irritante, mas na maior parte das vezes era tremendamente til, em particular 
quando chegava a poca das dissertaes de fim de semestre.
   - Obrigada - falei.
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   Mestre sorriu, revelando a boca cheia de comida presa no aparelho.
   - De nada.
   - A pior parte - disse Andy, continuando o discurso sobre as condies de segurana na Auto-estrada 1 -  que os jovens motoristas parecem irresistivelmente atrados 
por aquele trecho da rodovia.
   Dunga, enfiando arroz selvagem na boca como se fosse a primeira comida que via h semanas, deu um risinho e falou:
   - Muito bem, papai.
   Andy olhou para seu filho do meio.
   - Sabe, Brad - disse em tom afvel. - Nos Estados Unidos, e em boa parte da Europa, pelo que soube,  considerado socialmente aceitvel baixar ocasionalmente 
o garfo e passar algum tempo mastigando.
   -  l que est a ao - disse Dunga, pousando o garfo como o pai tinha sugerido, mas compensando isso ao falar de boca cheia.
   - Que ao? - perguntou meu padrasto, curioso.
   Soneca, que em geral no falava a no ser que fosse absolutamente obrigado, tinha ficado quase tagarela desde a chegada de Gina.
   - Ele est falando do Ponto - disse Soneca.
   Minha me ficou confusa.
   - Qual ponto?
   - O Ponto - corrigiu Soneca. - O Ponto de Observao.  onde todo mundo vai dar uns amassos na noite de sbado.
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Pelo menos - Soneca riu sozinho - Brad e os amigos dele.
   Longe de se ofender com a denncia, Dunga balanou um talo de aspargo como se fosse um charuto enquanto explicava:
   - O Ponto  o lugar!
   -  l que voc leva Debbie Mancuso? - perguntou Mestre, interessado. E depois se encolheu de dor quando uma de suas canelas foi brutalmente agredida por baixo 
da mesa. - Ai!
   - Debbie Mancuso e eu no estamos namorando! - berrou Dunga.
   - Brad - disse Andy. - No chute seu irmo. David, no invoque o nome da srta. Mancuso  mesa de jantar. Ns j falamos disso. E Suze?
   Levantei a cabea, com as sobrancelhas erguidas.
   - No gosto da idia de voc sair de carro com um garoto que se envolveu num acidente fatal, quer tenha sido culpa dele ou no. - Andy olhou para mame. - Voc 
concorda?
   - Receio ter de concordar - disse mame. - Eu me sinto mal com relao a isso. Os Meducci sem dvida passaram por tempos difceis ultimamente... - Quando meu 
padrasto a olhou de modo interrogativo, mame falou: - A filhinha deles foi aquela que quase se afogou h algumas semanas. Voc lembra.
   - Ah. - Andy assentiu. - Naquela festa na piscina. No havia superviso dos pais...
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   - E havia bastante lcool - disse minha me. - Parece que a coitadinha bebeu demais e caiu na gua. Ningum notou. Ou, se notou, ningum fez nada. At ser tarde 
demais. Ela est em coma desde ento. Se sobreviver ser com srios danos cerebrais. Suze - mame pousou o garfo -, no acho boa idia voc sair com esse garoto.
   Normalmente isso teria me animado bastante. Poxa, eu no estava exatamente ansiosa para sair com o cara.
   Mas precisava. Quero dizer, se quisesse ter alguma esperana de impedi-lo de cair num caixo de nerd.
   - Por qu? - Engoli cautelosamente um pedao de salmo. - No  culpa de Michael a irm dele ser uma alcolatra que no sabe nadar. E o que os pais dela estavam 
pensando, afinal, deixando uma menina da oitava srie ir a uma festa daquelas?
   - Isso no est em questo - disse mame com a boca ficando tensa - e voc sabe. Voc vai ligar para aquele rapaz e dizer que sua me a probe completamente de 
entrar num carro com ele. Se ele quiser vir aqui e passar um tempo com voc assistindo a vdeos ou algo assim, tudo bem. Mas voc no vai entrar num carro com ele.
   Meus olhos se arregalaram. Aqui? Passar um tempo aqui! Sob o olhar atento de Jesse? Oh, Deus, era tudo o que eu precisava. A imagem que essas palavras invocava 
me encheu de tamanho horror que a garfada de salmo que eu tinha parado diante dos lbios caiu no meu colo, onde foi instantaneamente aspirada por uma comprida lngua 
canina.
   Mame tocou minha mo.
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   - Suze - disse ela em voz baixa. - Estou falando srio. No quero voc entrando num carro com aquele garoto.
   Olhei curiosa para mame.  verdade que no passado j fui obrigada a desobedec-la, principalmente devido a circunstncias fora do meu controle. Mas ela no sabia 
disso. Quero dizer, que eu a havia desobedecido. Na maior parte eu tinha conseguido manter as transgresses em segredo - a no ser pelas ocasies em que fora trazida 
para casa pela polcia, incidentes to raros que nem vale a pena mencionar.
   Mas como esse no era o caso, no entendi bem por que ela achou necessrio repetir a regra sobre Michael Meducci.
   - Certo, mame. Eu tinha entendido da primeira vez.
   - Para voc saber que  uma coisa muito importante para mim.
   Olhei-a. No que ela parecesse... bem, culpada. Mas sem dvida sabia de alguma coisa. Algo que no estava revelando.
   Isso no era realmente de surpreender. Como jornalista de televiso mame costumava estar a par de informaes que no eram necessariamente destinadas ao pblico. 
E ela no era uma dessas reprteres de que voc ouve falar, que faria qualquer coisa para conseguir uma "grande" matria. Se um policial contar alguma coisa a mame 
(e eles frequentemente fazem isso; mesmo tendo quarenta e tantos anos, mame ainda  bem gata, e praticamente todo mundo conta o que ela quiser se ela lamber os 
lbios o suficiente), o sujeito pode confiar que isso no ser revelado no noticirio, caso ele pea. Para ver como ela .
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   Imaginei o que, de fato, minha me sabia sobre Michael Meducci e o acidente que tinha matado os quatro Anjos.
   Aparentemente o bastante para no querer que eu andasse com ele.
   E no achei que ela estivesse sendo to injusta com Michael. No podia deixar de me lembrar do que ele tinha dito no carro, logo antes de voltar  estrada. Eles 
s estavam ocupando espao.
   De repente, eu no culpava tanto aqueles garotos por tentarem afog-lo.
   - Certo, mame - repeti. - Eu entendo.
   Aparentemente satisfeita, minha me voltou ao seu salmo, que Andy havia grelhado muito bem e servido com um delicado molho de endro.
   - E como voc vai dar a notcia a ele? - perguntou Gina, meia hora depois, enquanto me ajudava a encher a lava-louas aps o jantar, tendo descartado a insistncia 
de mame de que, como hspede, no precisava fazer isso.
   - No sei - falei hesitando. - Voc sabe, fora todo o negcio tipo Clark Kent...
   - Esquisito por fora, um sonho por dentro?
   - . Apesar disso, e  difcil de resistir, acredite, ele ainda tem uma coisa que me parece...
   - Furtiva? - disse Gina, passando gua na saladeira antes de me entregar para pr na mquina.
   - Talvez seja isso. No sei.
   - Foi muito furtivo o modo como ele apareceu aqui ontem  noite. Sem ligar antes. Se um cara tentasse fazer isso
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comigo... - ela balanou os dedos no ar e depois os estalou - ele j era.
   Dei de ombros. No leste era diferente, claro. Na cidade voc simplesmente no passa na casa de algum sem ligar antes. Na Califrnia, como eu tinha notado, os 
"passantes" eram mais aceitveis socialmente.
   - Mas nem finja que se importa, Simon. Voc no gosta daquele cara. No sei exatamente qual  a sua, mas definitivamente no tem nada a ver com atrao.
   Pensei rapidamente em como todas tnhamos ficado surpresas quando Michael tirou a camisa.
   - Poderia ter - falei com um suspiro.
   - Por favor. - Gina me entregou um punhado de talheres. - Voc e o supernerd? No. Agora diga. O que est acontecendo entre voc e esse cara?
   Olhei para os talheres que estava enfiando na lava-louas.
   - No sei. - No poderia dizer a verdade, claro. -  s que... tenho a sensao de que h mais alguma coisa sobre o acidente do que ele est contando. Mame parece 
saber de alguma coisa. Voc notou?
   - Notei - disse Gina, no exatamente sria, mas tambm no exatamente contente.
   - Bem, ento... simplesmente no consigo deixar de pensar no que aconteceu de verdade. Na noite do acidente. Porque... bem, aquilo  tarde no era uma gua-viva, 
voc sabe.
   Gina apenas assentiu.
   - No achei que fosse. Acho que isso tudo tem alguma coisa a ver com o negcio de ser mediadora, no ?
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   - Mais ou menos - falei desconfortvel.
   - Certo. O que tambm pode explicar aquele pequeno incidente com o esmalte de unhas na outra noite?
   No pude dizer nada. S fiquei enfiando os talheres nos compartimentos de plstico na porta da lavadora. Garfos, colheres, facas.
   - Certo. - Gina fechou a torneira da pia e enxugou as mos num pano de prato. - O que quer que eu faa?
   Pisquei para ela.
   - Fazer? Voc? Nada.
   - Qual . Eu conheo voc, Simon. Voc no perdeu o horrio da escola 79 vezes no ano passado porque estava curtindo um caf da manh demorado no McDonald's. 
Sei perfeitamente bem que estava lutando contra os mortos-vivos, tornando este mundo um local mais seguro para as crianas e coisa e tal. Ento o que quer que eu 
faa? Que lhe d cobertura?
   Mordi o lbio.
   - Bem... - falei hesitando.
   - Olhe, no se preocupe comigo. Jake disse que vai me levar para fazer umas entregas. O que tem um certo apelo, se a gente suportar ficar abaixada e suja num
carro cheio de pizzas de pepperoni e abacaxi. Mas se voc quiser eu posso ficar aqui com o Brad. Ele me convidou para uma sesso de vdeo de seu filme predileto.
   Respirei fundo.
   - No  Hellraiser III...?
   - O prprio.
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   A gratido me varreu como uma daquelas ondas que me fizeram desmaiar.
   - Voc faria isso por mim?
   - Por voc, Simon, tudo. Ento, o que vai ser?
   - Certo. - Joguei longe o pano de prato que estava segurando. - Se voc ficar aqui e fingir que estou l em cima no quarto, com clica, vou vener-la para sempre. 
Eles no fazem perguntas sobre clicas. Diga que estou na banheira, e talvez, um pouco mais tarde, que fui para a cama cedo. Se algum ligar voc atende por mim?
   - Como quiser, rainha Midol.
   - Ah, Gina. - Segurei-a pelos ombros e lhe dei uma pequena sacudida. - Voc  o mximo. Sacou? O mximo. No se desperdice com meus meios-irmos: voc merece 
coisa muito melhor.
   - Voc simplesmente no v - disse Gina, balanando pensativamente a cabea. - Seus meios-irmos so uns gatos. Bom, a no ser aquele ruivinho. E olha... - Isso 
ela acrescentou enquanto eu ia ao telefone ligar para o padre Dominic. - ...eu espero uma compensao, voc sabe.
   Pisquei.
   - Voc sabe que minha mesada  s de vinte pratas por semana, mas pode ficar com ela...
   Gina fez uma careta.
   - No quero o seu dinheiro. Mas uma explicao completa seria legal. Voc nunca quis me contar. S fica desviando da questo. Mas desta vez voc me deve. - Ela 
estreitou os olhos. - Puxa, eu vou assistir a uma sesso de Hellraiser III
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por voc. Voc me deve de monto. E sim - acrescentou antes que eu pudesse abrir a boca - no vou contar a ningum. Prometo no ligar para a Enquirer nem para o 
Acredite se quiser.
   Falei com o pouco de dignidade que consegui juntar:
   - Eu nunca duvidaria disso.
   Em seguida peguei o telefone e liguei.
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Captulo 11
   
   - E o que, exatamente, devo procurar? - falei enquanto balanava a lanterna de um lado para o outro na trilha de areia.
   - No sei bem - respondeu o padre Dominic, alguns passos adiante. - Acho que saber quando descobrir. Eu espero.
   - Fantstico - murmurei.
   No era piada tentar descer uma encosta de montanha no escuro. Se soubesse que era isso que o padre Dom iria sugerir quando liguei, provavelmente teria adiado 
o telefonema. Provavelmente s teria ficado em casa e assistido ao Hellraiser III. Ou pelo menos tentaria terminar o dever de geometria. Puxa, eu j havia quase 
morrido naquela tarde. O teorema de Pitgoras nem parecia ameaador, em comparao.
   - No se preocupe - escutei a voz de um cara atrs de mim, temperada com uma diverso tolerante. - Aqui no tem sumagre venenoso.
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   Virei a cabea e lancei um olhar bem sarcstico para Jesse, mesmo duvidando que ele pudesse ver. A lua - se havia uma - estava escondida atrs de uma grossa parede
de nuvens. Fios de nvoa se esgueiravam pelo penhasco que estvamos descendo, juntando-se densos nas reentrncias da trilha, redemoinhando sempre que eu pisava nela, 
como se estivesse se encolhendo diante da possibilidade de me tocar. Tentei no pensar nos filmes que tinha visto, em que aconteciam coisas terrveis com pessoas 
naquele tipo de nvoa. Voc sabe de que tipo de filme estou falando.
   Ao mesmo tempo, tentava no pensar em todo o sumagre venenoso que poderia estar roando em mim. Jesse estava brincando, claro, mas de seu modo caracterstico 
tinha lido meu pensamento: eu tenho um problema srio com erupes que desfiguram a pele.
   E nem venha me falar de cobras, coisa que tenho todo motivo para acreditar que podem estar enroladas ao longo de todo esse caminho horroroso, s esperando para 
tirar um naco da parte macia da minha canela, logo acima dos sapatos Timberland.
   -  - ouvi o padre Dom falar. A nvoa tinha vindo e o engoliu inteiro. S dava para ver a tira amarela que sua lanterna fazia  minha frente. - , d para ver 
que a polcia j esteve aqui. Este deve ser o lugar onde a grade caiu. D para ver as marcas no mato quebrado.
   Continuei cambaleando s cegas, usando o facho da lanterna em primeiro lugar para procurar cobras, mas tambm para garantir que no cairia da trilha e mergulharia 
as
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vrias dezenas de metros nas ondas turbulentas embaixo. Jesse j havia estendido a mo umas duas vezes, gentilmente, para me afastar da beira do caminho quando eu 
me desviava espiando algum galho suspeito.
   Agora quase despenquei de vez, depois de dar uma trombada no padre Dom que tinha parado no meio da trilha e se agachado. Eu no o tinha visto, e ele e Jesse precisaram 
estender a mo e agarrar vrias peas do meu vesturio para me deixar em p outra vez. Foi um tanto embaraoso.
   - Desculpe - murmurei, sem graa pela falta de jeito. - Ah, o que o senhor est fazendo, padre D?
   O padre Dominic sorriu, com aquele seu jeito to paciente que irrita, e disse:
   - Examinando alguma evidncia do acidente. Voc mencionou que sua me parecia saber de alguma coisa a respeito, e eu tenho a impresso de que sei o que .
   Puxei o zper do meu casaco at em cima, para que meu pescoo no ficasse exposto ao ar frio do sereno. Podia ser primavera na Califrnia, mas no fazia mais 
de 4C l naquele penhasco. Felizmente eu tinha trazido luvas - principalmente por proteo, admito, de um possvel contato com sumagre venenoso -, mas elas estavam 
trabalhando dobrado, pois tambm impediam que meus dedos congelassem.
   - O que quer dizer? - Eu no tinha pensado em trazer tambm um gorro, ento minhas orelhas estavam como picols, e meu cabelo ficava balanando com o vento frio 
do mar e batendo nos meus olhos.
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   - Vejam isso. - O padre Dominic apontou sua lanterna para um trecho do solo, com cerca de dois metros de comprimento, onde a terra estava revirada e a grama amassada. 
- Acho que foi aqui que a grade veio parar. Mas voc est notando alguma coisa estranha?
   Tirei alguns fios de cabelo da boca e mantive o olhar atento para as cobras.
   - No.
   - Esse pedao particular parece ter cado inteiro. Um veculo teria de estar andando a uma velocidade considervel para romper uma cerca de metal to forte, mas 
o fato de toda a seo ter cedido sugere que os parafusos que a mantinham no lugar devem ter se soltado.
   - Ou foram afrouxados - sugeriu Jesse em voz baixa.
   Pisquei para ele. Estando morto, Jesse no sentia tanto desconforto quanto eu. O frio no o afetava, se bem que o vento estivesse sacudindo um bocado sua camisa, 
abrindo-a e me proporcionando vislumbres de seu peito que, provavelmente no preciso acrescentar, era to sarado quanto o de Michael, s que no to plido.
   - Afrouxados? - Pela segunda vez naquele dia meus dentes tinham comeado a bater. - O que provocaria uma coisa assim? Ferrugem?
   - Eu estava pensando em algo feito pelo homem - disse Jesse em voz baixa.
   Olhei do padre para o fantasma, e de volta. O padre Dominic estava to perplexo quanto eu. Jesse no fora exatamente convidado para essa pequena expedio, mas 
tinha
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aparecido enquanto eu descia pela entrada de veculos at onde o padre D tinha dito que ia me pegar. A reao do padre Dominic s notcias que eu havia dado - sobre 
o atentado contra a vida de Michael na praia e seus estranhos comentrios no carro mais tarde - havia sido rpida e imediata. Declarou que precisvamos achar os 
Anjos da RLS, e depressa.
   E o modo mais fcil de conseguir isso, claro, era visitar o local onde suas vidas haviam se perdido, um local que, como observou Jesse, um padre de sessenta anos 
e uma garota de dezesseis no deveriam visitar sozinhos  noite.
   No fao idia de contra o que Jesse achou que estaria nos protegendo ao vir junto: ursos? Mas ali estava ele, e aparentemente tinha uma idia muito melhor do 
que eu sobre o que estava acontecendo.
   - O que quer dizer com feito pelo homem? - perguntei. - Do que voc est falando?
   - S acho estranho toda uma seo dessa grade ceder desse jeito, enquanto o resto, como vimos quando inspecionamos h pouco, nem se amassou com o impacto.
   O padre Dominic piscou.
   - Voc est sugerindo que algum pode ter afrouxado os parafusos prevendo que um veculo ia bater ali.  isso, Jesse?
   Jesse confirmou com a cabea. Saquei onde ele queria chegar, mas s depois de cerca de um minuto.
   - Espera a - falei. - Voc est dizendo que acha que Michael afrouxou de propsito esse trecho da grade com o objetivo de jogar Josh e os outros do penhasco?
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   - Algum certamente fez isso. Pode muito bem ter sido o seu Michael.
   Fiquei indignada. No com a sugesto de que Michael pudesse ter feito algo to maligno, mas por Jesse t-lo chamado de meu Michael.
   - Espere um minuto a... - comecei. Mas o padre Dominic, de modo muito pouco caracterstico, me interrompeu.
   - Tenho de concordar com Suzannah, Jesse. Certamente parece que a grade no cumpriu sua funo. Na verdade, parece ter ocorrido uma falha sria no projeto. Mas 
sugerir que algum possa ter mexido nela de propsito...
   - Suzannah - disse Jesse. - Voc no falou que Michael parece no gostar das pessoas que morreram no acidente?
   - Bem, ele me disse mesmo que eram um desperdcio de espao. Mas honestamente, Jesse, para que o que voc est sugerindo funcionasse, Michael teria de saber que 
Josh e o pessoal estariam vindo. Como ele poderia saber disso? E teria de esperar por eles, e a, quando comeassem a fazer a curva, teria de pisar no acelerador 
de propsito...
   - Bem - disse Jesse dando de ombros. - Sim.
   - Impossvel. - O padre Dominic se empertigou espanando a terra dos joelhos da cala. - Recuso-me at a considerar tal possibilidade. Aquele garoto, um assassino 
a sangue-frio? Voc no sabe o que est dizendo, Jesse. Ora, ele tem as melhores notas da escola.  membro do Clube de Xadrez.
   Dei um tapinha no ombro do padre Dominic.
   - Odeio dar a notcia, padre D, mas os jogadores de xadrez podem matar pessoas, como todo mundo. - Ento olhei
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para a marca na terra, onde a grade de metal havia cado. - A verdadeira questo  por qu. Por que ele faria uma coisa dessas?
   - Acho que, se andarmos logo, talvez possamos descobrir - disse Jesse.
   Ele apontou. Olhamos. As nuvens no alto haviam se aberto o suficiente para permitir a viso de um pequeno trecho da praia na base do penhasco. O luar captou quatro 
formas fantasmagricas num crculo em volta de uma fogueirinha digna de pena.
   - Ah, meu Deus - falei enquanto as nuvens se fechavam de novo, obscurecendo rapidamente a viso. -  l embaixo? Eu tenho certeza de que vou ser picada.
   O padre Dominic j havia comeado a descer rapidamente o resto da trilha. Jesse, atrs de mim, perguntou curioso:
   - Picada pelo qu, Suzannah?
   - Por uma cobra, claro - falei, evitando uma raiz que parecia meio serpenteante  luz da lanterna.
   - As cobras no saem  noite - disse Jesse, e dava para notar, por sua voz, que ele estava contendo a vontade de dar uma gargalhada.
   Isso era novidade para mim.
   - No?
   - Geralmente no. E particularmente no em noites frias e midas como esta. Elas gostam do sol.
   Bem, isso era um alvio. Mesmo assim eu no conseguia deixar de pensar em carrapatos. Ser que os carrapatos saam  noite?
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   Aquilo pareceu durar uma eternidade - e eu tinha certeza de que ia acordar cheia de farpas nos tornozelos - mas acabamos chegando ao fim da trilha, ainda que 
os ltimos quinze metros, mais ou menos, fossem to ngremes que eu praticamente desci correndo, e no de propsito.
   Na praia o som das ondas era muito, muito mais alto - o bastante para cobrir totalmente o som de nossa chegada. O cheiro de sal estava pesado no ar. Percebi, 
quando nossos ps afundaram na areia molhada - bem, menos os de Jesse - por que no tinha visto nenhuma gaivota naquela tarde: os animais, inclusive os pssaros, 
no gostam de fantasmas.
   E havia um bocado de fantasmas naquela praia em particular.
   Estavam cantando. Sem brincadeira. Estavam cantando em volta da fogueirinha minguada. E voc no vai acreditar no que eles cantavam. "Ninety-nine Bottles of Beer 
on the Wall." A cada vez que voc canta, diminui uma garrafa. Eles estavam em 57.
   Vou lhe contar, se  assim que eu vou passar a eternidade quando morrer, espero que aparea algum mediador e me arranque do sofrimento. Srio mesmo.
   - Tudo bem - falei, tirando as luvas e enfiando nos bolsos. - Jesse, voc pega os caras, eu pego as garotas. Padre D, simplesmente garanta que nenhum deles corra 
para a gua, certo? Eu j nadei uma vez hoje, e acredite, essa gua est fria. No irei atrs deles.
   O padre Dominic segurou meu brao enquanto eu comeava a ir para o grupo iluminado pela fogueira.
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   - Suzannah! - exclamou ele, parecendo genuinamente chocado. - Certamente voc no... voc no est sugerindo mesmo que ns...
   - Padre D. - Olhei-o irritada. - Esta tarde aqueles idiotas ali tentaram me afogar. Perdo se acho que ir toda serelepe at eles e perguntar se gostariam de tomar 
um refrigerante conosco no  uma idia muito boa. Vamos arrebentar uns traseiros sobrenaturais.
   O padre Dominic apenas segurou meu brao com mais fora.
   - Suzannah, quantas vezes preciso lhe dizer? Ns somos mediadores. Nosso trabalho  interceder pelas almas perturbadas, e no provocar mais dor e sofrimento com 
atos de violncia contra elas.
   - Vou lhe dizer uma coisa - falei. -Jesse e eu seguramos o pessoal enquanto o senhor faz a intercesso. Porque, acredite,  o nico modo de eles ouvirem. Eles 
no so muito comunicativos.
   - Suzannah - disse o padre Dom de novo.
   Mas desta vez no terminou o que ia falar porque de repente Jesse interveio:
   - Fiquem aqui, vocs dois, at eu dizer que  seguro ir em frente.
   E comeou a atravessar a praia na direo dos fantasmas. Bem. Acho que ele ficou enjoado ouvindo ns dois discutirmos. , no se pode culp-lo.
   O padre Dominic olhou preocupado para Jesse.
   - Minha nossa. Voc no acha que ele vai fazer alguma coisa... drstica, acha, Suzannah?
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   Suspirei. Jesse nunca fazia nada drstico.
   - No. Provavelmente s vai tentar conversar com eles. Acho que  melhor assim. Quero dizer, ele  fantasma, eles so fantasmas... tm um monte de coisas em comum.
   - Ah - concordou o padre Dominic. - , entendo. Muito sensato. Muito sensato mesmo.
   Eles continuavam cantando, e estavam em 17 garrafas quando viram Jesse.
   Um dos garotos soltou um palavro bem cabeludo, mas antes que qualquer um deles tivesse tempo de se desmaterializar, Jesse estava falando - e numa voz to baixa 
que o padre D e eu no podamos ouvir alm do som das ondas. S podamos ficar olhando enquanto Jesse - luzindo um pouco, como costuma acontecer com os fantasmas 
- falava com eles e, lentamente, depois de um tempo, se abaixou na areia, ainda falando.
   Olhando aquilo, o padre Dominic murmurou:
   - Excelente idia, mandar Jesse primeiro.
   Dei de ombros.
   - Acho que sim.
   Acho que meu desapontamento por ter perdido o que provavelmente seria uma briga de primeira devia estar evidente, porque o padre Dominic parou de olhar o grupo 
em volta da fogueira e riu para mim.
   - Com uma ajudazinha do Jesse a gente acaba transformando voc numa mediadora - disse ele.
   Como se fizesse alguma idia de quantos fantasmas eu tinha mediado para fora da existncia antes de conhecer qualquer um dos dois, pensei. Mas no falei em voz 
alta.
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   - E como sua amiguinha Gina est se ocupando enquanto voc est fora hoje? - perguntou o padre Dominic.
   - Ah, ela est cobrindo minha sada.
   O padre Dominic levantou as sobrancelhas - e a voz - numa desaprovao surpreendida.
   - Cobrindo sua sada? Seus pais no sabem que voc est aqui?
   - Ah, sim, padre D - falei sarcstica. - Eu contei  minha me que vinha a Big Sur lidar com os fantasmas de alguns adolescentes mortos. Por favor!
   Ele ficou perturbado. Sendo padre, o cara no gosta de desonestidade, em particular quando envolve os pais, que a gente do tipo dele vive dizendo para honrarmos 
e obedecermos. Mas acho que, se Deus realmente quisesse que eu seguisse essa regra especfica, no teria me feito mediadora. As duas coisas no combinam, sabe?
   - Mas evidentemente voc no teve problema em contar a Gina - disse o padre Dominic.
   - No. Ela meio que... sabe. Quero dizer, uma vez ns duas fomos a uma vidente e... - parei. Ao falar de Madame Zara lembrei do que Gina tinha contado sobre a 
histria de um nico amor por toda a vida. Seria verdade? Poderia ser? Estremeci, mas desta vez no tinha nada a ver com o frio.
   - Entendo - disse o padre Dominic. - Interessante. Voc se sente confortvel contando aos amigos sobre sua capacidade extraordinria, mas no  sua me.
   Ns j havamos discutido isso - na verdade recentemente -, portanto apenas revirei os olhos.
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   - Amigos, no. Amiga. Gina sabe. Mais ningum. E ela no sabe tudo. No sabe, por exemplo, sobre Jesse.
   O padre Dominic olhou outra vez na direo da fogueira. Jesse parecia profundamente envolvido na conversa com Josh e os outros. Os rostos dos Anjos, alaranjados 
 luz da fogueira, estavam todos virados na direo de Jesse, os olhares grudados nele. Era estranho terem acendido aquele fogo. No podiam senti-lo, assim como 
no podiam ficar bbados com a cerveja que tinham tentado roubar, ou se afogar na gua sob a qual tinham estado. Imaginei por que teriam se dado ao trabalho. Provavelmente 
fora necessrio um bocado de fora cintica para acend-lo.
   Todos os quatro luziam com o mesmo brilho sutil liberado por Jesse - no o suficiente para iluminar alguma coisa numa noite escura como aquela, mas o bastante 
para dizer que no eram exatamente... bem, humanos seria a palavra errada, porque  claro que eram humanos. Ou pelo menos tinham sido.
   Acho que a palavra que estou procurando  vivos.
   - Padre D - falei abruptamente. - O senhor acredita em videntes? Quero dizer, eles so de verdade? Como os mediadores?
   - Tenho certeza de que alguns so.
   - Bem - continuei rapidamente antes de mudar de idia. - Uma vidente que Gina e eu fomos consultar uma vez sabia que eu era mediadora. Eu no contei nem nada. 
Ela simplesmente sabia. E falou uma coisa estranha. Pelo menos Gina disse que ela falou. Eu no lembro. Mas, segundo Gina, ela disse que eu s teria um amor verdadeiro.
15

   O padre Dominic me olhou. Seria minha imaginao ou ele achou aquilo engraado?
   - Voc estava planejando ter muitos?
   - Bem, no exatamente - falei meio sem graa. Voc tambm ficaria. Quero dizer, qual ! O cara era um padre. - Mas  meio estranho. Essa vidente, Madame Zara, 
disse que eu s teria um amor, mas que duraria tipo a vida inteira. - Engoli em seco. - Ou talvez tenha sido toda a eternidade. Esqueci.
   - Ah. - O padre Dominic no pareceu mais achar engraado. - Minha nossa.
   - Foi isso que eu disse. Puxa... bem, ela provavelmente no sabia do que estava falando. Porque parece meio besteira, no ? - perguntei esperanosa.
   Mas, para meu desapontamento, o padre D falou:
   - No, Suzannah. No parece besteira. Pelo menos para mim.
   Ele falou isso de um jeito... no sei. Alguma coisa no modo como ele falou me fez perguntar com curiosidade:
   - O senhor j se apaixonou, padre D?
   Ele comeou a remexer nos bolsos do palet.
   - H...
   Eu sabia o que ele estava procurando com tanta concentrao: um mao de cigarros. Tambm sabia que ele no iria encontrar - tinha deixado de fumar h anos e s 
guardava um mao para emergncias. E, por acaso eu sabia, estava em sua sala na escola.
   Tambm sabia, pelo fato de ele ter comeado a procur-lo, que o padre D estava estressado. Ele s sentia nsia de
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fumar quando as coisas no iam exatamente de acordo com os planos.
   Ele tinha tido uma paixo. Dava totalmente para ver, pelo modo como evitava meu olhar.
   No fiquei realmente surpresa. O padre Dominic era velho, padre e coisa e tal, mas ainda era um gato, de um jeito maduro, tipo Sean Connery.
   - Houve uma jovem, acho - disse ele por fim, quando sua busca terminou. - H muito tempo.
   Ah. Visualizei Audrey Hepburn, por algum motivo. Voc sabe, naquele filme que vive passando, em que ela fazia uma freira. Talvez o padre Dom e seu verdadeiro 
amor tenham se encontrado numa escola de padres e freiras! Talvez o amor deles fosse proibido, como no filme!
   - O senhor conheceu ela antes de... ... ser ordenado, ou sei l como chamam isso? - perguntei, tentando parecer casual. - Ou depois?
   - Antes, claro! - Ele pareceu chocado. - Pelo amor de Deus, Suzannah.
   - Eu s estava pensando. - Mantive o olhar em Jesse perto da fogueira, para que o padre D no ficasse to sem graa pensando que eu o estava encarando, ou sei 
l o qu. - Quero dizer, a gente no precisa falar nisso, se o senhor no quiser. - S que eu no conseguia evitar. - Ela era...
   - Eu tinha a sua idade - disse o padre Dominic, como se quisesse acabar com aquilo depressa. - Estava no segundo grau, como voc. Ela era um pouco mais nova.
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   Tive dificuldade para visualizar o padre Dominic no segundo grau. Eu nem sabia de que cor era seu cabelo antes de virar o branco atual.
   - Foi... - continuou o padre D, com uma expresso distante nos olhos azuis e luminosos. - Bem... nunca teria dado certo.
   - Eu sei - falei. Porque subitamente sabia. No sabia como sabia, mas alguma coisa no modo como ele disse que nunca teria dado certo me revelou, acho. - Ela era 
um fantasma, certo?
   O padre Dominic respirou com tanta fora que por um segundo achei que ele estava tendo um ataque cardaco, ou algo do tipo.
   Mas antes que eu tivesse chance de pular e comear uma manobra de ressuscitao, Jesse se levantou junto  fogueira e comeou a vir em nossa direo.
   - Ah, olha - disse o padre Dominic com um alvio bvio. - A vem o Jesse.
   Eu tinha superado a irritao que costumava sentir com Jesse quando ele aparecia de repente, em geral quando eu menos esperava - ou queria. Agora quase sempre 
ficava feliz em v-lo.
   Menos naquele momento especfico. Naquele momento especfico desejei que Jesse estivesse longe, bem longe. Porque tinha a sensao de que nunca conseguiria que 
o padre D se abrisse de novo sobre esse assunto.
   - Certo - disse Jesse, quando tinha chegado suficientemente perto para falar conosco. - Acho que agora vo
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ouvir o senhor, padre, sem tentar fugir. Eles esto bem amedrontados.
   - Eles no pareciam amedrontados quando tentaram me matar hoje  tarde - murmurei.
   Jesse me olhou com um ar de diverso nos olhos escuros - ainda que eu no saiba o que era to engraado em eu quase me afogar.
   - Acho que, se voc ouvir o que eles tm a dizer, vai entender por que se comportaram daquele jeito.
   - Veremos - respondi fungando.
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Captulo 1
   
   Acho que eu estava meio de mau humor porque Jesse tinha interrompido minha pequena conversa de corao aberto com o padre Dominic. Mas isso no era motivo para 
ele vir por trs de mim enquanto eu andava na direo do grupo e sussurrar no meu ouvido:
   - Comporte-se.
   Dei-lhe um olhar irritado.
   - Eu sempre me comporto.
   Sabe o que ele fez ento? Soltou uma risada! E no foi de um modo gentil. No pude acreditar.
   Quando cheguei suficientemente perto do grupo para enxergar a expresso no rosto deles, no vi nada me convencendo de que no eram os mesmos fantasmas que tinham 
tentado me matar - duas vezes - em dois dias.
   - Espere um minuto - disse Josh quando me reconheceu. Em seguida se levantou depressa e apontou para mim, de modo acusador: - Essa  a vaca que...
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   Jesse entrou rapidamente no crculo iluminado pela fogueira.
   - Calma - disse ele. - Eu disse a vocs quem eram essas pessoas...
   - Voc disse que eles iam nos ajudar - gemeu Felicia, ainda sentada, com a saia do vestido de noite toda bufante ao redor. - Mas aquela garota chutou meu rosto 
hoje de tarde!
   - Ah - falei -, como se vocs no tivessem tentado me afogar.
   O padre Dominic entrou rapidamente entre mim e os fantasmas, e disse:
   - Meus filhos, meus filhos, no se alarmem. Estamos aqui para ajud-los, se pudermos.
   Josh Saunders, estupefato, disse:
   - O senhor pode nos ver?
   - Posso - respondeu o padre Dominic, solene. - Suzannah e eu somos mediadores, como tenho certeza de que Jesse explicou. Podemos v-los e queremos ajud-los. 
Na verdade,  nossa responsabilidade ajud-los. S que, vocs devem entender, tambm  nossa responsabilidade garantir que no faam mal a ningum. Por isso Suzannah 
tentou impedi-los hoje e, pelo que sei, ontem.
   Isso fez com que Mark Pulsford dissesse um palavro. Felicia Bruce lhe deu uma cotovelada e falou:
   - Corta essa. O cara  padre.
   Mark falou cheio de beligerncia:
   - No  no.
   -  sim - insistiu Felicia. - No est vendo aquele negcio branco em volta do pescoo dele?
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   - Eu sou um sacerdote. - O padre Dominic se apressou em acabar com a discusso. - E estou dizendo a verdade. Podem me chamar de padre Dominic. E esta  Suzannah 
Simon. Bom, ns sabemos que vocs quatro esto ressentidos com o sr. Meducci...
   - Ressentidos? - Ainda de p, Josh olhou irritado para o padre Dominic. - Ressentidos?  por causa daquele idiota que ns estamos mortos.
   S que ele no disse idiota.
   O padre Dominic levantou as sobrancelhas, mas Jesse falou calmamente:
   - Por que voc no conta ao padre o que me contou, Josh, para que ele e Suzannah possam comear a entender?
   Com a gravata-borboleta pendendo frouxa no pescoo e os primeiros botes da camisa social abertos, Josh levantou a mo e passou os dedos, frustrado, pelo cabelo 
louro e curto. Sem dvida tinha sido um cara bem bonito. Abenoado com boa aparncia, inteligncia e riqueza (seus pais tinham de ter dinheiro, para coloc-lo na 
Escola Robert Louis Stevenson, que era to cara quanto elitizada), Josh Saunders estava com dificuldade para se ajustar ao nico infortnio que baixara sobre sua 
vida curta e feliz. A morte precoce.
   - Olha - disse ele. O som das ondas, e agora os estalos da fogueirinha que os quatro haviam feito, foram facilmente suplantados por sua voz profunda. Se tivesse 
vivido mais, Josh poderia ser qualquer coisa, pensei, desde atleta profissional at presidente. Transparecia esse tipo de confiana.
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   - Na noite de sbado ns fomos a um baile. A um baile, certo? E depois pensamos em dar uma volta de carro e parar...
   Carrie interveio numa voz cantarolada:
   - A gente sempre pra no Ponto nas noites de sbado.
   - O ponto de observao - explicou Felicia.
   -  to lindo! - disse Carrie.
   - Lindo mesmo - confirmou Felicia, com um olhar rpido para o padre Dominic.
   Encarei-os. Quem estavam tentando enganar? Todos ns sabamos o que eles faziam no ponto de observao.
   E no era olhar a paisagem.
   -  - disse Mark. - Alm disso nenhum policial aparece para mandar a gente ir embora. Sabe?
   Ah. Tamanha honestidade era revigorante.
   - Certo. - Josh tinha enfiado as mos nos bolsos da cala. Agora tirou-as e estendeu com as palmas viradas para ns. - Ento fomos passear de carro. Tudo ia bem, 
certo? Igual a todas as noites de sbado. S que no foi igual. Porque dessa ltima vez, quando viramos a curva, voc sabe, a curva fechada l em cima, alguma coisa 
acertou a gente.
   -  - confirmou Carrie. - Sem farol aceso, sem aviso, nada. S bum!
   - Batemos direto na grade de proteo - disse Josh. - No foi grande coisa. A gente no ia muito rpido. Pensei: merda, amassei o pra-choque. E comecei a dar 
marcha a r. Mas ento ele bateu na gente outra vez...
   - Ah, mas sem dvida... - comeou o padre Dominic.
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   Mas Josh continuou como se o padre no tivesse falado:
   - E na segunda vez em que bateu, a gente continuou indo.
   - Como se a grade nem existisse - completou Felicia.
   - Ns passamos direto. - Josh enfiou as mos de novo no bolso. - E acordamos aqui embaixo. Mortos.
   Depois disso houve silncio. Pelo menos ningum falou. Ainda havia o som das ondas, claro, e os estalos do fogo. A maresia, soprada pelo vento, estava cobrindo 
meu cabelo e formando pequenos cristais de gelo. Cheguei mais perto do fogo, agradecendo pelo calor...
   E percebi rapidamente por que os Anjos da RLS tinham se dado ao trabalho de acend-lo. Porque  o que teriam feito se ainda estivessem vivos. Tinham acendido 
o fogo para se esquentar. E da, se no sentiam mais o calor que ele produzia? No importava.  o que as pessoas vivas fariam.
   E tudo que eles queriam era estar vivos de novo.
   - Perturbador - disse o padre Dominic. - Muito perturbador. Mas sem dvida, meus filhos, vocs podem ver que foi apenas um acidente...
   - Acidente? - Josh olhou furioso para o padre D. - No houve nada acidental naquilo, padre. Aquele cara, aquele tal de Michael, veio para cima de ns de propsito.
   - Mas isso  ridculo - disse o padre Dominic. - Perfeitamente ridculo. Por que, meu Deus, ele faria isso?
   - Simples - respondeu Josh dando de ombros. - Ele sente inveja.
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   - Inveja? - O padre Dominic ficou pasmo. - Talvez voc no saiba, meu jovem, mas Michael Meducci, que eu conheo desde a primeira srie,  um estudante muito 
talentoso. Muito querido pelos colegas. Por que, em nome do cu, ele... No, no, sinto muito. Voc est enganado, meu filho.
   Eu no sabia direito em que universo o padre Dom vivia - aquele em que os colegas de turma gostavam de Michael Meducci - mas sem dvida no era este. Pelo que 
eu sabia, ningum na Academia da Misso gostava de Michael Meducci - ou ao menos o conhecia, fora do Clube de Xadrez. Mas afinal de contas eu s estava ali h alguns 
meses, ento poderia estar errada.
   - Ele pode ser talentoso - disse Josh - mas mesmo assim  um nerd.
   O padre Dominic piscou para ele.
   - Nerd?
   - O senhor ouviu. - Josh balanou a cabea. - Olha, padre, encare os fatos. O seu garoto, Meducci, no  nada. Nada. Ns... - ele apontou para si mesmo, depois 
para os amigos - por outro lado, ramos tudo. As pessoas mais populares de nossa escola. Nada acontecia na RLS sem o nosso selo de aprovao. Uma festa no era festa 
at ns chegarmos. Um baile no era um baile enquanto Josh, Carrie, Mark e Felicia, os "Anjos" da RLS, no estivessem l. Certo? Est captando a idia?
   O padre Dominic parecia confuso.
   - H... no exatamente.
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   Josh revirou os olhos.
   - Esse cara existe de verdade? - perguntou a mim e a Jesse.
   Jesse falou sem sorrir:
   - E como.
   - Certo - disse Josh. - Ento deixe-me colocar do seguinte modo. Esse tal de Meducci pode ter notas acima da mdia. E da? Isso no  nada. Minha mdia  nove. 
Tenho o recorde de salto de altura da escola. Perteno  Sociedade Nacional de Honra. Sou piv do time de basquete. Fui presidente do conselho estudantil durante 
trs anos seguidos e, para completar, nesta primavera fiz um teste e ganhei o papel principal na produo de Romeu e Julieta da sociedade teatral da escola. Ah, 
e sabe de uma coisa? Fui aceito em Harvard. Deciso antecipada.
   Josh parou para respirar. O padre Dominic abriu a boca para dizer alguma coisa, mas o garoto continuou disparando:
   - Quantas noites de sbado o senhor acha que Michael Meducci passou sentado sozinho no quarto jogando video-game? Hein? Bem, deixe-me dizer de outro modo: o senhor 
sabe quantas eu passei acariciando um joystick? Nenhuma. Quer saber por qu? Porque nunca houve uma noite de sbado em que eu no tivesse alguma coisa para fazer, 
uma festa para ir ou uma garota com quem sair. E no era qualquer garota, e sim as mais gatas, as mais populares da escola. A Carrie, aqui - ele sinalizou para Carrie 
Whitman, sentada na areia com seu vestido azul-gelo - trabalha como
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modelo nas horas vagas em So Francisco. J fez comerciais. Foi rainha do baile das boas-vindas.
   - Dois anos seguidos - observou Carrie em sua voz esganiada.
   Josh assentiu.
   - Dois anos seguidos. Est comeando a entender, padre? Michael Meducci namora uma modelo? Acho que no. O melhor amigo de Michael Meducci  como o meu, o Mark 
ali, capito do time de futebol? Michael Meducci tem bolsa atltica integral para a UCLA?
   Mark, obviamente no sendo o gnio do grupo, disse com sentimento:
   - D-lhe, Ursos!
   - E eu? - perguntou Felicia.
   -  - disse Josh. - E a namorada de Mark, Felicia? Chefe de torcida, capit da equipe de dana e, ah, sim, ganhadora de uma Bolsa de Mrito Nacional por causa 
das notas altas. De modo que, tendo tudo isso em mente, vamos fazer a pergunta de novo, certo? Por que um cara como Michael Meducci ia querer que pessoas como ns 
estivessem mortas? Simples: ele tem inveja.
   O silncio que tomou conta depois dessa declarao foi quase to penetrante quanto o cheiro de maresia no vento. Ningum disse uma palavra. Os Anjos pareciam 
orgulhosos demais para falar, e o padre Dom parecia atordoado pelas revelaes. Os sentimentos de Jesse com relao ao assunto no eram claros; ele parecia meio 
entediado. Acho que, para um cara nascido h mais de cento e cinqenta
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anos, as palavras Bolsa de Mrito Nacional no significavam grande coisa.
   Arranquei a lngua de onde estava grudada, no cu da boca. Estava com muita sede por causa da descida, e certamente nem um pouco ansiosa para subir de novo at 
o carro do padre Dom. Mas me senti compelida, apesar do desconforto, a falar:
   - Ou poderia ser por causa da irm dele.
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Captulo 13
   
   Todo mundo - desde o padre Dom at Carrie Whitman - olhou para mim  luz da fogueira.
   - Perdo? - disse Josh. S que seu tom de voz era mais impaciente do que educado.
   - A irm de Michael - falei. - A que est em coma.
   No me pergunte o que me fez pensar nisso. Talvez fosse a referncia de Josh a festas - que nenhuma festa comeava at ele e os outros Anjos chegarem. Isso me 
fez pensar na ltima festa de que ouvi falar - aquela em que a irm de Michael tinha cado na piscina e quase se afogado. Deve ter sido uma tremenda festa. Ser 
que a polcia acabou com ela depois da chegada da ambulncia?
   As sobrancelhas brancas e espetadas do padre Dominic se ergueram.
   - Est falando de Lila Meducci? Sim, claro. Como eu poderia ter me esquecido? Foi trgico, muito trgico, o que aconteceu com ela.
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   Jesse falou pela primeira vez em alguns minutos.
   - O que aconteceu com ela? - perguntou, levantando o queixo do joelho onde estivera se apoiando, com o p junto  pedra onde havia se sentado.
   - Um acidente - disse o padre Dom, balanando a cabea. - Um acidente terrvel. Ela tropeou e caiu numa piscina e quase se afogou. Os pais esto perdendo a esperana 
de que a menina recupere a conscincia.
   Grunhi:
   - Esta  uma verso da histria, pelo menos.
   Os pais de Michael obviamente a haviam limpado ao contar ao diretor da escola da filha. Continuei:
   - O senhor deixou de fora a parte em que ela estava numa festa no Vale quando isso aconteceu. E que estava completamente bbada quando caiu na gua. - Estreitei 
os olhos para os quatro fantasmas sentados do lado oposto da fogueira. - Assim como todo mundo, naquela festa, j que ningum notou o que tinha acontecido com ela 
at a garota ficar l embaixo por tempo suficiente para coagular o crebro. - Olhei para Jesse. - Eu mencionei o fato de que ela tem apenas quatorze anos?
   Ainda sentado na pedra, com as mos em volta do joelho dobrado, Jesse olhou para os Anjos.
   - Imagino que nenhum de vocs saiba algo sobre isso.
   Mark pareceu enojado.
   - Como  que algum de ns ia saber sobre a irm de um nerd enchendo a cara numa festa?
   - Talvez porque por acaso um de vocs, ou todos, estivesse na festa, no ? - sugeri em voz doce.
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   O padre Dominic ficou espantado.
   -  verdade? - Ele olhou para os Anjos. - Algum de vocs sabe qualquer coisa sobre isso?
   - Claro que no - disse Josh. Rpido demais, achei. O "Fala srio!" de Felicia tambm no foi convincente.
   Mas foi Carrie quem entregou.
   - Mesmo que a gente soubesse - perguntou com indignao sincera -, o que importaria? S porque uma idiota pretensiosa encheu a cara numa das nossas festas at 
ficar em coma, isso nos torna responsveis?
   Encarei-a. Lembrei-me de que Felicia era a Bolsista do Mrito Nacional. Carrie Whitman tinha sido apenas a rainha do baile das boas-vindas. Duas vezes.
   - Que tal, s para comear - falei -, por disponibilizar lcool para uma menina da oitava srie?
   - Como  que a gente ia saber a idade dela? - perguntou Felicia, de modo pouco agradvel. - Quero dizer, a garota tinha tanta maquiagem na cara que dava para 
jurar que ela tinha quarenta anos.
   -  - disse Carrie. - E aquela festa especfica era s a convite. Eu nunca dei um convite para ningum da oitava srie.
   - Se quiserem responsabilizar algum - disse Felicia -, que tal o idiota que a levou?
   -  - insistiu Carrie, furiosa.
   - No acho que Suzannah esteja responsabilizando vocs pelo que aconteceu  irm de Michael. - A voz de Jesse, depois do esganiado das garotas, parecia um trovo 
distante. Ela silenciou os outros com eficincia. - Michael, acho,  que matou vocs por isso.
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   O padre Dominic fez um rudo baixinho como se as palavras de Jesse tivessem penetrado, como um punho, em seu estmago.
   - Ah, no - disse ele. - No, sem dvida voc no pode achar...
   - Faz mais sentido do que o argumento desse a - disse Jesse assentindo brevemente para Josh -, de que Michael fez isso por cime porque no consegue... o qu? 
Ah, sim. Encontros nas noites de sbado.
   Josh ficou desconfortvel.
   - Bem - disse ele repuxando as lapelas do palet. - Eu no sabia que o gamb que eles pescaram na piscina de Carrie era a irm de Meducci.
   - Isso  demais - disse o padre Dominic. - Simplesmente demais. Eu estou... estou pasmo!
   Olhei-o, surpreso com o que ouvi na sua voz. Era - se eu no estava enganada - dor. O padre Dominic estava sofrendo pelo que tinha ouvido.
   - Uma menina est em coma - disse ele com o olhar azul muito brilhante cravando-se em Josh - e voc a xinga?
   Josh teve a gentileza de parecer envergonhado.
   - Bem,  s uma figura de linguagem.
   - E vocs duas. - O padre apontou para Felicia e Carrie. - Violam a lei servindo lcool a menores e ousam sugerir que  culpa da prpria menina se acabou sendo 
prejudicada?
   - Mas ningum mais se machucou - disse Felicia. - E todo mundo tambm estava bebendo.
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   -  - concordou Carrie. - Todo mundo estava bebendo.
   - No importa. - Agora a voz do padre Dominic estava trmula de emoo. - Se todo mundo pulasse da ponte Golden Gate isso faria a coisa parecer certa?
   Uau, pensei. O padre D obviamente precisava de um novo curso de disciplina escolar, se achava que esse exemplo ainda tinha algum efeito.
   E ento meus olhos se arregalaram quando vi que agora ele estava apontando para mim. Eu? O que eu tinha feito?
   Logo descobri.
   - E voc - disse o padre Dom. - Voc ainda insiste que o que aconteceu com esses jovens no foi acidente, e sim assassinato deliberado!
   Meu queixo caiu.
   - Padre D - consegui dizer quando o recoloquei no lugar. - Com licena, mas  bastante bvio...
   - No . - O padre Dominic baixou o brao. - Para mim no  bvio. Ento o garoto tinha motivao. Isso no o torna assassino.
   Olhei para Jesse procurando ajuda, mas por sua expresso espantada ficou claro que ele estava to pasmo quanto eu pela exploso do padre.
   - Mas a grade de proteo... - tentei. - Os parafusos frouxos...
   - Sim, sim - disse o padre Dominic, de um modo bastante teimoso para ele. - Mas voc est deixando de lado o ponto mais importante, Suzannah. Suponha que Michael 
tenha esperado por eles. Talvez pretendesse atingi-los quando
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fez a curva. Mas como saberia, no escuro, que era o carro certo? Diga, Suzannah. Qualquer um poderia estar fazendo a curva. Como Michael saberia que era o carro 
certo? Como?
   Nisso ele me pegou. E sabia. Fiquei ali, com o vento do mar chicoteando o cabelo no rosto, e olhei para Jesse. Ele me olhou de volta e deu de ombros, to sem 
resposta quanto eu. O padre Dom estava certo. No fazia sentido.
   Pelo menos at que Josh disse:
   - A Macarena.
   Todos olhamos para ele.
   - Perdo? - disse o padre Dominic. Mesmo com raiva, ele era absolutamente educado.
   - Claro! - Felicia ficou de p, tropeando na bainha do vestido longo. - Claro!
   Jesse e eu trocamos outro olhar confuso.
   - A o qu? - perguntei a Josh.
   - A Macarena. - Josh estava sorrindo. Sorrindo ele no parecia nem um pouco o cara que tinha tentado me afogar  tarde. Sorrindo parecia o que era: um rapaz de 
dezoito anos, inteligente e atltico, no auge da vida.
   S que sua vida tinha acabado.
   - Eu estava dirigindo o carro do meu irmo - explicou, ainda rindo. - Ele est na faculdade. Disse que eu podia us-lo enquanto ele estivesse fora.  maior do 
que o meu carro. S que o cara botou uma buzina idiota, que toca a Macarena.
   - Tremendo mico - informou Carrie.
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   - E na noite em que ns fomos mortos - continuou Josh -, eu buzinei quando estvamos fazendo a curva, e Michael estava esperando atrs dela.
   - A gente tem de buzinar quando faz aquelas curvas fechadas - disse Felicia, cheia de empolgao.
   - E a buzina tocou a Macarena. - O sorriso de Josh desapareceu como se fosse apagado pelo vento. - E foi a que ele acertou na gente.
   - Nenhuma outra buzina de carro na pennsula toca a Macarena - disse Felicia, agora sem empolgao. - A Macarena s ficou na moda umas duas semanas. Depois ficou 
totalmente brega. Agora s tocam em casamentos e coisas do tipo.
   - Foi assim que ele soube. - A voz de Josh no estava mais cheia de indignao. Agora parecia meramente triste. Seu olhar estava fixo no mar, um mar escuro demais 
para se distinguir do cu nublado. - Foi assim que ele soube que ramos ns.
   Freneticamente pensei no que Michael tinha me contado, h algumas horas, na perua de sua me. Eles vieram com tudo naquela curva. Nem buzinaram. Nada.
   S que Josh estava dizendo que buzinaram. Que no somente buzinaram, mas que buzinaram de um modo especfico, um modo que distinguia a buzina do carro de Josh...
   - Ah - disse o padre Dominic, parecendo no se sentir bem. - Minha nossa.
   Concordei totalmente com ele. S que...
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   - Isso ainda no prova nada - falei.
   - Est brincando? - Josh me olhou como se eu  que fosse maluca, como se ele no estivesse usando smoking na praia. - Claro que prova.
   - No, ela est certa. - Jesse saiu da pedra e parou perto de Josh. - Michael foi muito inteligente. No h como provar, pelo menos num tribunal, que ele tenha 
cometido um crime aqui.
   O queixo de Josh caiu.
   - O que voc quer dizer? Ele matou a gente! Eu estou aqui, dizendo! Ns buzinamos e ele bateu na gente de propsito e nos empurrou para o penhasco.
   -  - disse Jesse. - Mas o seu testemunho no vai se sustentar num tribunal, meu amigo.
   Josh estava  beira das lgrimas.
   - Por qu?
   - Porque  o testemunho de um morto - disse Jesse em tom tranqilo.
   Ferido, Josh apontou o dedo na minha direo.
   - Ela no est morta. Ela pode contar.
   - No pode - respondeu Jesse. - O que ela vai dizer? Que sabe a verdade sobre o que aconteceu naquela noite porque os fantasmas das vtimas contaram? Acha que 
um jri vai acreditar nisso?
   Josh o encarou furioso. Em seguida, com o olhar baixando at os ps, murmurou:
   - Ento est timo. Voltamos ao ponto de partida. Vamos resolver a coisa por nossas prprias mos, certo, pessoal?
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   - Ah, no vo - falei. - De jeito nenhum. Dois erros no fazem um acerto. E trs muito menos.
   Carrie olhou de Josh para mim e em seguida para ele outra vez.
   - Do que ela est falando?
   - Vocs no vo vingar sua morte matando Michael Meducci. Sinto muito. Mas isso simplesmente no vai acontecer.
   Pela primeira vez em toda a noite, Mark se levantou. Olhou para mim, depois para Jesse e em seguida para o padre Dom. Depois disse:
   - Isso  besteira, cara - e comeou a ir para a praia.
   - Ento o nerd vai ficar livre? - Josh me olhou ameaadoramente, com o maxilar trincado. - Ela mata quatro pessoas e fica livre?
   - Ningum disse isso. - Jesse,  luz da fogueira, parecia mais srio do que eu jamais tinha visto. - Mas o que acontece com o garoto no  da conta de vocs.
   - Ah, ? - Josh voltou ao risinho de desprezo. - Ento  da conta de quem?
   Jesse assentiu para o padre Dominic e para mim.
   - Deles - falou em voz baixa.
   - Deles? - A voz de Felicia se elevou num tom de nojo. - Por que elesl
   - Porque eles so os mediadores. - Ao brilho laranja da fogueira, os olhos de Jesse pareciam pretos. -  isso que eles fazem.
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Captulo 14
   
   O nico problema  que os mediadores no sabiam exatamente como cuidar da situao.
   - Olhe - sussurrei enquanto o padre Dominic largava uma vela branca na caixa que eu estava segurando e pegava uma roxa. - Deixe-me dar um telefonema annimo para 
a polcia. Vou dizer que estava de carro em Big Sur naquela noite e vi tudo, e que no foi acidente.
   O padre Dominic atarraxou a vela onde a branca estivera.
   - E voc acha que a polcia acredita em todo telefonema annimo que recebe? - Ele no se incomodou em sussurrar, porque no havia ningum para ouvir. O nico 
motivo para eu ter baixado a voz era que a baslica, com todas as suas folhas de ouro e o vitral majestoso, me deixava nervosa.
   - Bom, pelo menos eles vo suspeitar. - Segui o padre Dominic, que desceu da escada de mo, dobrou-a e foi at
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a prxima Estao da Cruz. - Quero dizer, talvez eles comecem a investigar um pouco mais, chamem Michael para ser interrogado, ou algo assim. Juro que ele vai se 
dobrar, se fizerem as perguntas certas.
   O padre Dominic levantou a bainha da batina preta enquanto subia de novo na escada.
   - E quais seriam as perguntas certas? - perguntou, trocando outra vela branca por uma das roxas da caixa que eu estava segurando.
   - No sei. - Meus braos estavam ficando cansados. A caixa era bem pesada. Normalmente as novias  que trocariam as velas. Mas o padre Dominic no pde ficar 
parado desde nossa pequena excurso na vspera e ofereceu seus servios ao monsenhor. Nossos servios, devo dizer, j que me arrastou da aula de religio para ajudar. 
No que eu me importasse. Sendo agnstica devota, no estava captando grande coisa da aula de religio - algo que a irm Ernestine esperava consertar antes de minha 
formatura.
   - Acho que a polcia pode se sair muito bem sem nossa ajuda - disse o padre Dom enquanto torcia a vela de modo decidido, j que ela no parecia se encaixar direito 
no castial. - Se o que sua me disse  verdade, a polcia j suspeita de Michael, de modo que no dever demorar muito at cham-lo para interrogatrio.
   - Mas e se mame estivesse apenas reagindo exageradamente? - Notei uma turista ali perto, usando um leno de madras e um Izod, admirando os vitrais, e baixei 
mais ainda
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a voz. - Puxa, ela  me. As mes fazem isso. E se a polcia no estiver suspeitando de nada?
   - Suzannah. - Com a vela no lugar, o padre Dominic desceu a escada e me olhou com uma expresso que parecia uma mistura de exasperao e afeto. Notei que havia 
sombras roxas sob os olhos dele. Ambos ficamos bem exaustos depois da longa caminhada at a praia e a subida de volta, para no mencionar o desgaste emocional que 
tnhamos experimentado l embaixo.
   Mesmo assim o padre Dominic parecia ter acordado com mais vigor do que seria de esperar para um cara de sessenta e poucos anos. Eu mal conseguia andar, de tanto 
que as canelas doam, e no conseguia parar de bocejar, j que nosso pequeno tte--tte com os Anjos tinha durado at bem depois da meia-noite. A no ser pelas 
olheiras, o padre Dom estava quase saltando, borbulhando de energia.
   - Suzannah - disse ele de novo, desta vez menos exasperado e mais afetuoso. - Prometa que no vai fazer nada parecido. No vai dar nenhum telefonema annimo para 
a polcia.
   Ajeitei a caixa de velas nos braos. Certamente havia parecido uma boa idia quando pensei nela por volta das quatro da madrugada. Tinha ficado acordada quase 
a noite inteira imaginando que diabo iramos fazer quanto aos Anjos da RLS e Michael Meducci.
   - Mas...
   - E sob nenhuma circunstncia - o padre Dominic, aparentemente notando meu problema com a caixa, levantou-a
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facilmente dos meus braos e a colocou no ltimo degrau da escada - voc vai tentar falar com Michael sobre nada disso.
   Esse, claro, era o plano B. Se o negcio da denncia annima  polcia no desse certo, eu tinha planejado encurralar Michael e jogar uma conversa macia - ou 
cair de pau, o que quer que parecesse mais eficaz - para arrancar uma confisso.
   - Voc vai deixar que eu cuide disso - falou o padre Dominic suficientemente alto para que a turista usando o leno de madras, que estava para tirar uma foto 
do altar, baixasse rapidamente a mquina e se afastasse. - Eu pretendo falar com o rapaz, e posso garantir que, se ele for mesmo culpado desse crime hediondo... 
- eu respirei para falar, mas o padre Dominic levantou um dedo em alerta. - Voc me ouviu - disse ele em voz um pouco mais baixa, mas s porque tinha notado que 
uma das novias havia entrado na igreja trazendo mais tecidos pretos para cobrir as muitas esttuas da Virgem Maria na baslica. Elas ficariam cobertas at a Pscoa, 
pelo que percebi. Religio. Isso  que  coisa esquisita, vou lhe contar.
   - Se Michael for culpado do que esses jovens dizem, vou convenc-lo a confessar. - O padre Dominic parecia estar falando srio. Tanto que eu nem tinha feito nada, 
mas no sei por qu, olhando sua expresso sria, senti vontade de confessar. Uma vez peguei cinco dlares da carteira de mame para comprar um pacote gigante de 
Skittles. Talvez devesse confessar isso.
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   - Bom - disse o padre puxando a manga da batina preta e olhando seu Timex. Os padres no ganham o suficiente para comprar relgios maneiros. - Estou esperando 
o sr. Meducci a qualquer momento, portanto voc precisa sair. Acho que ser melhor que ele no nos veja juntos.
   - Por qu? Ele no faz idia de que ns passamos a maior parte da noite de ontem conversando com suas vtimas.
   O padre Dominic ps a mo no centro das minhas costas e empurrou.
   - V embora, Suzannah - disse numa voz meio paternal.
   Fui, mas no muito longe. Assim que o padre D virou as costas, enfiei-me num banco da igreja e fiquei abaixada, esperando. No sabia bem o qu. Bom, certo, sabia: 
estava esperando Michael. Queria ver se o padre D realmente seria capaz de faz-lo confessar.
   No precisei esperar muito. Uns cinco minutos depois escutei a voz de Michael dizer, no muito longe de onde eu estava escondida:
   - Padre Dominic? A irm Ernestine disse que o senhor queria falar comigo.
   - Ah, Michael. - A voz do padre Dominic no revelava nada do horror que eu sabia que ele estava sentindo com a perspectiva de um dos seus estudantes ser um possvel 
assassino. Parecia relaxado e at mesmo jovial.
   Ouvi a caixa de velas chacoalhar.
   - Aqui - disse o padre. - Segure isso, por favor.
   Percebi que ele tinha acabado de entregar a Michael a caixa que eu estivera segurando.
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   - H... Claro, padre Dominic - disse Michael.
   Escutei o barulho da escada sendo dobrada outra vez. O padre Dom estava pegando-a e indo para a prxima Estao da Cruz. Mas eu ainda podia ouvi-lo... fracamente.
   - Andei preocupado com voc, Michael. Soube que sua irm no est dando muitos sinais de melhora.
   - No, padre. - A voz de Michael saiu to baixa que eu mal podia ouvir.
   - Sinto muito. Lila  uma menina muito doce. Sei que voc deve am-la demais.
   - Sim, padre.
   - Sabe, Michael, quando coisas ruins acontecem com pessoas que amamos... bem, algumas vezes ns viramos as costas para Deus.
   Argh, nossa, pensei no meu banco. No devia ir por a. No com Michael.
   - Algumas vezes ficamos to ressentidos com essa coisa terrvel que aconteceu a algum que no merece, que no somente viramos as costas para Deus, mas at podemos 
comear a pensar em... bom, em coisas que normalmente no pensaramos se a tragdia no tivesse acontecido. Como, por exemplo, em vingana.
   Certo, pensei. Est ficando melhor, padre D.
   - Srta. Simon.
   Espantada, olhei em volta. A novia que tinha vindo cobrir as esttuas estava me olhando do fim do banco.
   - Ah. - Tirei os joelhos do genuflexrio e me sentei. Vi que o padre Dominic e Michael estavam de costas para mim. Longe demais para nos ouvir.
18

   - Oi - falei  novia. - Eu s estava... ... procurando um brinco.
   A novia pareceu no acreditar.
   - Voc no tem aula de religio com a irm Ernestine agora?
   - Sim, irm. Tenho.
   - Bem, ento no era melhor estar na sala?
   Lentamente fiquei de p. No teria importado, mesmo que eu no fosse apanhada. Padre Dominic e Michael tinham se afastado demais para eu ouvir alguma coisa.
   Andei at o fim do banco, com o pouco de dignidade que consegui juntar, e parei ao chegar  novia, antes de ir em frente.
   - Desculpe, irm. - Ento, lutando para romper o silncio incmodo durante o qual a novia me encarou numa desaprovao muda, acrescentei: - Gostei da sua... 
...
   Mas como no conseguia me lembrar de como chamam aquela roupa que elas usam, o elogio ficou meio fraco, mesmo que eu tenha quase salvado no fim, sinalizando para 
ela e dizendo:
   - A senhora sabe, a sua coisa. Cai muito bem no seu corpo.
   Mas acho que  a coisa errada para dizer a algum que est estudando para ser freira, j que a novia ficou com o rosto muito vermelho e disse:
   - No me obrigue a fazer uma advertncia, srta. Simon.
   O que achei meio grosseiro, considerando que estivera tentando ser gentil. Mas deixa para l. Sa da igreja e voltei
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 sala de aula. Peguei o caminho mais longo, pelo ptio ensolarado, para aplacar os nervos em frangalhos ouvindo o som da fonte borbulhante.
   Mas logo meus nervos se esfrangalharam outra vez quando vi mais uma novia parada perto da esttua do padre Serra, fazendo uma pequena palestra para um grupo 
de turistas sobre as boas obras do missionrio. Para no ser vista fora da sala de aula sem um passe (por que no pensei em pedir um ao padre D? Com o negcio das 
velas acabei esquecendo) enfiei-me no banheiro feminino, onde fui recebida por uma nuvem de fumaa cinza.
   O que s podia significar uma coisa, claro.
   - Gina - falei curvando-me e olhando por baixo das portas para deduzir em que cabine ela estava. - Pirou de vez?
   A voz de Gina veio flutuando de uma das cabines no final, perto da janela, que minha amiga havia aberto estrategicamente.
   - Acho que no - respondeu Gina abrindo a porta da cabine e se apoiando nela enquanto soltava uma baforada.
   - Pensei que voc tivesse parado de fumar.
   - Parei. - Gina se juntou a mim perto da janela, em cujo parapeito eu havia me sentado. Tendo sido construda por volta de 1600, ou sei l quando, a Misso era 
feita de um adobe grosso de verdade, de modo que todas as janelas ficavam recuadas uns sessenta centmetros na pedra. Com isso os parapeitos funcionavam como bancos 
que, apesar de meio altos, eram pelo menos frescos e confortveis.
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   - Atualmente s fumo em emergncias - explicou Gina. - Tipo em aulas de religio. Voc sabe que eu me oponho filosoficamente s religies organizadas. E voc?
   Levantei as sobrancelhas.
   - No sei. O budismo sempre me pareceu maneiro. O lance da reencarnao  bem atraente.
   - Isso  o hindusmo, sua boal. E eu estava falando sobre fumar.
   - Ah. Certo. No. Nunca peguei o jeito. Por qu? - Ri para ela. - Soneca no contou a voc sobre quando me pegou tentando fumar?
   Ela franziu a testa de um jeito bonitinho.
   - No. E eu gostaria que voc no o chamasse assim.
   Fiz uma careta.
   - Jake, ento. Ele ficou bem irritado.  melhor no ser apanhada fumando, se no ele larga voc que nem uma batata quente.
   - Duvido muito - disse Gina com um sorriso misterioso.
   Estava provavelmente certa. Imaginei como seria ser como Gina e ver cada garoto que conhece se apaixonando loucamente por voc. Os nicos garotos que se apaixonavam 
loucamente por mim eram como Michael Meducci. E ele nem estava tecnicamente apaixonado por mim. Estava apaixonado pela idia de eu estar apaixonada por ele. Algo 
em que, a propsito, eu ainda no conseguia pensar sem estremecer.
   Soltei um suspiro arrasado e olhei pela janela. Cerca de um quilmetro e meio de paisagem inclinada, repleta de
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ciprestes, estendia-se at o mar muito azul que brilhava ao sol da tarde.
   - No sei como voc agenta. - Gina exalou uma nuvem de fumaa cinza. Tinha voltado a falar da aula de religio, dava para ver pelo tom de voz. - Puxa, isso tudo 
deve parecer realmente uma besteira para voc, considerando o negcio de ser mediadora.
   Dei de ombros. Eu tinha chegado tarde demais na noite anterior para ter a "conversa" com Gina. Ela estava dormindo profundamente quando me esgueirei de volta 
em casa. O que foi timo, porque eu me sentia exausta.
   Mas no o suficiente para cair no sono.
   - No sei. Bom, no tenho a mnima idia de para onde os fantasmas vo depois que eu mando os ditos-cujos se catarem. Eles simplesmente... vo. Talvez para o 
cu. Talvez para a prxima vida. Duvido que v descobrir antes de morrer tambm.
   Gina apontou a prxima nuvem de fumaa para a janela.
   - Voc faz parecer que  uma viagem. Tipo: quando a gente morre, s est mudando para outro endereo.
   - Bem. - Pessoalmente acho que  assim que a coisa funciona. S no pea para eu dizer qual  o endereo. Porque no sei.
   - E ento. - Tendo acabado o cigarro, Gina o apagou no adobe embaixo de ns, depois jogou a guimba habilmente por cima da porta da cabine mais prxima, dentro 
do vaso. Ouvi o "plop" e depois o chiado. - O que aconteceu ontem  noite?
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   Contei. Sobre os Anjos da RLS e como eles achavam que Michael os tinha matado. Contei sobre a irm de Michael e o acidente na Estrada Pacific Coast. Contei que 
Josh e seus amigos estavam querendo vingar a morte e que o padre Dominic e eu tnhamos discutido com eles, noite adentro, at finalmente convenc-los a levar Michael 
 justia convencional - voc sabe, utilizando as instncias legais adequadas e no um contrato de assassinato paranormal.
    S no contei uma coisa. Sobre Jesse. Por algum motivo, simplesmente no conseguia me obrigar a falar dele. Talvez por causa do que tinha dito a vidente. Talvez 
porque sentia medo de que Madame Zara estivesse certa, que eu realmente era uma gigantesca fracassada que s ia me apaixonar por uma pessoa em toda a vida, e essa 
pessoa era um cara que:
   (a) no me amava, e
   (b) no era exatamente algum que eu poderia apresentar  minha me, j que nem estava vivo.
   Ou talvez fosse simplesmente porque... bem, porque Jesse era um segredo que eu queria guardar para mim, como uma garota estpida apaixonada por Carson Daly ou 
algum assim. Talvez algum dia eu passe a ficar embaixo da janela do quarto com um grande cartaz dizendo Jesse, quer ir ao baile de formatura comigo? como aquelas 
garotas que ficam do lado de fora dos estdios da MTV, mas esperava sinceramente que algum me desse um tiro antes de chegar a esse ponto.
   Quando terminei, Gina suspirou e disse:
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   - Bem,  sempre assim. Os bonitinhos sempre acabam sendo os assassinos psicticos
   Estava falando de Michael.
   - . Mas ele nem  to bonitinho assim. A no ser sem roupa.
   - Voc sabe o que eu quero dizer. - Gina balanou a cabea. - O que voc vai fazer se ele no confessar ao padre Dominic?
   - No sei. - Essa era uma das coisas que haviam colaborado para a minha insnia. - Acho que vamos ter de arranjar alguma prova.
   - Ah, ? E onde? Na loja de provas? - Gina bocejou, olhou o relgio e depois pulou do parapeito. - Faltam dois minutos para o almoo. O que voc acha que vai 
ser hoje? Salsicha de novo?
   - Sempre .
   A Academia da Misso no era exatamente conhecida pela excelncia de sua lanchonete. Isso porque no existia lanchonete. Ns almovamos do lado de fora, num 
trailer. Era esquisito, mesmo para duas garotas do Brooklyn que tinham visto de tudo - como foi ilustrado pela total falta de surpresa de Gina com relao ao que 
eu tinha acabado de contar.
   - O que eu quero saber - disse ela enquanto saamos do banheiro feminino e amos para o caminho externo que logo estaria cheio de gente -  por que voc nunca 
me contou nada disso antes. Voc sabe, o negcio de mediadora. At parece que eu no sabia!
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   Voc no sabe, pensei. Pelo menos a pior parte.
   - Eu tinha medo de voc contar  sua me - foi o que falei em voz alta. - E que ela contasse  minha me. E que minha me me enfiasse num manicmio. Para o meu 
prprio bem, claro.
   - Claro. - Gina olhou bem para mim. - Voc  uma idiota. E sabe disso, no sabe? Eu nunca teria contado  minha me. Nunca conto nada  minha me, se puder evitar. 
E certamente no teria contado a ela, nem a ningum, sobre o negcio de ser mediadora.
   Dei de ombros, desconfortvel.
   - Eu sei. Acho... bem, na poca eu vivia muito tensa com tudo. Acho que relaxei um pouco nos ltimos tempos.
   - Dizem que a Califrnia faz isso com as pessoas.
   E ento o relgio da Misso tocou o meio-dia. Todas as portas das salas de aula em volta de ns se abriram e uma enchente de pessoas comeou a vir em nossa direo.
   Demorou apenas uns trinta segundos para Michael me descobrir e vir direto falar comigo.
   - Ei - disse ele, sem parecer nem um pouco algum que tivesse acabado de confessar um homicdio qudruplo. - Estive procurando voc. O que vai fazer depois da 
aula hoje?
   - Nada - falei rapidamente, antes que Gina pudesse abrir a boca.
   - Bem, a companhia de seguros finalmente arranjou um carro alugado para mim, e eu estava pensando, sabe, se voc queria voltar  praia, ou algo assim...
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   Voltar  praia? Esse cara tinha amnsia ou o qu? Era de pensar que, depois do que aconteceu com ele na ltima vez em que foi  praia, seria o nico lugar onde 
no quereria ir.
   Mesmo assim, embora sem saber, ele estaria em perfeita segurana l. Graas ao Jesse. Ele estava de olho nos Anjos enquanto o padre Dom e eu tentvamos levar 
seu suposto assassino  polcia.
   Foi enquanto pensava numa resposta para esse convite que vi o padre Dominic vindo na nossa direo. Logo antes de ser puxado para a sala dos professores pelo 
sr. Walden que gesticulava entusiasmado, ele balanou a cabea. Michael estava de costas, por isso no viu. Mas a mensagem do padre Dom para mim foi clara:
   Michael no tinha confessado.
   O que s podia significar uma coisa: estava na hora de trazer os profissionais.
   Eu.
   - Claro - falei, olhando de volta para Michael. - Talvez voc possa me ajudar com o dever de geometria. Acho que nunca vou conseguir sacar nada desse estpido 
teorema de Pitgoras. Juro que vou levar bomba depois daquele ltimo teste.
   - O teorema de Pitgoras no  difcil - disse Michael, parecendo achar divertida a minha frustrao. - A soma dos quadrados dos catetos do tringulo retngulo 
 igual ao quadrado da hipotenusa.
   Fiz "Hein?" de um jeito desamparado.
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   - Olha, eu tirei dez em geometria - disse Michael. - Posso ensinar a voc.
   Olhei para Michael com o que esperava que ele confundisse com adorao.
   - Ah, voc faria isso?
   - Claro.
   - Podemos comear hoje? Depois da aula? - Eu deveria ganhar um Oscar. Verdade. Tinha dominado totalmente aquela coisa de fmea indefesa. - Na sua casa?
   Michael s pareceu um pouquinho perplexo.
   - H... Claro. - Depois, quando se recuperou da surpresa, acrescentou maroto: - Mas meus pais no vo estar em casa. Meu pai vai estar trabalhando, e mame passa 
a maior parte do tempo no hospital. Com minha irm. Voc sabe. Espero que isso no seja problema.
   Fiz tudo, menos tremelicar os clios para ele.
   - Ah, no - falei. - Tudo bem.
   Michael ficou satisfeito - mas ao mesmo tempo um pouco desconfortvel.
   - H - disse ele enquanto as hordas de alunos passavam por ns. - Olha, com relao ao almoo, eu no posso ficar com voc. Tenho de fazer umas coisas. Mas encontro 
voc aqui depois da ltima aula. Certo?
   Falei um "Certo" numa imitao total de Kelly Prescott em seu jeito mais colegial. Deve ter funcionado, porque Michael se afastou meio tonto, mas satisfeito.
   Foi ento que Gina agarrou meu brao, me puxou para uma porta e sibilou:
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   - O que h com voc, est drogada? Voc vai  casa do cara? Sozinha?
   Tentei afast-la.
   - Calma, Gi. - O apelido que Soneca tinha posto nela pegava, por mais que eu odiasse admitir que qualquer coisa bolada por meu meio-irmo pudesse ter algum mrito. 
- Isso  o que eu fao.
   - Sair com possveis assassinos? - Gina pareceu ctica. - No creio, Suze. Voc conversou sobre isso com o padre Dominic?
   - Gi. Eu sou uma garota crescida. Posso cuidar de mim mesma.
   Ela estreitou os olhos.
   - No conversou, no foi? O que voc est fazendo? Dando uma de free-lancer? E no me chame de Gi.
   - Olha - expliquei no que esperava que fosse uma voz tranqilizadora. - As chances so de que Michael no v falar uma palavra sobre isso comigo. Mas ele  um 
nerd, certo? Um nerd de computador. E o que os nerds de computador fazem quando esto planejando alguma coisa?
   Gina continuou parecendo irritada.
   - No sei. E no me importo. Estou dizendo...
   - Escrevem coisas - falei calmamente. - No computador. Certo? Eles mantm um dirio, ou contam vantagem para os outros nas salas de bate-papo, ou fazem plantas 
dos prdios que eles querem explodir, ou sei l o qu. Assim, mesmo que eu no consiga fazer com que ele admita alguma coisa, se puder ficar algum tempo sozinha 
com o computador de Michael, aposto que consigo...
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   - Gi! - Soneca veio at ns. - E a, vai almoar agora?
   Os lbios de Gina estavam comprimidos de irritao comigo, mas Soneca no pareceu notar. Nem Dunga, que apareceu um segundo depois.
   - Ei - disse ele sem flego. - Por que vocs esto parados a? Vamos comer.
   Ento me notou e deu um risinho de desprezo.
   - Suze, onde est sua sombra?
   Respondi fungando:
   - Michael est impossibilitado de se juntar a ns para o almoo, uma vez que foi retido de modo inevitvel.
   -  - disse Dunga, e depois fez uma observao grosseira sobre Michael estar retido pela incapacidade de colocar algumas partes de seu corpo de volta nas calas.
Isso, aparentemente, era uma aluso  falta de coordenao de Michael, e no uma sugesto de que fosse mais bem-dotado do que um rapaz mediano de dezesseis anos.
   Optei por ignorar a observao, assim como Gina, mas acho que isso foi porque ela nem ouviu.
   - Espero que voc saiba o que est fazendo - foi tudo o que ela disse, e ficou claro que no estava falando a nenhum dos meus meios-irmos, o que os deixou tremendamente 
intrigados. Por que qualquer garota iria se incomodar em falar comigo quando podia falar com eles?
   - Gi - falei com alguma surpresa. - O que voc acha que eu sou? Uma amadora?
   - No. Uma idiota.
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   Ri. Achei realmente que ela estava apenas sendo engraada. S muito depois percebi que no havia nada de engraado naquilo.
   Porque, por acaso, Gina estava cem por cento certa.
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Captulo 15
   
   Esse  o negcio com os assassinos. Se voc j conheceu algum, tenho certeza de que vai concordar comigo:
   Eles no conseguem deixar de contar vantagem sobre o que fizeram.
   Srio. So totalmente vaidosos. E isso, em geral,  o que acaba com eles.
   Veja a coisa pelo ponto de vista deles: quero dizer, ali esto os caras, cometeram um crime terrvel e se deram bem. Voc sabe, uma coisa to engenhosa que ningum 
sequer pensaria em acus-los de a terem feito.
   E no podem contar a ningum. A absolutamente ningum.
    isso que quase sempre acaba com eles. No contar a ningum, no revelar a ningum seu segredo brilhante. Bem, esse negcio  praticamente de matar.
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   No me entenda mal. Eles no querem ser apanhados. S querem que algum aprecie a inteligncia daquilo que fizeram. , foi um crime hediondo - algumas vezes at 
impensvel. Mas olha. Olha. Eles fizeram isso sem serem apanhados. Enganaram a polcia. Enganaram todo mundo. Eles precisam contar a algum. Precisam. Caso contrrio, 
de que adianta?
   Essa  apenas uma observao pessoal, claro. Eu conheci alguns assassinos em minha rea de atuao, e esta  a nica coisa que todos parecem ter em comum. S
os que ficam de boca fechada conseguem no ser apanhados. Para todo o resto? Cana.
   Assim achei que Michael - que j acreditava que eu estava apaixonada por ele - poderia decidir contar vantagem comigo sobre o que tinha feito. Ele j havia comeado, 
um pouquinho, quando falou que Josh e pessoas do tipo eram apenas um "desperdcio de espao". Parecia provvel que, com algum estmulo, eu conseguiria fazer com 
que ele fosse mais especfico... talvez a ponto de uma confisso que eu poderia entregar  polcia.
   O que voc est dizendo? Culpada? Se eu no vou me sentir culpada por dedurar um cara que, afinal de contas, s estava tentando se vingar dos garotos que tinham 
deixado a irm se machucar tanto?
   . Certo. Escute, eu no curto essa de culpa. No meu livro h dois tipos de pessoas. As boas e as ms. Para mim, neste caso especfico, no havia uma nica pessoa 
boa a ser encontrada. Todo mundo tinha feito alguma coisa censurvel,
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desde Lila Meducci aparecendo naquela festa e se embebedando at os Anjos da RLS por terem armado a bebedeira. Talvez alguns tenham cometido crimes um pouquinho 
mais hediondos do que outros - Michael matando quatro pessoas me vem  cabea - mas, francamente, para mim... ningum ali prestava.
   De modo que, respondendo  sua pergunta, no, no sentia culpa com relao ao que ia fazer. Pelo modo como via, quanto mais cedo Michael recebesse o que merecia,
mais cedo eu poderia voltar ao que era realmente importante na vida: me esparramar na praia com minha melhor amiga, absorvendo uns raios de sol.
   Foi quando estava no banheiro feminino logo depois da ltima aula, colocando delineador diante do espelho sobre as pias (descobri que  mais fcil arrancar confisses 
de potenciais criminosos quando estou nos trinques) que recebi a primeira indicao de que a tarde no seria exatamente como planejei.
   A porta se abriu e Kelly Prescott entrou, seguida por sua sombra, Debbie Mancuso. Parece que no estavam ali para se aliviar nem para se emperequetar, j que 
s ficaram paradas me olhando com hostilidade.
   Espiei o reflexo delas no espelho e disse: - Se for para discutir a verba para o passeio da turma  regio vincola, podem esquecer. Eu j conversei com o sr. 
Walden e ele disse que  a coisa mais ridcula que j ouviu falar. Ao parque Six Flags Great Adventure, talvez, mas no ao Vale do Napa. As vincolas exigem comprovao 
de idade, vocs sabem.
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   O lbio superior de Kelly se enrolou.
   - No  sobre isso - falou numa voz enojada.
   -  - disse Debbie. -  sobre suas amizades.
   - Minhas amizades? - Eu tinha apanhado uma escova na mochila e comecei a passar nos cabelos, fingindo despreocupao. E no estava preocupada. No de verdade. 
Podia cuidar de qualquer coisa vinda de Kelly Prescott e Debbie Mancuso. S no me sentia exatamente a fim de lidar com isso, alm de todo o resto que tinha acontecido 
ultimamente. - Est falando de Michael Meducci?
   Kelly revirou os olhos.
   - Fala srio! No imagino nem por que voc ia querer ser vista com aquilo. Mas por acaso estamos falando dessa tal de Gina.
   -  - disse Debbie, com os olhos se estreitando at virarem fendas.
   Gina? Ah, Gina. Gina que tinha roubado os namoradinhos de Kelly e Debbie. De repente tudo ficou claro.
   - Quando ela vai voltar para Nova York? - perguntou Kelly.
   -  - disse Debbie. - E onde ela est dormindo? No seu quarto, certo?
   Kelly deu-lhe uma cotovelada, e Debbie disse:
   - Ei, no finja que no quer saber, Kel.
   Kelly lanou um olhar irritado para a amiga, e depois me perguntou:
   - Houve alguma... bem, alguma troca de camas?
   Troca de camas?
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   - No que eu saiba - falei. Pensei em curtir com a cara delas, mas o negcio  que realmente sentia pena. Sei que se algum fantasma femme fatale aparecesse e 
roubasse Jesse eu ficaria bem irritada. No que ele j tivesse sido meu, para comear.
   - Nada de troca de camas - falei. - Pezinhos debaixo da mesa de jantar, talvez, mas nada de troca de camas, que eu saiba.
   Debbie e Kelly trocaram olhares. Dava para ver que estavam aliviadas.
   - E ela vai embora quando? - perguntou Kelly.
   Quando falei "domingo" as duas garotas soltaram um pequeno suspiro. Debbie disse:
   - Bom.
   Agora que sabia que no teria de suport-la por muito tempo, Kelly estava disposta a ser gentil com relao a Gina.
   - No que eu no goste dela - falou.
   -  - concordou Debbie. - S que ela ... voc sabe.
   - Sei - falei de um modo que esperava que fosse reconfortante.
   -  s porque ela  nova. - Agora Kelly estava ficando na defensiva. - S por isso eles gostam dela. Porque ela  diferente.
   - Claro - falei, guardando a escova.
   - Tipo, ento ela  de Nova York? Grande coisa. - Kelly estava realmente indo fundo. - Quero dizer, eu j estive em Nova York. No foi to fantstico. Era um 
lugar bem sujo, e havia pombos nojentos e mendigos em toda parte.
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   -  - concordou Debbie. - E sabe o que eu ouvi falar? Que em Nova York no existem tacos de peixe.
   Quase senti pena de Debbie.
   - Bom - falei colocando a mochila nas costas. - Foi um prazer. Mas tenho de ir, senhoritas.
   Deixei-as ali, enfiando o mindinho em pequenos potes de brilho labial e depois se inclinando no espelho para aplicar.
   Michael me esperava exatamente onde tinha dito que estaria. Dava para ver que o delineador ia cumprindo a sua funo, porque ele ficou muito agitado e disse:
   - Oi, ah, voc, ... quer que eu leve sua mochila?
   Falei toda fresca:
   - Ah, seria timo. - E deixei que ele pegasse.
   Com duas mochilas penduradas nos ombros, a minha e a dele, Michael parecia meio esquisito, mas afinal de contas ele era sempre esquisito - pelo menos vestido 
- ento no foi uma grande surpresa. Comeamos a andar pela passarela coberta, fresca e sombreada - agora vazia, j que quase todo mundo tinha ido embora - e samos 
ao sol quente do estacionamento. O mar, logo adiante, piscava para ns. O cu estava sem nuvens.
   - Meu carro est ali - disse Michael apontando para um seda verde-esmeralda. - Bem, no  o meu carro.  o que a locadora me emprestou. Mas no  ruim. Tem um 
certo charme.
   Sorri e Michael tropeou num pedao de concreto solto. Teria cado de cara se no tivesse se salvado no ltimo
00

minuto. Dava para ver que meu batom estava tendo um efeito to bom quanto o delineador.
   - S deixa eu... ... achar as chaves - disse ele revirando os bolsos.
   Falei para demorar o quanto quisesse. Ento tirei os culos Donna Karan e virei o rosto para o sol, encostada no cap do carro alugado. Qual  a melhor maneira 
de puxar o assunto?, pensei. Talvez devesse sugerir que a gente parasse no hospital para visitar sua irm. No, eu queria chegar o mais cedo possvel  casa dele, 
para comear a ler os e-mails. Ser que conseguiria acessar os e-mails? Provavelmente no. Mas poderia ligar para Cee Cee. Ela saberia como. Ser que d para falar 
ao telefone e acessar o e-mail de algum ao mesmo tempo? Ah, meu Deus, por que mame no me deixa ter um celular? Eu era praticamente a nica da turma que no tinha 
- sem contar Dunga, claro.
   Foi enquanto eu estava pensando nisso que uma sombra caiu no meu rosto, e de repente no senti mais o calor do sol. Abri os olhos e me peguei olhando para Soneca.
   - O que voc acha que est fazendo? - perguntou ele do mesmo modo sonmbulo em que fazia tudo.
   Pude sentir as bochechas ficando vermelhas. E no por causa do sol.
   - Vou pegar uma carona com Michael - falei humildemente. Dava para ver com o canto do olho que Michael, junto  porta do motorista, tinha finalmente achado as 
chaves, e se imobilizou com elas na mo, com a porta aberta.
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   - No vai no - disse Soneca.
   No pude acreditar. No pude acreditar que ele estava fazendo isso comigo.
   - Sone... - comecei, mas parei bem a tempo. - Jake - falei baixinho. - Corta essa.
   - No. Corta essa voc. Voc se lembra do que mame falou.
   Mame. Ele tinha chamado minha me de mame. O que estava acontecendo aqui?
   Baixei os culos escuros e olhei para alm de Jake. Gina, Dunga e Mestre estavam do lado mais distante do estacionamento, encostados na lateral do Rambler e olhando 
na minha direo.
   Gina. Ela havia me dedurado. Havia me dedurado para o Soneca. No pude acreditar.
   - Sone... quero dizer, Jake. Agradeo sua preocupao. Verdade. Mas posso cuidar de mim mesma...
   - No. - E, para minha surpresa, ele pegou meu brao com a mo e comeou a me puxar. Soneca era surpreendentemente forte, para algum que dava a impresso de
estar to cansado o tempo todo. - Voc vem para casa com a gente. Desculpe, cara. - Isto foi dito para Michael. - Ela deve ir para casa comigo hoje.
   Mas Michael no pareceu achar essa resposta satisfatria. Tirou nossas duas mochilas e, jogando as chaves do carro de volta no bolso da cala, deu um passo na 
direo de Soneca.
   - No acho - disse Michael numa voz dura que eu nunca o tinha ouvido usar - que a moa queira ir com voc.
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   A moa? Que moa? Ento percebi, com um susto, que ele estava falando de mim. Eu era a moa.
   - No me importa o que ela quer - disse Soneca. Sua voz no estava dura. Estava simplesmente confiante. - Ela no vai entrar num carro com voc, e ponto final.
   - Acho que no. - Michael deu outro passo na direo de Soneca. E foi ento que vi seus dois punhos fechados.
   Punhos! Michael ia lutar com Soneca! Por minha causa!
   Isso era tremendamente empolgante. Nunca dois garotos tinham lutado por minha causa. Mas o fato de um deles ser meu meio-irmo e ter praticamente tanto apelo 
romntico para mim quanto Max, o cachorro da famlia, abafou um pouco meu entusiasmo.
   E Michael tambm no era grande coisa, pensando bem, j que era potencialmente assassino e coisa e tal.
   Ah, por que eu tinha de ter dois fracassados daqueles querendo brigar por minha causa? Por que Matt Damon e Ben Affleck no brigavam por mim? Isso sim seria excelente.
   - Olha, meu amigo - disse Soneca notando os punhos de Michael. - Voc no vai querer mexer comigo, certo? Eu s vou pegar minha irm aqui - ele me arrastou para 
longe do cap do carro - e ir embora. Sacou?
   Irm? Meia-irm! Meia-irm! Meu Deus, por que ningum saca isso?
   - Suze - disse Michael. Ele no havia afastado o olhar de Soneca. - S entre no carro, certo?
   Bem, isso tinha demorado demais, pensei. Eu no somente estava totalmente envergonhada como tambm sentia
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muito calor. Naquela tarde o sol no estava moleza. De repente no me restava nenhuma energia de caa-fantasma. Alm disso acho que no queria ver todo mundo se 
machucar por uma coisa to completamente idiota.
   - Olha - falei a Michael. -  melhor eu ir com ele. Deixa para outro dia, certo?
   Finalmente Michael afastou o olhar de Soneca. Quando seus olhos pousaram em mim, foi com uma expresso estranha. Como se no estivesse me vendo de verdade.
   - timo - disse ele.
   Ento entrou no carro sem dizer mais nada e ligou o motor.
   Meu Deus, pensei. Vamos deixar de ser infantis, certo?
   - Ligo para voc quando chegar em casa - gritei para Michael, mas duvido de que ele tenha ouvido por trs das janelas fechadas. Seria difcil arrancar uma confisso 
dele pelo telefone, mas no impossvel, pensei.
   Os pneus de Michael cantaram no asfalto quente enquanto ele se afastava.
   - Que otrio imbecil - murmurou Soneca enquanto me arrastava pelo estacionamento. S que no disse otrio. Nem imbecil. - E voc quer sair com esse cara?
   - Ns somos apenas amigos - falei carrancuda.
   - . Certo.
   - Voc est completamente ferrada - disse Dunga enquanto eu me aproximava do Rambler com Soneca.
   Essa era umas das frases que ele mais gostava de me dizer. Na verdade dizia sempre que tinha a mnima chance.
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   - Tecnicamente no, Brad - observou Mestre, pensativo. - Veja bem, ela no entrou no carro com ele. E isso  que estava proibida de fazer. Entrar num carro com 
Michael Meducci.
   - Calem a boca, todos vocs - disse Soneca indo para o banco do motorista. - E entrem logo.
   Notei que Gina entrou automaticamente no banco dianteiro. Parece que no acreditou que, quando Soneca mandou todo mundo calar a boca, tambm estivesse falando 
dela, porque disse:
   - Que tal a gente parar em algum lugar para tomar um sorvete?
   Eu sabia que Gina estava tentando fazer com que eu no ficasse furiosa com ela. Como se um sorvete com calda de chocolate fosse ajudar. Na verdade, pensando bem, 
acho que ajudaria.
   - Para mim est timo - disse Soneca.
   Dunga,  minha direita - como sempre eu tinha acabado sentada no calombo no meio do banco de trs - murmurou:
   - No sei o que voc v naquele panaca do Meducci.
   - Ah, isso  fcil - disse Mestre. - As fmeas de todas as espcies tendem a selecionar o parceiro masculino mais capaz de ser o provedor para ela e a prole que 
pode resultar do acasalamento. Sendo bem mais inteligente do que a maioria dos colegas de turma, Michael Meducci cumpre amplamente esse papel, alm de ter o que 
 considerado um fsico notvel pelos padres ocidentais de beleza, se for
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verdade o que ouvi Gina e Suze dizerem. J que tem probabilidade de passar aos filhos esses componentes genticos favorveis, ele  irresistvel para as fmeas reprodutoras 
de toda parte. Pelo menos as que tm discernimento, como Suze.
   Houve silncio no carro... o tipo de silncio que geralmente acompanhava os discursos de Mestre.
   Ento Gina disse com reverncia:
   - Realmente deveriam adiantar voc de srie, David.
   - Ah, eles quiseram - respondeu Mestre, animado -, mas ainda que meu intelecto possa ser desenvolvido para um garoto da minha idade, o crescimento foi um tanto 
retardado. Achei pouco aconselhvel me enfiar numa populao de machos muito maiores do que eu, que podiam se sentir ameaados por minha inteligncia superior.
   - Em outras palavras - Soneca traduziu para Gina -, ns no queramos que ele levasse porrada dos garotos maiores.
   Em seguida ligou o carro e disparamos para fora do estacionamento na alta velocidade que - apesar do apelido particular que dei a ele - Soneca costuma dirigir.
   Eu estava tentando deduzir como deixar claro que no tinha tanta vontade de procriar com Michael Meducci mas de lev-lo a confessar que havia matado os Anjos 
da RLS, quando Gina disse:
   - Meu Deus, Jake, voc sabe dirigir mesmo?
   O que foi meio engraado j que Gina, cujos pais sensatamente no deixam chegar perto do carro deles, nunca dirigiu antes. Mas ento levantei a cabea e vi o 
que ela
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queria dizer. Estvamos nos aproximando do porto da frente da escola - que ficava na base de uma colina e se abria para um cruzamento movimentado - a uma velocidade 
maior do que o normal at mesmo para Soneca.
   - , Jake - disse Dunga ao meu lado, no banco de trs. - Diminui a, seu manaco.
   Eu sabia que Dunga s estava tentando bancar o bonzinho na frente de Gina, mas ele tinha razo. Soneca estava indo depressa demais.
   - Isso no  uma corrida - falei, e Mestre comeou a dizer alguma coisa sobre as endorfinas de Jake, que elas estavam atuando devido  briga comigo e  quase 
luta com Michael, e que isso explicaria seu sbito caso de p de chumbo...
   Pelo menos at que Jake falou, num tom nem um pouco sonolento:
   - No consigo diminuir. O freio... o freio no est funcionando.
   Isso pareceu interessante. Inclinei-me para a frente. Acho que pensei que Jake estava querendo nos assustar.
   Ento vi a velocidade com que nos aproximvamos do cruzamento na frente da escola. No era piada. Estvamos para mergulhar em quatro pistas de trfego pesado.
   - Pulem fora! - gritou Jake para ns.
   A princpio eu no soube o que ele queria dizer. Ento vi Gina lutando para soltar o cinto, e soube.
   Mas era tarde demais. J estvamos descendo a ladeira que passava pelo porto e ia at a estrada. Se pulssemos
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agora estaramos to mortos quanto no minuto em que mergulhssemos naquelas quatro pistas. Pelo menos se ficssemos no carro teramos a proteo questionvel das 
paredes de metal do Rambler...
   Jake apertou com fora a buzina, xingando alto. Gina cobriu os olhos. Mestre me abraou enterrando o rosto no meu colo e Dunga, para minha grande surpresa, comeou 
a gritar como uma menina, muito perto do meu ouvido.
   Ento estvamos voando morro abaixo, passando a toda velocidade por uma mulher muito surpresa numa perua Volvo e depois por um casal japons aparvalhado num Mercedes, 
e ambos conseguiram apertar o freio a tempo de no se chocar contra ns.
   Mas no tivemos tanta sorte com o trfego nas outras duas pistas. Enquanto vovamos atravessando a estrada, um trailer gigantesco, com as palavras Tom Cat num 
braso na grade frontal, veio para cima de ns, com a buzina berrando. As palavras Tom Cat chegaram mais e mais perto, at que de repente no pude v-las mais porque 
estavam acima do teto do carro.
   Foi nesse ponto que fechei os olhos, por isso no tive certeza se o impacto que senti foi s na minha mente porque eu o estivera esperando com tanta fora ou 
porque tnhamos realmente batido. Mas o choque bastou para fazer com que meu pescoo virasse para trs como acontecia nas montanhas-russas quando o carrinho fazia 
subitamente uma volta de noventa graus.
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   Mas quando abri os olhos de novo comecei a suspeitar de que o choque no tinha sido na minha cabea, j que tudo estava rodando, como acontece quando voc anda 
num daqueles brinquedos que imitam xcaras de ch. S que no estvamos num brinquedo. Ainda estvamos no Rambler, que girava pela estrada como um pio.
   At que de repente, com outro som esmagador, um estalo de vidros e mais um choque enorme, ele parou.
   E quando a fumaa e o p se assentaram, vimos que estvamos meio dentro e meio fora do escritrio de informaes tursticas de Carmel, com um letreiro que dizia 
Bem-vindo a Carmel! apertado contra o pra-brisa.
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Captulo 16
   
   - Mataram meu carro. Era tudo que Soneca parecia capaz de dizer. Ficou dizendo isso desde que havamos nos arrastado para fora dos destroos do que tinha sido 
o Rambler.
   - Meu carro. Mataram meu carro.
    No importava que o carro no fosse realmente de Soneca. Era o carro da famlia ou, pelo menos, o carro dos filhos.
   E no importava que Soneca no parecesse capaz de dizer quem eram os seres misteriosos que ele suspeitava de terem assassinado seu carro.
   S ficou repetindo isso. E o negcio  que, quanto mais ele falava, mais o horror da coisa ia aumentando.
   Porque, claro, no era o carro que algum tinha tentado matar. Ah, no. As supostas vtimas eram as pessoas dentro do carro.
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   Ou, para ser mais exata, uma pessoa. Eu.
   Realmente no acho que esteja sendo vaidosa. Acho honestamente que a mangueira do freio do Rambler foi cortada por minha causa. , ela foi cortada, de modo que 
todo o fluido tinha escorrido. O carro, que era mais velho do que minha me - ainda que no to velho quanto o padre D - tinha s uma linha de freio, o que o tornava 
vulnervel a esse tipo de ataque.
   Agora deixe-me ver quem eu acho que gostaria de me ver perecendo num incndio feroz... Ah, espera a, j sei. Que tal Josh Saunders, Carrie Whitman, Mark Pulsford 
e Felicia Bruce?
   D um prmio a essa garota aqui.
   Claro que eu no podia contar a ningum sobre as suspeitas. No podia contar  polcia que apareceu e fez o relatrio do acidente. Nem aos caras da emergncia 
que no puderam acreditar que, alm de alguns arranhes, nenhum de ns estava seriamente machucado. Nem aos caras que vieram rebocar o que restava do Rambler. Nem 
a Michael que, tendo sado do estacionamento minutos antes de ns, tinha ouvido o barulho e voltado, e foi um dos primeiros a nos ajudar a sair do carro.
   E certamente no a minha me e meu padrasto, que apareceram no hospital com os lbios apertados e o rosto plido, e ficavam dizendo coisas do tipo: " incrvel 
nenhum de vocs ter se machucado" e "De agora em diante vocs s vo andar no Land Rover".
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   O que fez Dunga, pelo menos, se animar. O Land Rover era mais espaoso do que o Rambler. Acho que ele imaginou que no teria mais tanta dificuldade de ficar na 
horizontal com Debbie Mancuso no Land Rover.
   - Simplesmente no entendo - disse mame muito mais tarde, depois dos raios-X, dos testes nos olhos, das cutucadas e de o pessoal do hospital finalmente deixar 
que fssemos para casa. Ficamos sentados no salo do Pennsula Pizza, onde Soneca trabalhava, que por acaso tambm parecia ser um dos nicos lugares em Carmel onde 
era possvel conseguir mesa para seis - sete, se contar Gina - sem reserva. Para um estranho devamos estar parecendo uma grande famlia feliz (bem, a no ser Gina, 
que meio se destacava, ainda que no tanto quanto voc possa pensar) comemorando alguma coisa, tipo uma vitria no futebol.
   S ns sabamos que estvamos comemorando o fato de ainda estarmos vivos.
   - Puxa, deve ser um milagre - continuou mame. - Os mdicos acham. Quero dizer, o fato de nenhum de vocs ter se machucado.
   Mestre mostrou a ela o cotovelo que tinha arranhado num pedao de vidro enquanto saa do carro depois de ele ter parado.
   - Este ferimento pode ser muito perigoso - falou, numa vozinha de menino machucado - se por acaso se infeccionar.
   - Ah, meu doce. - Mame acariciou o cabelo dele. - Eu sei. Voc foi muito corajoso quando eles deram os pontos.
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   O resto de ns revirou os olhos. Mestre vinha fazendo a ceninha por causa do ferimento a noite toda. Mas isso deixava ele e mame felizes. Ela havia tentado comigo 
aquele negcio de acariciar o cabelo, e eu quase quebrei meu brao tentando me livrar.
   - No foi milagre - disse Andy, balanando a cabea - e sim pura sorte vocs no terem sido mortos.
   - Pura sorte, nada - reagiu Soneca. - Minha capacidade superlativa de dirigir foi o que nos salvou.
   Odiei admitir, mas Soneca estava certo. (E onde foi que ele aprendeu uma palavra como superlativa? Ser que vinha estudando para as provas pelas minhas costas?) 
A no ser pela parte em que atravessamos a vitrine, ele havia dirigido aquele tanque - sem freio - como um piloto de Frmula 1. Acho que sei por que Gina no queria 
largar o brao dele e ficava olhando-o com adorao.
   Devido ao respeito recm-descoberto por Soneca, nem olhei o que ele e Gina estavam fazendo no banco de trs do Land Rover a caminho de casa.
   Mas Dunga olhou. E o que quer que tenha visto o colocou no pior humor que j presenciei.
   Mas suas batidas de ps e o som de Marilyn Manson no ltimo volume no quarto s serviram para irritar seu pai, que passou de uma gratido humilde por ter deixado 
de perder por pouco seus "garotos... e voc, Suze. Ah, e Gina tambm", a uma fria apopltica ao ouvir o que ele chamava de "aquele abominvel veneno mental".
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   Sozinha em meu quarto - Gina tinha desaparecido para algum paradeiro desconhecido na casa; bem, certo, eu sabia onde ela estava, s no queria pensar nisso -, 
eu no me incomodava com o nvel de rudo no corredor do lado de fora da minha porta. Percebi que isso impediria que algum ouvisse a conversa muito desagradvel 
que eu estava para ter.
   - Jesse! - gritei acendendo as luzes do quarto e procurando-o. Mas ele e Spike continuaram desaparecidos. - Jesse, onde voc est? Preciso de voc.
   Os fantasmas no so cachorros. No vm quando a gente chama. Pelo menos nunca faziam isso. No para mim. S ultimamente (e isso era uma coisa que eu no tinha 
exatamente conversado com o padre Dom. Era meio esquisito pensar a respeito, se voc quiser saber) os fantasmas que eu conhecia vinham aparecendo  menor sugesto 
deles na minha mente. Srio. Parecia que eu s precisava pensar no meu pai, por exemplo, e puf!, ali estava ele.
   No  necessrio dizer que isso era bem embaraoso quando por acaso eu estava pensando nele no chuveiro, lavando o cabelo, ou sei l o qu.
   Eu imaginava se isso teria algo a ver com o aumento de meus poderes de mediadora devido  idade. Mas, se fosse isso, daria para pensar que o padre Dom era um 
mediador muito melhor do que eu.
   Mas no era. Diferente, mas no melhor. Certamente no mais forte. Ele no conseguia invocar um esprito com um simples pensamento.
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   Pelo menos eu achava que no.
   De qualquer modo, ainda que os fantasmas no venham quando a gente chama, ultimamente Jesse sempre aparecia. Surgiu diante de mim com um tremor no ar, depois 
ficou me olhando como se eu tivesse acabado de sair do set de Hellraiser III com figurino completo. Mas ser que devo dizer que no estava to desgrenhada quanto
me sentia?
   - Nombre de Dios, Suzannah - disse ele, empalidecendo visivelmente (bem, pelo menos para um cara que j estava morto). - O que aconteceu com voc?
   Olhei para mim mesma. Certo, ento minha blusa estava rasgada e suja, e minhas meias 7/8 tinham perdido a aderncia. Pelo menos o cabelo estava com aquele importantssimo 
ar de varrido pelo vento.
   - Como se voc no soubesse - falei azeda, sentando-me na cama e tirando os sapatos. - Achei que voc disse que ia ficar de bab deles o dia inteiro, at que 
o padre D e eu tivssemos chance de trabalhar com o Michael.
   - Bab? - Jesse franziu as sobrancelhas escuras, revelando que no era familiarizado com a palavra. - Eu fiquei com os Anjos o dia inteiro, se  isso que quer 
dizer.
   - Ah, certo. O que voc est dizendo? Que foi com eles na visitinha ao estacionamento da escola para cortar a mangueira do freio do Rambler?
   Jesse sentou-se ao meu lado na cama.
   - Suzannah. - Seu olhar escuro estava grudado no meu rosto. - Aconteceu alguma coisa hoje?
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   -  melhor acreditar. - Contei o que havia acontecido, ainda que minha explicao sobre exatamente o que fora feito ao carro tenha sido meio superficial, dada 
minha completa ignorncia de tudo que fosse mecnico e a falta de conhecimento de Jesse sobre o funcionamento de um automvel. Quando ele era vivo, claro, os nicos 
meios de transporte eram o cavalo ou a carroa.
   Quando terminei ele balanou a cabea.
   - Mas, Suzannah, no podem ter sido Josh e os outros. Como disse, eu fiquei com eles o dia inteiro. S os deixei agora porque voc me chamou. Eles no poderiam 
ter feito o que voc descreveu. Eu teria visto e impedido.
   Apertei os olhos.
   - Mas se no foram Josh e aquele pessoal, quem poderia ter sido? Puxa, mais ningum me queria ver morta. Pelo menos no agora.
   Jesse continuou me encarando.
   - Voc tem certeza de que era a vtima pretendida, Suzannah?
   - Bem, claro que era eu. - Sei que parece esquisito, mas quase me senti ofendida pela idia de que poderia haver algum no planeta que merecesse o assassinato 
mais do que eu. Devo dizer que sinto orgulho do nmero de inimigos que adquiri. No negcio de mediadora sempre considerei um sinal de que as coisas iam bem se houvesse 
um punhado de pessoas querendo me ver morta.
   - Quero dizer, quem poderia ser, alm de mim? - Ri. - O qu, voc acha que algum est a fim de acabar com o Mestre!
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   Mas Jesse no riu.
   - Pense, Suzannah. No havia mais ningum naquele carro que algum poderia querer ver bastante machucado ou mesmo morto?
   Estreitei os olhos para ele.
   - Voc sabe de alguma coisa - falei em tom categrico.
   - No. - Jesse balanou a cabea. - Mas...
   - Mas o qu? Meu Deus, odeio quando voc vem com esse tipo de aviso cifrado. Diga logo!
   - No. - Ele balanou a cabea rapidamente. - Pense, Suzannah.
   Suspirei. No havia como discutir com Jesse quando ele ficava desse jeito. Na verdade no dava para culp-lo, acho, por querer bancar o sr. Miyagi para o meu 
Karat Kid. Ele no tinha muitas outras coisas para fazer.
   Soltei o ar com fora suficiente para fazer minhas madeixas voarem.
   - Certo - falei. - Pessoas que talvez no estivessem muito felizes com algum, alm de mim, naquele carro. Deixe-me ver. - Empertiguei-me. - Debbie e Kelly no 
esto muito satisfeitas com Gina. Elas tiveram um pequeno interldio maldoso no banheiro feminino logo antes daquilo acontecer. Quero dizer, o negcio do carro.
   Ento franzi a testa.
   - Mas no acho que aquelas duas cortariam a mangueira do freio para tir-la do caminho. Para comear, duvido de que saibam o que  uma mangueira de freio, ou 
onde encontr-la. E em segundo lugar, poderiam se dar mal entrando
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embaixo de um carro. Sabe, quebrar uma unha, sujar o cabelo com leo ou sei l o qu. Debbie provavelmente no se importaria, mas Kelly? Esquea. Alm disso elas 
saberiam que poderiam acabar matando Dunga e Soneca, e no iriam querer isso.
   - Claro que no - disse Jesse.
   Foi a falta de expresso com que ele pronunciou as palavras que me deu a dica.
   - Dunga? - Lancei-lhe um olhar incrdulo. - Quem quereria ver Dunga morto? Ou Soneca? Quero dizer, aqueles caras so to... idiotas.
   - Algum deles no fez alguma coisa que poderia deixar algum com raiva? - perguntou Jesse no mesmo tom inexpressivo.
   - Bem, claro. No tanto o Soneca, mas Dunga? Ele vive fazendo coisas imbecis tipo dar chave de cabea nas pessoas e jogar os livros delas para todo canto... - 
Minha voz ficou no ar.
   Depois balancei a cabea.
   - No. Isso  impossvel.
   Jesse me olhou.
   - ?
   - No, voc no entende. - Levantei-me e comecei a andar pelo quarto. Em algum ponto de nossa conversa Spike tinha atravessado a janela. Agora sentara-se no cho 
aos ps de Jesse, lambendo-se vigorosamente com sua lngua que parecia lixa.
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   - Quero dizer, ele estava l - expliquei. - Michael estava l, logo depois do que aconteceu. Ele nos ajudou a sair do carro. Ele... - Minha ltima viso de Michael 
naquela tarde tinha sido no momento em que a porta da ambulncia se fechou comigo, Gina, Soneca e Dunga dentro. O rosto de Michael estava plido - mais do que o 
normal - e preocupado.
   No.
   - Isso simplesmente... - Fui at o sof-cama de Gina e girei para encarar Jesse outra vez. - Michael nunca faria uma coisa assim.
   Jesse riu. Mas no havia humor no riso.
   - No? Eu posso pensar em quatro pessoas que devem ter uma opinio muito diferente sobre o assunto.
   - Mas por que ele faria isso? - balancei a cabea de novo, com nfase suficiente para fazer as pontas dos cabelos voarem. - Quero dizer, Dunga  um bundo, verdade, 
mas a ponto de algum sentir vontade de mat-lo? Para no falar de vrias pessoas inocentes com ele? Inclusive eu? - Levantei o olhar indignado da viso de Spike 
mastigando o prprio p, tentando tirar sujeira de entre as unhas. - Michael no ia querer me ver morta. Eu sou a melhor chance que ele tem de uma acompanhante no 
baile de formatura!
   Jesse no falou nada. E no silncio me lembrei de uma coisa. E o que lembrei me tirou o flego.
   - Ah, meu Deus - falei, e, segurando o peito, deixei-me cair no sof-cama.
   A expresso neutra de Jesse se transformou em preocupao.
0

   - O que foi, Suzannah? - perguntou ele preocupado. - Voc est doente?
   Confirmei com a cabea.
   - Ah, sim - Falei olhando para a parede, sem ver nada. - Acho que vou vomitar. Jesse... ele perguntou se eu queria uma carona. Logo antes de aquilo acontecer. 
Insistiu em que eu fosse. Na verdade, quando Soneca disse que eu tinha de ir com ele, caso contrrio contaria a mame, achei que os dois iam ter uma briga de socos.
   - Claro - disse Jesse num tom que, para ele, era muito seco. - A... como foi que voc disse? Ah, sim. A acompanhante para o baile de formatura estava para ser 
exterminada.
   - Ah, meu Deus! - Levantei-me e comecei a andar de novo. - Ah, meu Deus, por qu? Por que Dunga? Quero dizer, ele  um panaca e coisa e tal, mas por que Michael 
iria querer mat-lo?
   Jesse respondeu em voz baixa:
   - Talvez pelo mesmo motivo pelo qual matou Josh e os outros.
   Parei de andar. Virei lentamente a cabea para ele. Mas no o vi, no o vi de verdade. Estava me lembrando de uma coisa que Dunga tinha dito - parecia que h 
semanas, mas tinha sido h apenas uma ou duas noites. Estvamos conversando sobre o acidente que havia matado os Anjos da RLS e Dunga falou alguma coisa sobre Mark 
Pulsford. "A gente foi a uma festa junto. No ms passado, no Vale."
   A mesma festa no Vale, imaginei com o sangue ficando subitamente frio, em que Lila Meducci tinha cado na piscina?
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   Um segundo depois, sem dizer outra palavra a Jesse, abri a porta do quarto, dei os trs passos pelo corredor at o quarto de Dunga e bati na porta com toda a 
fora.
   - Calma a! - gritou Dunga l de dentro. - Eu j abaixei!
   - No  por causa da msica - respondi. -  outra coisa. Posso entrar?
   Ouvi o som de halteres sendo recolocados nos suportes. Ento Dunga grunhiu:
   - Pode.
   Pus a mo na maaneta e virei-a.
   Eu gostaria de fazer uma observao aqui. Eu j estive no quarto de Mestre. Na verdade muitas vezes, porque ele  sempre o meio-irmo que eu procuro quando tenho 
um problema de dever de casa que no sei resolver, apesar de ele estar trs sries atrs de mim. E j estive no quarto de Soneca, porque em geral ele precisa de 
umas sacudidas para acordar de manh a tempo de nos levar para a escola.
   Mas nunca, jamais, tinha estado no quarto de Dunga. Para dizer a verdade, sempre rezei para nunca ter motivo para atravessar aquela soleira especfica.
   Mas agora tinha um motivo. Respirei fundo e entrei.
   Estava escuro. Isso por causa da deciso de Dunga de pintar trs de suas paredes de roxo e uma de branco, as cores do time de luta-livre da Academia da Misso. 
Ele havia escolhido um roxo to escuro que era quase preto. A escurido daquelas trs paredes s era aliviada por um pster ocasional de Michael Jordan insistindo 
para o espectador: "Just Do It."


   O piso do quarto de Dunga era um grosso tapete de meias e cuecas sujas. O odor era pungente - uma mistura de suor e talco de beb. No era necessariamente desagradvel, 
mas no era um odor que eu particularmente gostaria de que permeasse meu guarda-roupa. Mas Dunga no parecia se importar.
   - E a? - Ele estava esticado de costas num banco almofadado. Acima do peito havia um haltere nos suportes. Eu no gostaria de ter de adivinhar quanto ele estava 
levantando, mas deixe-me garantir que, com repeties suficientes, Dunga no teria problema em carregar Debbie Mancuso pela janela no caso de um incndio. O que 
 tudo que uma garota realmente precisa de um namorado, se voc quer saber.
   - Dun... - Respirei fundo outra vez. Por que o talco de beb? Espera. No me conte. No quero saber. - Brad. Voc esteve naquela festa no Vale em que Lila Meducci 
caiu na piscina?
   Dunga tinha estendido as mos e apanhado o haltere. Agora levantou-o dando-me um vislumbre de suas axilas excessivamente cabeludas. Tentei no sair correndo ao 
v-las.
   - Do que voc est falando? - grunhiu ele.
   - Lila Meducci.
   Dunga havia baixado o haltere at estar logo acima do peito. Seus bceps tinham se inchado at o tamanho de meles. Deixe-me observar que, normalmente, a viso 
de bceps masculinos daquele tamanho teria feito meus joelhos
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enfraquecerem. Mas aqueles eram de Dunga, por isso s pude engolir em seco e esperar que as fatias de pizza de pepperoni que eu tinha jantado ficassem onde estavam.
   - A irm menor de Michael - expliquei. - Ela quase se afogou numa festa no Vale no ms passado. Eu estava imaginando se era a mesma festa onde voc falou que 
esteve, quando encontrou Mark Pulsford.
   O haltere subiu.
   - Pode ter sido. No sei. Por que voc quer saber?
   - Brad.  importante, quero dizer, se voc tivesse estado l, acho que voc saberia. Deve ter aparecido uma ambulncia.
   - Acho que sim - disse ele entre os movimentos de supino. - Quero dizer, eu estava muito bbado.
   - Voc acha que aquela garota quase se afogou na sua frente? - Nas melhores circunstncias eu no tinha muita pacincia para Dunga. Nesse caso em particular minha 
tolerncia por sua estupidez havia descido ao ponto mnimo.
   Dunga deixou o haltere cair de volta no suporte, fazendo barulho. Em seguida se sentou e me olhou irritado.
   - Olha - disse ele. - Se eu falar que estive l, o que voc vai fazer? Correr para contar a mame e papai, certo? Ento por que eu contaria? Puxa, srio, Suze. 
Por que eu contaria?
   Fora a grande surpresa de ver Dunga tambm chamar minha me de mame, eu estava preparada para a pergunta.
   - No vou contar. Juro que no vou contar, Brad. S que preciso saber.
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   Ele continuou suspeitando.
   - Por qu? Para poder contar quela sua amiga albina esquisita, e ela colocar no jornal da escola? "Brad Ackerman ficou ali parado como um panaca enquanto a garota 
quase morria."  isso?
   - Juro que no .
   Ele encolheu os ombros fortes.
   - timo. Sabe de uma coisa? Eu nem me importo. No  como se minha vida j no fosse uma droga. Quero dizer, eu no tenho esperana de chegar a 1,68 antes das 
secionais, e agora est bastante claro que a sua amiga Gina gosta mais de Jack do que de mim. - Ele me encarou. - No ?
   Mudei o peso do corpo de um p para o outro, desconfortvel.
   - No sei. Acho que ela gosta dos dois.
   -  - disse Dunga com sarcasmo. - Por isso ela est aqui comigo, agora, em vez de trancada com Jake, fazendo sei l o qu.
   - Tenho certeza de que eles s esto conversando.
   - Certo. - Dunga balanou a cabea. Eu estava meio atordoada. Nunca o tinha visto parecendo to... humano. Nem sabia que ele tinha objetivos. O que era esse negcio 
de 1,68? E ele realmente gostava tanto de Gina a ponto de achar que sua vida era uma droga s por no achar que ela gostava dele tambm?
   Esquisito. Negcio esquisito de verdade.
   - Quer saber sobre aquela festa no Vale? - perguntou ele. - Eu estava l. Certo? Est feliz agora? Eu estava l. Como
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falei, estava muito bbado. No vi quando ela caiu. S notei quando algum comeou a puxar a garota para fora. - De novo ele balanou a cabea. - Aquilo foi feio, 
sabe? Quero dizer, ela nem deveria estar l. Ningum convidou. Se voc no agenta bebida, no tem de beber, est sabendo? Mas essas garotas fazem praticamente qualquer 
coisa para ficar perto da gente.
   Franzi as sobrancelhas.
   - "Da gente"?
   Ele me olhou como se eu fosse imbecil.
   - Voc sabe. Os atletas. O pessoal popular. A irm de Meducci - eu no sabia que era ela at que sua me falou no outro dia, no jantar - era uma dessas garotas. 
Sempre por perto, tentando fazer com que algum de ns a convidasse para sair. Para poder ser popular tambm, saca?
   Eu sacava. Subitamente sacava bem demais.
   Foi por isso que sa do quarto de Dunga sem dizer mais nenhuma palavra. O que havia para falar? Eu sabia o que fazer. Acho que soubera o tempo todo. S no queria 
admitir.
   Mas agora sabia. Como Michael Meducci, eu achava que no tinha outra opo.
   E, como Michael Meducci, precisava ser impedida. S que no achava isso. Pelo menos naquela hora.
   Exatamente como Michael.
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*#Captulo 17

   Gina estava no meu quarto quando voltei da visita a Dunga. Mas Jesse e Spike tinham ido embora. O que para mim era timo.
   - Ei - disse Gina erguendo o olhar da unha do p que estava pintando. - Aonde voc foi?
   Passei por ela e comecei a tirar as roupas com que tinha ido  escola.
   - Ao quarto de Dunga. Olha, cubra a minha sada, certo? - Vesti uma cala jeans e comecei a amarrar as botas Timberland. - Vou dar uma volta. S diga que estou 
na banheira. Vai ajudar se voc deixar a gua correr. Diga que  clica outra vez.
   - Eles vo comear a achar que voc tem endometriose, ou sei l o qu. - Gina ficou olhando enquanto eu enfiava pela cabea uma blusa preta de gola rul. - Aonde 
voc vai de verdade?
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   - Sair. - Peguei o casaco que tinha usado na outra noite na praia. Desta fez enfiei um gorro no bolso, com as luvas.
   - Ah, claro. Sair. - Gina balanou a cabea, parecendo preocupada. - Suze, voc est bem?
   - Claro que estou. Por qu?
   - Voc est com uma espcie de... bem, um olhar maluco.
   - Estou legal. Eu descobri, s isso.
   - Descobriu o qu? - Gina ps a tampa no vidro de esmalte e se levantou. - Suze, do que voc est falando?
   - O que aconteceu hoje. - Subi no banco da janela. - Com a mangueira de freio. Foi Michael.
   - Michael Meducci? - Gina me olhou como se eu estivesse pirada. - Suze, tem certeza?
   - Tanto quanto de que estou aqui falando com voc.
   - Mas por qu? Por que ele faria isso? Eu achava que ele estava apaixonado por voc.
   - Por mim, talvez - falei dando de ombros enquanto abria a janela ainda mais. - Mas o cara tem um tremendo ressentimento contra Brad.
   - Brad? O que Brad fez contra Michael Meducci?
   - Ficou parado e deixou a irmzinha dele morrer. Bem, quase. Estou saindo, certo, Gina? Explico tudo quando voltar.
   Em seguida passei pela janela e desci no telhado da varanda. L fora estava escuro, frio e silencioso, a no ser pelo barulho dos grilos e o som distante das 
ondas batendo na praia. Ou seria o trfego pela via-expressa? No dava para saber. Depois de prestar ateno por um minuto para ter certeza de que no havia ningum 
l embaixo para me
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ouvir, desci pelo telhado inclinado at a calha, onde me agachei, pronta para pular, sabendo que as agulhas de pinheiro no cho iriam suavizar a queda.
   - Suze! - Uma sombra bloqueou a luz que saa da janela do meu quarto.
   Olhei por cima do ombro. Gina estava inclinada para fora, me olhando ansiosa.
   - A gente no deveria... - Notei, em alguma parte distante da mente, que ela parecia apavorada. - Quero dizer, a gente no deveria chamar a polcia? Se esse negcio 
do Michael for verdade...
   Encarei-a como se ela tivesse sugerido que eu... bem, pulasse da ponte Golden Gate.
   - A polcia? De jeito nenhum. Isto  entre mim e Michael.
   - Suze... - Gina balanou a cabea e seus cachos parecidos com molas se sacudiram. - Isso  srio. Quero dizer, esse cara  um assassino. Eu acho mesmo que a 
gente deveria chamar os profissionais...
   - Eu sou uma profissional - falei ofendida. - Sou mediadora, lembra?
   Gina no pareceu reconfortada com essa informao.
   - Mas... bem, o que voc vai fazer, Suze?
   Dei um sorriso tranqilizador.
   - Ah. Isso  fcil. Vou mostrar a ele o que acontece quando algum tenta matar algum de quem eu gosto.
   E ento pulei do teto para a escurido.
   No consegui me obrigar a pegar o Land Rover. Ah, claro, eu estava perfeitamente disposta a cometer o que era
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praticamente um assassinato, mas dirigir sem carteira? De jeito nenhum! Em vez disso peguei uma das muitas bicicletas de dez marchas que Andy havia colocado junto 
 parede da garagem. Alguns segundos depois estava voando morro abaixo, com lgrimas escorrendo pelo rosto. No porque estivesse chorando nem nada, mas porque o 
vento estava frio demais enquanto eu voava para o Vale.
   Liguei para Michael de um telefone pblico perto do supermercado. Uma mulher mais velha - acho que a me dele - atendeu. Perguntei se podia falar com Michael. 
Ela disse "Sim, claro" daquele jeito agradvel que as mes usam quando os filhos recebem o primeiro telefonema de algum do sexo oposto. E eu conheo muito bem. 
Minha me usa a mesma voz sempre que um garoto me liga e ela atende. No se pode culp-la. Isso  muito raro de acontecer.
   A sra. Meducci deve ter dito a Michael que era uma garota, porque a voz dele soou muito mais profunda do que o normal quando disse al.
   - Michael? - falei, s para ter certeza de que era ele, e no seu pai.
   - Suze? - respondeu ele na voz normal. - Meu Deus, Suze, estou to feliz que  voc! Recebeu meu recado? Devo ter ligado umas dez vezes. Acompanhei a ambulncia 
at o hospital, mas no me deixaram entrar na emergncia para ver voc. Disseram que s se voc fosse internada. E no foi, certo?
   - No. Estou tima.
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   - Graas a Deus. Ah, Suze, voc no faz idia de como fiquei apavorado quando ouvi a batida e percebi que era voc...
   -  - interrompi. - Foi de dar medo. Escuta, Michael, eu estou com outro tipo de dificuldade, e queria saber se voc pode me ajudar.
   - Voc sabe que eu faria qualquer coisa por voc, Suze.
   . Tipo tentar matar meus meios-irmos e minha melhor amiga.
   - Eu estou a p - falei. - No supermercado.  uma histria meio longa. Imaginei se voc poderia...
   - J estou indo - disse Michael. - Chego em trs minutos. E desligou.
   Chegou em dois. Mal tive tempo de colocar a bicicleta entre dois lates de lixo atrs da loja antes de v-lo chegar com seu seda verde alugado, espiando pelas 
vitrines iluminadas do supermercado como se esperasse me ver l dentro montando aquele estpido cavalo mecnico, ou sei l o qu. Aproximei-me do carro vinda do 
estacionamento e me inclinei para bater na janela do carona.
   Michael girou bruscamente, espantado com o som. Ao ver que era eu, seu rosto - mais plido do que nunca  luz fluorescente - relaxou. Ele se esticou e abriu a 
porta.
   - Entre - disse animado. - Cara, voc no sabe como fico feliz em ver que voc est inteira.
   - ? - Entrei no banco do carona e bati a porta. - Bem, eu tambm. Quero dizer, me sinto feliz por estar inteira Ha ha.
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   - Ha ha. - O riso de Michael, em vez de sarcstico como o meu, foi nervoso. Ou pelo menos optei por achar isso. - Bem - disse ele enquanto ficamos parados diante 
do supermercado, com o motor ligado. - Quer que eu leve voc... ... para casa?
   - No. - Virei a cabea para olh-lo.
   Voc pode estar imaginando o que eu estava pensando num momento daqueles. Quero dizer, o que se passa na cabea de uma pessoa quando sabe que est para fazer 
uma coisa que pode resultar na morte de outra?
   Bem, vou contar. No muita coisa. Eu estava pensando que o carro alugado de Michael tinha um cheiro curioso. Estava imaginando se a ltima pessoa que o havia 
usado tinha derramado alguma colnia dentro, ou sei l o qu.
   Ento percebi que o cheiro de colnia vinha do prprio Michael. Aparentemente ele havia borrifado um pouco de Carolina Herrera For Men antes de vir me pegar. 
Que lisonjeiro!
   - Tenho uma idia - falei, como se s tivesse pensado nisso na hora. - Vamos ao Ponto.
   As mos de Michael caram do volante. Ele se apressou em ajeit-las, colocando-as na posio dez para as duas, como bom motorista que era.
   - O qu?
   - Ao Ponto. - Achei que talvez eu no estivesse sendo suficientemente sedutora, ou sei l o qu. Por isso estendi a mo e a pus em seu brao. Ele estava usando 
uma jaqueta de veludo. Embaixo dos meus dedos o veludo era muito
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macio, e embaixo do veludo os bceps de Michael estavam rgidos e redondos como os de Dunga.
   - Voc sabe - falei. - Por causa da vista. Est uma noite linda.
   Michael no perdeu mais tempo. Engrenou o carro e comeou a sair do estacionamento antes que eu tivesse tempo de tirar a mo.
   - Fantstico - disse ele com a voz talvez um pouco insegura, por isso pigarreou e continuou com um pouquinho mais de dignidade: - Quero dizer,  uma idia legal.
   Alguns segundos depois seguamos pela Estrada Pacific Coast. Eram apenas umas dez horas, mas no havia muitos outros carros na estrada. Afinal de contas era uma 
noite de meio de semana. Imaginei se a me de Michael, antes de ele ter sado de casa, tinha dito para ele voltar num determinado horrio. Imaginei que, quando o 
filho no aparecesse na hora marcada, ela iria se preocupar. Quanto tempo esperaria antes de ligar para a polcia? Para a emergncia dos hospitais?
   - Ento ningum se machucou de verdade, no foi? - perguntou Michael. - No acidente.
   - No. Ningum se machucou.
   - Isso  bom.
   - ? - Fingi estar olhando pela janela do carona. Mas na verdade estava olhando o reflexo de Michael.
   - O que voc quer dizer? - perguntou ele rapidamente.
   Dei de ombros.
   - No sei.  s que... bem, voc sabe. Brad.
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   - Ah. - Ele deu um risinho. Mas no havia nenhum humor verdadeiro. - . Brad.
   - Quero dizer, eu tento me dar bem com ele. Mas  to difcil. Porque algumas vezes o Brad consegue ser um tremendo babaca.
   - D para imaginar - disse Michael. Em tom bastante afvel, pensei.
   Virei-me no banco de modo a estar quase de frente para ele.
   - Tipo, sabe o que ele disse esta noite? - perguntei. Sem esperar resposta, fui em frente: - Disse que estava naquela festa. Aquela em que sua irm caiu. Voc 
sabe. Na piscina.
   No creio que tenha sido minha imaginao. Michael apertou o volante com mais fora.
   - Verdade?
   - . E voc devia ter ouvido o que ele falou sobre isso.
   De perfil para mim, o rosto de Michael estava srio.
   - O qu?
   Brinquei com o cinto de segurana preso em volta do meu corpo.
   - No. Eu no deveria contar.
   - No, verdade - disse Michael. - Eu gostaria de saber.
   - Mas  maldoso demais.
   - Diga o que ele falou. - A voz de Michael estava muito calma.
   - Bem. Certo. Ele basicamente disse... e no foi to sucinto assim, porque, como voc sabe, ele  praticamente incapaz de formar frases completas. Mas basicamente 
falou
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que sua irm teve o que merecia porque, para comear, no deveria ter ido quela festa. Disse que ela no foi convidada. Que s pessoas populares deveriam estar 
l. D para acreditar?
   Michael ultrapassou cuidadosamente uma picape.
   - D - respondeu em voz baixa. - Na verdade d.
   - Quero dizer, pessoas populares. Ele realmente disse isso. Pessoas populares. - Balancei a cabea. - E o que define popular?  o que eu gostaria de saber. Quer 
dizer, por que sua irm no era popular? Porque no era atleta? No era chefe de torcida? No tinha as roupas certas? O qu?
   - Todas essas coisas - disse Michael na mesma voz baixa.
   - Como se alguma dessas coisas importasse. Como se ser inteligente, compassiva e gentil com os outros no contasse para nada. No, s o que importa  se voc 
 amiga das pessoas certas.
   - Infelizmente isso  o que geralmente acontece.
   - Bem, eu acho besteira. E falei isso. Ao Brad. Falei tipo: "Ento todos vocs ficaram ali parados enquanto a garota quase morria porque ningum a convidou?" 
Ele negou isso, claro. Mas voc sabe que  verdade.
   -  - disse Michael. Agora estvamos indo por Big Sur, com a estrada se estreitando ao mesmo tempo em que ficava mais escura. - Sei. Se minha irm fosse... bem, 
Kelly Prescott, por exemplo, algum iria tir-la imediatamente, em vez de ficar rindo enquanto ela se afogava.
   Era difcil ver a expresso dele, j que no havia lua. A nica luz era o brilho do painel de instrumentos.
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Michael parecia doentio, e no somente porque a luz era esverdeada.
   - Foi isso que aconteceu? - perguntei a ele. - As pessoas fizeram isso? Riram enquanto ela se afogava?
   Ele assentiu.
   - Foi o que um dos caras da emergncia disse  polcia. Todo mundo achou que ela estava fingindo. - Ele soltou um riso sem humor. - Minha irm... s queria isso, 
sabe? Ser popular. Ser como eles. E eles ficaram ali parados. S ficaram rindo enquanto ela se afogava.
   - Bem - falei. - Ouvi dizer que todo mundo estava bastante bbado. - Inclusive sua irm, pensei, mas no falei alto.
   - Isso no  desculpa. Mas, claro, ningum fez nada a respeito. A garota que deu a festa... os pais dela receberam uma multa. S isso. Minha irm pode nunca mais 
acordar, e eles s receberam uma multa.
   Vi que tnhamos chegado  curva do ponto de observao. Michael buzinou antes de virar. No havia ningum do outro lado. Ele entrou facilmente no estacionamento 
mas no desligou a ignio. Em vez disso ficou parado, olhando para o negrume que era o mar e o cu.
   Fui eu que estendi a mo e desliguei o motor. A luz do painel se apagou um segundo depois, mergulhando-nos na escurido absoluta.
   - Ento - falei. O silncio no carro era ensurdecedor. No havia veculos na estrada atrs de ns. Se eu abrisse a janela, sabia que os sons do vento e das ondas 
entrariam num jorro. Em vez disso continuei parada.
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   Lentamente a escurido em volta do carro ficou menos completa.  medida que meus olhos se acostumavam, pude at mesmo ver o horizonte onde o cu preto se encontrava 
com o mar mais preto ainda.
   Michael virou a cabea.
   - Foi Carrie Whitman - disse ele. - A garota que deu a festa.
   Assenti, sem afastar o olhar do horizonte.
   - Eu sei.
   - Carrie Whitman - repetiu ele. - Carrie Whitman estava naquele carro. O que voou pelo penhasco na noite de sbado.
   - Quer dizer - falei em voz baixa -, o carro que voc empurrou pelo penhasco na noite de sbado.
   A cabea de Michael no se moveu. Olhei para ele mas no pude ver sua expresso.
   No entanto pude ouvir a resignao na voz.
   - Voc sabe. - Era uma declarao, e no uma pergunta. - Eu achei que talvez soubesse.
   - Quer dizer, depois de hoje? - Soltei o cinto de segurana. - Quando voc quase me matou?
   - Sinto muito. - Ele baixou a cabea e finalmente pude ver seus olhos. Estavam cheios de lgrimas. - Suze, no sei como  que eu...
   - No houve nenhum seminrio sobre vida extraterrestre naquele instituto, houve? - Encarei-o. - Quero dizer, no sbado passado. Voc veio at aqui e afrouxou 
os parafusos da grade de proteo. Depois ficou sentado esperando
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por eles. Voc sabia que eles viriam para c depois do baile. Sabia que eles viriam, e esperou. E quando ouviu aquela buzina estpida, bateu neles. Empurrou o carro 
pela lateral do penhasco. E fez isso a sangue-frio.
   Ento Michael fez uma coisa surpreendente. Estendeu a mo e tocou meu cabelo no ponto em que ele se enrolava saindo do gorro de tric que eu estava usando.
   - Eu sabia que voc iria entender - disse ele. - Desde o momento em que vi voc, soube que, de todo mundo, seria a nica a entender.
   Senti vontade de vomitar. De verdade. Ele no sacou. No sacou absolutamente nada. Quero dizer, ser que o cara nem pensou na me? Em sua pobre me que tinha 
ficado to empolgada porque uma garota ligou para ele? Na me que j estava com uma filha no hospital? No tinha pensado em como a me iria se sentir quando ficasse 
claro que seu nico filho era um assassino? No tinha pensado nem um pouco nisso?
   Talvez tivesse. Talvez tivesse pensado que ela ficaria satisfeita. Porque tinha vingado o que aconteceu com a irm. Bem, quase. Ainda havia algumas pontas soltas 
na forma de Brad... e de todos os outros que tinham estado na festa, acho. Quero dizer, por que parar no Brad? Imaginei como ele havia conseguido a lista de convidados, 
e se pretendia matar todos ou apenas alguns poucos escolhidos.
   - Mas como voc soube? - perguntou ele no que eu acho que pretendia ser sua voz mais suave. Mas que s me deu mais vontade ainda de vomitar. - Sobre a grade de 
proteo. E sobre a buzina do carro deles. Isso no saiu nos jornais.
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   - Como soube? - Afastei a cabea do alcance de Michael. - Eles me contaram.
   Michael pareceu meio magoado por eu afastar a cabea.
   - Eles contaram? Quem?
   - Carrie. E Josh, Felicia e Mark. O pessoal que voc matou.
   Sua expresso magoada ficou diferente. Passou de confusa a espantada, depois a cnica, tudo em questo de segundos.
   - Ah - disse ele com um risinho. - Certo. Os fantasmas. Voc tentou me alertar sobre eles antes, no foi? Na verdade, aqui mesmo.
   S fiquei olhando para ele.
   - Ria o quanto quiser. Mas o fato, Michael,  que eles j esto querendo matar voc h um tempo. E depois do que voc fez hoje com o Rambler, estou pensando seriamente 
em deixar.
   Michael parou de rir.
   - Suze. Fora sua estranha fixao com o mundo espiritual, eu lhe disse: hoje foi um acidente. Voc no deveria estar naquele carro. Deveria ir para casa comigo. 
Era o Brad. Era o Brad que eu queria morto, e no voc.
   - E quanto ao David? Meu irmo mais novo? Ele tem doze anos, Michael. E estava naquele carro. Voc queria o David morto tambm? E Jake? Jake provavelmente estava 
entregando pizzas na noite em que sua irm se machucou. Ser que ele deveria morrer pelo que aconteceu com ela? Ou minha amiga Gina? Acha que ela merece morrer tambm, 
mesmo nunca tendo ido a uma festa no Vale?
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   O rosto de Michael estava branco de encontro aos pedaos do cu que dava para ver pela janela atrs de sua cabea.
   - Eu no queria machucar ningum - falou em voz inexpressiva. - Quero dizer, ningum a no ser o culpado.
   - Bom, voc no fez um bom trabalho. Na verdade fez um pssimo trabalho. Fez uma tremenda besteira. E sabe por qu?
   Vi suas plpebras se estreitarem por trs dos culos.
   - Acho que estou comeando a saber.
   - Porque tentou matar algumas pessoas de quem, por acaso, eu gosto. - Engoli em seco. Alguma coisa dura, que doa, estava crescendo na minha garganta. - E  por 
isso, Michael, que a coisa vai parar. Aqui. Agora.
   Ele continuou a me encarar com as plpebras apertadas.
   - Ah - falou na mesma voz inexpressiva. - Vai parar mesmo. Acredite em mim.
   Eu sabia onde ele queria chegar. Quase ri. Se no fosse o calombo doloroso na garganta, teria rido.
   - Michael. Nem tente. Voc no sabe com quem est mexendo.
   - No - disse ele em voz baixa. - Acho que no sei, no ? Eu pensei que voc era diferente. Pensei que, dentre todo mundo na escola, voc poderia ver as coisas 
pelo meu ponto de vista. Mas agora d para notar que  apenas como todos os outros.
   - Voc no faz idia do quanto eu gostaria de ser.
   - Sinto muito, Suze - disse Michael soltando seu cinto de segurana. - Eu realmente achei que ns poderamos
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ser... amigos, pelo menos. Mas estou tendo a ntida impresso de que voc no aprova o que andei fazendo. Ainda que ningum, ningum, v sentir falta daquelas pessoas. 
Elas realmente eram um desperdcio de espao, Suze. No tinham nada de importante para contribuir. Quero dizer, olhe s o Brad. Seria uma tragdia to grande se 
ele simplesmente deixasse de existir?
   - Seria, para o pai dele - falei.
   Michael deu de ombros.
   - Acho que seria. Mesmo assim creio que o mundo seria um lugar melhor sem todos os Josh Saunders e Brad Ackermans. - Ele sorriu para mim. Mas no havia nada de 
caloroso naquele sorriso. - Mas voc discorda, d para ver. Parece at que est pensando em tentar me impedir. E realmente no posso admitir isso.
   - Ento o que voc vai fazer? - Dei-lhe um olhar muito sarcstico. - Me matar?
   Ento ele estalou os ns dos dedos. Ser que posso dizer que achei isso bem arrepiante? Bem, fora o fato de que estalar os ns dos dedos na frente de algum  
arrepiante, esse gesto foi especialmente perturbador porque atraiu minha ateno para o fato de que as mos de Michael eram bem grandes, e estavam ligadas queles 
braos que, pelo que eu me lembrava da tarde na praia, eram notavelmente musculosos e cheios de cartilagens grossas. Eu no sou exatamente uma flor delicada, mas 
mos ligadas a um par de braos daqueles podiam causar srios danos a uma garota como eu.
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   - Acho que voc no me deixou muita escolha, no ? - disse Michael.
   Ah, claro. Por que no culpar a vtima?
   No sei se falei as palavras em voz alta ou se simplesmente pensei. S soube que elas eram "Esta seria uma boa hora para Josh e seus amigos aparecerem". E um 
segundo depois Josh Saunders, Carrie Whitman, Mark Pulsford e Felicia Bruce apareceram, parados no cascalho ao lado da porta do carona.
   Ficaram ali piscando por um segundo, como se no soubessem o que tinha acontecido. Depois olharam para alm de mim, para o garoto atrs do volante.
   E foi ento que o inferno se abriu ao meio.
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Captulo 18
   
   Era isso que eu pretendia que acontecesse o tempo todo?
   No sei. Certamente houvera um momento no quarto de Dunga em que fui tomada por uma espcie de fria Foi a fria, e no os pedais da bicicleta, que me levou para 
o Vale, e foi a fria que me fez colocar uma moeda naquele telefone pblico e ligar para Michael.
   Mas parte dessa fria se dissipou quando falei com a me de Michael. Sim, ele era um assassino. Sim, ele tinha tentando me matar e matar vrias pessoas de quem 
eu gostava.
   Mas tinha uma me. Uma me que o amava a ponto de se empolgar porque uma garota estava telefonando para ele, talvez pela primeira vez na vida.
   Mesmo assim entrei naquele carro. Falei para ele ir ao Ponto, mesmo sabendo o que o esperava. E fiz com que ele admitisse. Tudo. Em voz alta.
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   E ento os chamei. No havia dvida disso. Chamei os Anjos da RLS. E quando eles apareceram, tudo que fiz foi sair calmamente do carro.
   Isso mesmo. Sa do caminho. E deixei que eles fizessem o que estavam querendo h tanto tempo... desde a noite em que tinham morrido.
   Olha, no sinto orgulho disso. E no posso dizer que fiquei ali parada, olhando, com prazer. Quando o cinto de segurana que Michael havia tirado se enrolou subitamente 
em sua garganta e o banco ajustvel do carro comeou a se inclinar inexoravelmente em direo ao volante, esmagando suas pernas, no me senti bem.
   Mas os Anjos pareciam estar se sentindo.
   E provavelmente deviam se sentir. Dava para ver que seus poderes telecinticos haviam melhorado muito. Agora no estavam mexendo com algas marinhas ou enfeites 
de carnaval. A fora de seu poder combinado era suficiente para acender as luzes e os limpadores de pra-brisa do carro alugado. Pelas janelas levantadas pude ouvir 
o rdio se ligar. Britney Spears estava gemendo sua ltima dor de cotovelo enquanto Michael Meducci agarrava o cinto de segurana em volta do pescoo. O carro tinha 
comeado a balanar e estava fantasmagoricamente iluminado por dentro, quase como se as luzes do painel fossem lmpadas halgenas.
   E o tempo todo os Anjos da RLS estavam ali parados em silncio, com as mos estendidas para o carro e o olhar fixo em Michael. Puxa, at para fantasmas eles pareciam
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assustadores, brilhando daquele modo irreal; as meninas de vestido longo e pulseiras com flores, os garotos de smoking. Estremeci olhando-os, e no era s por causa 
da brisa fria que vinha do oceano.
   Odeio dizer, mas foi Britney que quebrou o feitio para mim. Bom, d para gostar dela, mas morrer ouvindo aquilo? No sei. Pareceu meio pesado demais.
   E havia a pobre sra. Meducci. Ela j havia perdido uma filha - bem, mais ou menos. Ser que eu podia simplesmente ficar ali parada vendo-a perder o filho?
   Minutos - talvez at segundos - antes, a resposta a essa pergunta poderia ter sido sim. Mas quando chegou a hora no pude. No pude, apesar do que Michael tinha 
feito. Eu simplesmente tinha muitos anos de mediao nas costas. Anos demais e mortes demais. No podia ficar ali parada deixando que mais uma acontecesse diante 
dos meus olhos.
   O rosto de Michael estava contorcido e roxo, com os culos tortos, quando finalmente gritei: - Parem!
   Instantaneamente o carro parou de balanar. Os limpadores de pra-brisa se imobilizaram. A voz de Britney foi cortada no meio de uma nota e o banco de Michael 
comeou a deslizar lentamente para trs. O cinto se afrouxou em volta de seu pescoo o bastante para ele ofegar. Michael desmoronou de encontro ao encosto, parecendo 
confuso e apavorado, com o peito arfando.
   Josh olhou para mim como se algum o tivesse acordado de um transe.
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   - O qu? - perguntou ele, parecendo incomodado.
   - Desculpem - falei. - Mas no posso deixar vocs fazerem isso.
   Josh e os outros se entreolharam. Mark foi o primeiro a falar. Deu um risinho e disse:
   - Ah, certo.
   Ento o rdio foi ligado de novo, e de repente o carro estava balanando nos amortecedores.
   Reagi rpida e decisivamente dando um soco na barriga de Mark Pulsford. Isso foi o suficiente para afastar a concentrao dos Anjos e permitir que Michael pudesse 
abrir a porta e se jogar para fora do carro antes que mais algum pudesse comear a estrangul-lo. Ficou cado no cascalho, gemendo.
   Mark, por outro lado, se recuperou bem depressa de meu ataque.
   - Vaca - disse ele, parecendo ligeiramente ofendido. - Qual  a sua?
   - . - Josh estava claramente lvido. Seus olhos azuis pareciam pedaos de gelo brilhando para mim. - Primeiro diz que a gente no pode mat-lo. Depois diz que 
pode. Depois diz que no pode. Bem, sabe de uma coisa? Estamos cansados dessa droga de mediao. Vamos matar esse cara e ponto final.
   Foi ento que o carro comeou a balanar a ponto de parecer que ia capotar em cima de Michael.
   - No! - gritei. - Olha, eu estava errada, certo? Quero dizer, ele tentou me matar tambm, e admito que fiquei meio pirada. Mas acreditem, esse no  o modo...
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   - Fale por voc - disse Josh.
   E um segundo depois eu estava voando para trs, jogada longe por um choque de energia to forte que me convenci de que o carro de Michael havia explodido.
   S quando ca violentamente na terra, no lado mais distante do estacionamento, percebi que no tinha sido o carro explodindo. Tinha sido meramente a fora combinada 
do poder psquico dos Anjos, lanada casualmente na minha direo. Eu fora jogada longe com tanta facilidade quanto uma formiga numa mesa de piquenique.
   Acho que foi a que eu soube que estava numa encrenca de verdade. Percebi que tinha liberado um monstro. Ou quatro, melhor dizendo.
   Estava lutando para ficar de p outra vez quando Jesse se materializou ao meu lado, parecendo quase to furioso quanto Josh.
   - Nombre de Dios - ouvi-o ofegar enquanto absorvia a viso  sua frente. Depois me olhou. - O que est acontecendo aqui? - perguntou, estendendo uma das mos 
para me ajudar a ficar de p. - Eu dei as costas um segundo e eles sumiram. Foi voc que os chamou?
   Encolhendo-me - e no de dor - segurei sua mo e deixei que ele me levantasse.
   - Chamei - admiti, limpando a sujeira da roupa. - Mas no... bem, no queria que isso acontecesse.
   Jesse olhou para Michael, que estava andando de quatro pelo estacionamento, tentando se afastar do prprio carro que girava.
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   - Nombre de Dios, Suzannah - disse Jesse outra vez, incrdulo. - O que voc esperava que acontecesse? Voc traz o garoto logo aqui? E agora pede para eles no 
o matarem?
   - Balanando a cabea, Jesse comeou a andar na direo dos Anjos.
   - Voc no entende - protestei, correndo atrs dele. - Ele tentou me matar. E tentou matar Mestre, Gina, Dunga e...
   - E ento voc faz isso? Suzannah, voc j no sabe que no  uma assassina? - Os olhos escuros de Jesse se cravaram em mim. - Por favor, no tente agir como 
se fosse. A nica pessoa que vai acabar se machucando com isso  voc.
   Fiquei to abalada com a censura em sua voz que lgrimas me encheram os olhos. Srio. Lgrimas de verdade. De fria. Foi o que disse a mim mesma. Estava chorando 
porque fiquei furiosa com ele. No porque ele havia magoado meus sentimentos. De jeito nenhum.
   Mas Jesse no notou minha fria. Tinha me dado as costas e ento foi at os Anjos. Um segundo depois o carro parou de se sacudir, os limpadores de pra-brisa 
e o rdio se desligaram e as luzes se apagaram. Os Anjos eram fortes, verdade. Mas Jesse estava morto h muito mais tempo.
   - Voltem  praia - disse ele.
   Josh riu alto.
   - Est brincando comigo, no ?
   - No estou brincando.
   - De jeito nenhum - reagiu Mark Pulsford.
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   - . - Carrie apontou para mim. - Puxa, ela chamou a gente. Ela disse que podia.
   Jesse no virou a cabea na direo em que Carrie apontou. Estava bastante claro que se sentia enojado comigo.
   - Agora ela diz que no pode - informou Jesse. - Vocs faro o que ela diz.
   - Voc no sacou? - Os olhos de Josh estavam relampejando outra vez, brilhando com a energia psquica da qual estava to cheio. - Ele matou a gente. Ele matou 
a gente.
   - E vai ser punido por isso - disse Jesse em tom calmo.
   - Mas no por vocs.
   - Ento por quem?
   - Pela lei - respondeu Jesse.
   - Besteira! - explodiu Josh. - Isso  besteira, cara! A gente est esperando o dia inteiro pela lei! O velho disse que era isso que ia acontecer, mas no estou 
vendo esse garoto ser levado pelos caras de uniforme azul. Voc est? No acho que isso v acontecer. Ento deixe a gente dar uma lio do nosso modo.
   Jesse balanou a cabea. Era um gesto perigoso diante dos quatro jovens fantasmas furiosos e descontrolados que o enfrentavam. Mas mesmo assim fez isso.
   Dei um passo mais para perto de Jesse ao ver os Anjos da RLS brilhando de fria. Fiquei na ponta dos ps para ele me ouvir quando sussurrei:
   - Eu pego as garotas. Voc pega os garotos.
   - No. - A expresso de Jesse era sria. - V, Suzannah.
   Quando eles estiverem ocupados comigo corra para a estrada
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e pare o prximo automvel que vir. Depois v embora em segurana.
   Ah, . Certo.
   - E deixar voc lidar com eles sozinho? - Olhei-o irritada. - Ficou maluco?
   - Suzannah - sibilou ele. - Voc no entende. Eles vo mat-la...
   Ri. Ri mesmo, toda a minha raiva contra ele havia sumido.
   Jesse estava certo. Eu no entendia.
   - Deixe que eles tentem - falei.
   Foi ento que nos atacaram.
   Acho que os Anjos deviam ter combinado um arranjo parecido com o que eu havia tentado fazer com Jesse, j que as garotas vieram para cima de mim e os rapazes 
para Jesse. No fiquei muito chateada. Quero dizer, dois contra um  injusto, mas, a no ser pelo negcio do poder telecintico, eu achava que estvamos niveladas. 
Carrie e Felicia no haviam sido briguentas enquanto eram vivas - isso ficou claro no instante em que me atacaram -, de modo que no tinham uma idia slida de onde 
era melhor aplicar um soco para causar mais dor.
   Pelo menos foi o que pensei antes que elas comeassem a me acertar. A coisa com que eu no tinha contado era que essas garotas - como seus namorados - estavam 
muito, muito furiosas.
   E se voc pensar bem, eles tinham todo o direito. Certo, talvez tivessem sido uns panacas enquanto eram vivos -
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no me pareciam exatamente o tipo de pessoas com quem eu gostaria de andar, com sua obsesso por festas e atitudes elitistas - mas eram jovens. Provavelmente cresceriam 
e virariam cidados, ainda que no sensveis, pelo menos produtivos.
   Mas Michael Meducci havia interrompido isso. E por isso eles estavam doidos de pedra.
   Acho que voc pode argumentar que o comportamento deles no fora exatamente imune a censuras. Quero dizer, tinham dado aquela festa em que Lila Meducci se ferrou, 
devido no somente  prpria estupidez mas tambm  negligncia deles - e dos pais.
   Mas pareciam no pensar nisso. No. Para os Anjos da RLS eles tinham sido trapaceados. Foram trapaceados e perderam a vida. E algum teria de pagar por isso.
   Esse algum era Michael Meducci. E qualquer um que tentasse ficar no caminho desse objetivo.
   A fria deles era sinistra. Srio. No creio que eu j tenha estado to completamente, cem por cento furiosa como aqueles fantasmas. Ah, j fiquei louca da vida, 
claro. Mas nunca a tal ponto, e nunca por tanto tempo.
   Os Anjos da RLS estavam furiosos. E jogaram essa fria contra Jesse e contra mim.
   Nem vi o primeiro soco. Fez com que eu girasse do mesmo modo como a picape fez com o Rambler. Senti meu lbio se partir. O sangue jorrou como uma fonte no rosto. 
Parte dele pingou nos vestidos de baile das garotas. Elas nem notaram. S bateram de novo.
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   No quero que voc pense que no bati de volta. Eu bati. Eu era boa. Boa mesmo.
   S que no o bastante. Tive de reavaliar toda a minha teoria sobre aquele negcio de duas contra uma. No era justo. Felicia Bruce e Carrie Whitman estavam me 
matando.
   E no havia absolutamente nada que eu pudesse fazer.
   Nem podia olhar para ver se Jesse estava se saindo melhor do que eu. A cada vez que virava a cabea parecia que outro punho me acertava. Em pouco tempo no conseguia 
enxergar. Meus olhos estavam cheios de sangue, que parecia escorrer de um corte na testa. Ou isso ou alguns vasos sanguneos nos olhos tinham estourado com a fora 
daqueles socos. Esperava que Jesse ao menos estivesse bem. Afinal, ele no podia morrer. No como eu. A nica coisa que continuava me passando pela cabea era: bem, 
se elas me matarem, finalmente vou saber para onde todo mundo vai. Depois de ser despachado por um mediador, claro.
   Num determinado ponto, durante o ataque de Felicia e Carrie, eu tropecei em alguma coisa - algo quente e meio macio. No tive certeza do que era - no podia ver, 
claro - at que aquilo gemeu meu nome.
   - Suze - disse a coisa.
   A princpio no reconheci a voz. Depois percebi que a garganta de Michael devia ter sido esmagada por aquele cinto. Ele s conseguia grasnar.
   - Suze - chiou ele. - O que est acontecendo?
   O terror na sua voz mostrava que provavelmente se sentia to apavorado agora quanto Josh, Carrie, Mark e Felicia
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tinham estado quando ele acertou o carro deles e os mandou voando para a morte. Bem feito, pensei em alguma parte distante da mente que no estava se concentrando 
em tentar escapar dos socos que choviam em cima de mim.
   - Suze - gemeu Michael embaixo de mim. - Faa com que isso pare.
   Como se eu pudesse. Como se eu tivesse algo parecido com controle sobre o que estava me acontecendo. Se eu sobrevivesse a isso - o que no parecia provvel - 
seriam feitas algumas grandes mudanas. Em primeiro lugar, ia praticar kick-boxing com muito mais dedicao.
   Ento alguma coisa aconteceu. No posso dizer o que era porque, como falei, eu no conseguia enxergar.
   Mas conseguia ouvir. E o que ouvi talvez tenha sido o som mais doce que j escutei na vida.
   Era uma sirene. Polcia, carro de bombeiro, a ambulncia, no sei. Mas estava chegando perto, mais perto, mais perto ainda at que, de repente, pude ouvir os 
pneus do veculo esmagando o cascalho diante de mim. Os socos que choviam sobre meu corpo pararam abruptamente, e eu ca frouxa contra Michael, que estava me empurrando 
debilmente, dizendo:
   - A polcia. Saia de cima de mim.  a polcia. Preciso ir embora.
   Um segundo depois mos tocavam em mim. Mos quentes. No mos de fantasma. Mos humanas. Ento uma voz de homem estava dizendo:
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   - No se preocupe, moa. Ns estamos aqui. Estamos aqui. Voc consegue ficar de p?
   Eu conseguia, mas ficar de p provocava ondas de dor que me atravessavam. Reconheci a dor. Era o tipo de dor to intensa que parecia ridcula... to ridcula 
que comecei a rir. Verdade. Porque era simplesmente engraado alguma coisa doer tanto. Uma dor assim significava que alguma coisa, em algum lugar, estava quebrada.
   Em seguida havia alguma coisa macia apertada embaixo de mim, e mandaram que eu me deitasse. Mais dor - dor que queimava, que rasgava, dor que me deixou rindo 
debilmente. Outras mos me tocaram.
   Ento escutei uma voz familiar chamando meu nome, como se viesse de um lugar muito distante.
   - Suzannah. Suzannah, sou eu, o padre Dominic. Est me ouvindo, Suzannah?
   Abri os olhos. Algum tinha enxugado o sangue. Dava para enxergar de novo.
   Eu estava deitada numa maca de ambulncia. Luzes vermelhas e brancas piscavam a minha volta. Dois paramdicos cuidavam do ferimento no couro cabeludo.
   Mas no era isso que doa. Era o peito. As costelas. Eu tinha partido algumas. Dava para sentir.
   O rosto do padre Dominic pairou acima da maca. Tentei sorrir - tentei falar - mas no conseguia. Meu lbio estava machucado demais.
   - Gina me ligou - disse o padre Dominic, acho que em resposta ao olhar interrogativo que lhe dei. - Ela disse que
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voc ia se encontrar com Michael. Achei, depois que ela contou o que voc disse sobre o acidente de hoje, que era para aqui que voc iria traz-lo. Ah, Suzannah, 
como gostaria de que voc no tivesse feito isso!
   - E - disse um dos paramdicos. - Parece que o cara trabalhou direitinho nela.
   - Ei. - O parceiro dele estava rindo. - Quem voc quer enganar? Ela levou mas deu de monto. O garoto est um estrago s.
   Michael. Estavam falando de Michael. De quem mais podia ser? Nenhum deles - a no ser o padre Dominic - podia ver Jesse ou os Anjos da RLS. S podiam ver ns 
dois, Michael e eu, ambos espancados, aparentemente quase at a morte. Claro que presumiram que tnhamos feito isso um com o outro. Quem mais havia para culpar?
   Jesse. Lembrando dele, meu corao comeou a martelar no peito partido. Onde estava Jesse? Levantei a cabea, olhando em volta e procurando-o freneticamente no 
que havia se tornado um mar de policiais uniformizados. Ser que Jesse estava bem?
   O padre Dominic entendeu mal meu pnico. Falou em tom tranqilizador:
   - Michael vai ficar bem. Est com a laringe muito machucada, alguns cortes e hematomas. S isso.
   - Ei. - O paramdico se empertigou. Estavam se preparando para me colocar na ambulncia. - No se venda por pouco, garota. - O sujeito estava falando comigo. 
- Voc o pegou de jeito. Ele no vai esquecer essa pequena aventura por muito tempo, acredite.
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   - No com todo o tempo que ele vai passar atrs das grades por causa disso - falou o parceiro, piscando.
   E, sem dvida, enquanto me colocavam na ambulncia pude ver que Michael no estava, como eu tinha esperado, numa outra ambulncia, e sim na parte de trs de um 
camburo. Suas mos pareciam algemadas s costas. A garganta devia doer, mas ele estava falando. Falava rpida e ansiosamente, se a expresso em seu rosto indicava 
alguma coisa, a um homem de terno que eu s pude presumir que fosse algum tipo de detetive de polcia. Ocasionalmente o homem anotava alguma coisa numa prancheta.
   - Est vendo? - riu o primeiro paramdico para mim. - Cantando como um canrio. Voc no vai ter de se preocupar em dar de cara com ele na escola na segunda-feira. 
No por um longo tempo.
   Michael estava confessando?, eu pensava. Nesse caso, o qu? O que fez com os Anjos? O que fez com o Rambler?
   Ou estaria meramente explicando ao detetive o que lhe aconteceu? Que fora atacado por alguma fora invisvel, incontrolvel - a mesma fora que tinha partido 
minhas costelas, aberto minha cabea e arrebentado meu lbio?
   Pela cara do detetive, o que Michael estava contando no era to extraordinrio assim. Mas por acaso eu sei, pela experincia, que a expresso dos detetives  
sempre essa.
   No momento em que estavam fechando as portas da ambulncia o padre Dominic gritou:
   - No se preocupe, Suzannah. Eu aviso  sua me onde achar voc.
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   Posso dizer que, se a inteno era me tranqilizar, no tranqilizou nem um pouco.
   Mas logo depois a morfina bateu. Descobri que, felizmente, no me importava mais.
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Captulo 19
   
   No foi nem um pouco assim que eu imaginei passar as frias de primavera - disse Gina.
   - Ei. - Ergui a vista do exemplar da Cosmo que ela havia trazido. - Eu pedi desculpa. O que mais voc quer?
   Gina pareceu surpresa com a veemncia do meu tom de voz.
   - No estou dizendo que no me diverti. S estou dizendo que no foi assim que eu visualizei.
   - Ah, certo. - Joguei a revista de lado. - , foi bem divertido me visitar no hospital.
   Eu no podia falar muito rpido por causa dos pontos no lbio. E no conseguia pronunciar muito bem. No fazia idia da minha aparncia - mame tinha instrudo 
todo mundo, inclusive os funcionrios do hospital, a no me permitir acesso a espelhos, o que, claro, me levou a acreditar que estava medonha; mas provavelmente 
foi um gesto
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sensato, pensando em como eu fico quando estou com uma espinha. Mesmo assim, uma coisa era certa: eu soava como uma estpida.
   - So s mais umas horas - disse Gina. - At eles pegarem o resultado da segunda ressonncia magntica. Se for normal, voc vai estar livre para ir embora. E 
ns duas podemos ir  praia de novo. E dessa vez - ela olhou para a porta do quarto particular para garantir que estivesse fechada e ningum pudesse ouvir - no 
vai ter nenhum fantasma intrometido para estragar tudo.
   Bem, isso era verdade. A priso de Michael, ainda que fosse um anticlmax, tinha satisfeito aos Anjos. Eles provavelmente prefeririam v-lo morto, mas assim que 
o padre Dominic os convenceu de como um garoto sensvel como Michael acharia terrvel o sistema penal da Califrnia, eles abandonaram imediatamente a fria assassina. 
At pediram ao padre Dominic para dizer a mim e a Jesse que lamentavam ter nos espancado at virarmos picadinho.
   Eu, de minha parte, no estava exatamente pronta a perdo-los, mesmo depois de o padre D ter me garantido que os Anjos tinham se mudado para seus destinos ps-vida 
- quaisquer que fossem - e no me incomodariam mais.
   Desconheo a opinio de Jesse. Ele no se dignou a honrar o padre Dom ou a mim com sua presena desde a noite em que os Anjos tinham nos atacado. Achei que devia 
estar muito chateado comigo. Eu no o culpava, exatamente, sabendo que a culpa de tudo tinha sido minha. Mesmo assim gostaria de que ele aparecesse, nem que fosse 
para gritar
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mais um pouco comigo. Sentia saudade. Mais do que era provavelmente saudvel.
   Maldita Madame Zara, por estar to certa!
   - Voc deveria ouvir o que todo mundo est falando a seu respeito na escola - disse Gina. Ela estava empoleirada na beira da cama hospitalar, j de biquni, sobre 
o qual tinha posto um minivestido com estampa de ona. Queria perder o mnimo de tempo possvel quando finalmente chegssemos  praia.
   - Ah, ? - Tentei arrastar os pensamentos para longe de Jesse. No foi fcil. - O que esto dizendo?
   - Bem, sua amiga Cee Cee est escrevendo uma matria sobre voc no jornal da escola... sabe?, a abordagem tipo detetive amadora, como voc sacou que foi Michael 
que cometeu todos aqueles crimes hediondos e fez uma armadilha para ele...
   - Coisa que tenho certeza de que ela ouviu de voc - falei secamente.
   Gina fez ar de inocncia.
   - No sei do que voc est falando! Adam mandou aquilo - Gina apontou para um enorme buqu de rosas cor-de-rosa no parapeito da janela - e o sr. Walden, segundo 
Jake, est fazendo uma vaquinha para comprar uma coleo completa dos livros de Nancy Drew para voc.
   Parece que ele acha que voc tem uma fixao por solucionar crimes.
   O sr. Walden estava certo sobre isso. Mas minha fixao no era por solucionar crimes.
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   - Ah, e o seu padrasto est pensando em comprar um Mustang para substituir o Rambler.
   Fiz uma careta. E me arrependi. Era difcil fazer qualquer tipo de expresso com o lbio machucado, para no mencionar os pontos no couro cabeludo.
   - Um Mustang? - Balancei a cabea. - Como  que ns todos vamos caber num Mustang?
   - No  para vocs. Para ele. Ele vai dar o Land Rover a vocs.
   Bem, pelo menos isso fazia sentido.
   - E quanto a... - Eu queria perguntar sobre Jesse. Afinal de contas ela estava dividindo um quarto com ele. Sozinha, graas ao fato de eu ter passado a noite 
no hospital, em observao. S Gina no sabia. Quero dizer, sobre o Jesse. Eu ainda no tinha contado.
   E agora, bem, no parecia haver motivo para contar. Pelo menos agora que ele no estava mais falando comigo.
   - E Michael? - perguntei em vez disso. Nenhum dos meus visitantes (mame e meu padrasto, Soneca, Dunga e Mestre; Cee Cee e Adam; at mesmo o padre Dom) queriam 
me falar qualquer coisa sobre ele. Os mdicos tinham dito que o assunto poderia ser "doloroso demais" para discutir comigo.
   At parece! Quer saber o que  doloroso? Vou dizer o que  doloroso. Ter duas costelas quebradas e saber que durante semanas voc vai ter de usar um maio na praia 
para esconder os hematomas.
   - Michael? - Gina deu de ombros. - Bem, voc estava certa. Aquilo que falou sobre ele manter coisas no computador.
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A polcia conseguiu um mandado e confiscou o PC, e estava tudo ali: dirios, e-mails, o esquema do sistema de freio do Rambler. Alm disso acharam a chave-inglesa 
que ele usou. Voc sabe, nos parafusos que prendiam a grade de proteo. Combinaram com as marcas no metal. E o alicate que ele usou para cortar a mangueira de freio 
do Rambler. Eles encontraram fluido de freio nas lminas. Parece que o cara no limpou muito bem a sujeira. Eu que o diga.
   Foi preso sob quatro acusaes de assassinato - os Anjos da RLS - e seis de tentativa de assassinato: cinco para ns que estvamos no Rambler na tarde em que 
os freios pifaram e uma pelo que a polcia se convenceu de que fora um atentado contra minha vida no Ponto.
   No os corrigi. Quero dizer, no dava para ir l e dizer: "Ah, sabe dos meus ferimentos? , no foi o Michael. No, os fantasmas de suas vtimas fizeram isso 
porque eu no queria deixar que elas o matassem."
   Achei que no fazia mal deixar que pensassem que Michael era o responsvel por minhas costelas quebradas e os quatorze pontos na cabea... para no falar dos 
dois no lbio. Quero dizer, afinal de contas, ele ia me matar. Os Anjos s tinham interrompido. Se voc pensar bem, eles tinham salvado minha vida. . Para poderem 
me matar.
   - Ento escute - estava dizendo Gina. - Seu castigo, voc sabe, por ter sado sem autorizao e entrado num carro com Michael quando sua me mandou expressamente 
que
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no fizesse isso, s deve comear depois de eu ir embora. Portanto digo que devemos passar os prximos quatro dias na praia. Tipo, de jeito nenhum voc vai  escola. 
Pelo menos com essas costelas quebradas. No vai poder se sentar. Mas certamente pode deitar, sabe, numa toalha. Eu posso convencer sua me a deixar isso, pelo menos.
   - Parece bom.
   - Ex - disse Gina. Aparentemente queria dizer excelente, s que tinha abreviado. Do modo como Soneca costumava abreviar as palavras porque era preguioso demais
para falar as slabas inteiras. Assim pizza virava "za", Gina virou "Gi". Percebi que minha amiga tinha mais coisas em comum com Soneca do que eu supunha.
   - Vou pegar uma Diet Coke - disse ela, descendo da cama com cuidado para no sacudir o colcho porque a enfermeira j havia entrado duas vezes e dito para no 
fazer isso. Como se eu no tivesse consumido Tylenol com codena suficiente para bloquear a dor. Algum poderia jogar um cofre na minha cabea e eu provavelmente 
no iria sentir.
   - Quer? - perguntou Gina, parada  porta.
   - Claro. S veja...
   - Sei, sei - disse ela por cima do ombro enquanto a porta se fechava lentamente. - Eu acho um canudinho por a.
   Sozinha no quarto ajeitei os travesseiros cuidadosamente e fiquei ali sentada, olhando para o vazio. As pessoas que tomam tantos analgsicos quanto eu costumam 
fazer isso.
   Mas no estava pensando no vazio. Estava pensando no que o padre Dominic tinha falado quando me visitou
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algumas horas antes. No que s poderia ser a mais cruel das ironias: na manh depois da priso de Michael, a irm dele, Lila Meducci, acordou do coma.
   Ah, ela no se sentou e pediu uma tigela de Cheerios nem nada. Ainda estava pssima. Segundo o padre D, demoraria meses, talvez anos de reabilitao para voltar 
ao que era antes do acidente - se  que voltaria. Iria passar muito tempo at poder andar, falar, talvez at comer sozinha como antes.
   Mas estava viva. Viva e consciente. No era um grande prmio de consolao para a pobre sra. Meducci, mas j era alguma coisa.
   Foi enquanto eu estava refletindo nas arbitrariedades da vida que ouvi algo farfalhando. Virei a cabea bem a tempo de pegar Jesse tentando se desmaterializar.
   - Ah, no, voc no vai fazer isso - falei enquanto sentava. E provocava uma tremenda dor nas costelas. - Volte aqui agora mesmo!
   Ele voltou, com uma expresso acanhada.
   - Achei que voc estava dormindo. Por isso decidi retornar mais tarde.
   - Cascata. Voc viu que eu estava acordada, por isso ia retornar mais tarde quando tivesse certeza de que eu estaria dormindo. - No dava para acreditar. No 
dava para acreditar no que eu o tinha apanhado tentando fazer. Descobri que isso doa mais do que as costelas. - O que , agora voc s vai me visitar quando eu 
estiver inconsciente?  isso?
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   - Voc passou por uma situao muito difcil. - Jesse parecia mais desconfortvel do que eu j o tinha visto. - Escutei sua me, na casa, dizer a todo mundo que 
ningum deveria fazer nada para perturbar voc.
   - Ver voc no vai me perturbar.
   Eu estava magoada. De verdade. Puxa, tinha conscincia de que Jesse estava furioso comigo pelo que eu tinha feito, voc sabe, aquela coisa de enganar Michael 
para ir ao Ponto para que os Anjos da RLS pudessem mat-lo, mas no querer nem mesmo falar comigo mais...
   Bem, isso era barra!
   A dor que eu sentia deve ter aparecido no rosto, porque quando Jesse falou foi na voz mais gentil que eu j o ouvi usar.
   - Suzannah, eu...
   - No - interrompi. - Deixe eu falar primeiro. Jesse, desculpe. Desculpe aquilo tudo ontem  noite. Foi culpa minha. No acredito que fiz aquilo. E nunca, jamais, 
vou me perdoar por ter arrastado voc para l.
   - Suzannah...
   - Eu sou a pior mediadora. - Assim que dei o pontap inicial, achei difcil parar. - A pior que j existiu. Deveria ser expulsa da organizao dos mediadores. 
Srio. No acredito que fiz uma coisa to estpida. E no culparia voc se nunca mais falasse comigo. S que... - Olhei-o de novo, sabendo que havia lgrimas nos 
meus olhos. Mas dessa vez no estava com vergonha de ser vista. - S que voc precisa entender: Michael tentou matar minha famlia. E
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no dava para deixar que ele ficasse numa boa. D para entender?
   Ento Jesse fez uma coisa que nunca tinha feito. E duvido que faa outra vez.
   E aconteceu to depressa que depois nem tive certeza de que aconteceu de verdade ou se, cheia de remdios nas idias, eu imaginei.
   Mas tenho quase certeza de que ele se esticou e tocou minha bochecha.
   S isso. Desculpe se dei esperanas a voc. Ele s tocou minha bochecha, a nica parte de mim, imagino, que no estava arranhada, cortada ou partida.
   Mas no me importei. Ele tinha tocado minha bochecha. Roado, na verdade, com as costas dos dedos, e no as pontas. Depois baixou a mo.
   - S, querida - disse ele em espanhol. - Eu entendo.
   Meu corao comeou a bater to depressa que tive certeza de que ele podia ouvir. Alm disso, provavelmente no preciso dizer, minhas costelas doam, doam de
verdade. Cada pulsao parecia fazer o corao se chocar contra elas.
   - E o nico motivo para eu ter ficado to furioso foi porque no queria que isso acontecesse com voc.
   Ao falar a palavra isso, ele sinalizou para o meu rosto. Percebi que o negcio devia estar muito ruim.
   Mas no me importava. Ele tinha tocado minha bochecha. Seu toque foi gentil, e, para um fantasma, quente.
   Eu sou pattica ou o qu, para um simples gesto assim me deixar de cabea para baixo de tanta felicidade?
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   Falei, feito uma idiota:
   - Eu vou ficar bem. Disseram que nem vou precisar fazer plstica.
   Como se um cara nascido em 1830 soubesse o que era uma plstica. Meu Deus, eu sei estragar um clima ou no sei?
   Mesmo assim Jesse no se afastou exatamente. Ficou ali me olhando como se quisesse dizer mais alguma coisa. E eu estava perfeitamente disposta a deixar que ele
dissesse. Especialmente se me chamasse de querida de novo.
   S que no me chamou de nada. Porque nesse momento Gina entrou de novo no quarto segurando duas latas de refrigerante.
   - Adivinha s? - disse ela enquanto Jesse tremulava e, com um sorriso para mim, desaparecia. - Encontrei sua me no corredor e ela mandou dizer que a segunda
ressonncia foi normal, e que voc pode comear a se preparar para ir para casa. Ela est cuidando da papelada agora. No  fantstico?
   Ri para ela, mesmo que meu lbio doesse com isso.
   - Fantstico.
   Gina me olhou com curiosidade.
   - Por que voc est to feliz?
   Continuei rindo.
   - Voc disse que eu posso ir para casa.
   - , mas voc estava feliz antes de eu falar isso. - Gina estreitou os olhos para mim. - Suze. Qual ? O que est acontecendo?
   - Ah - respondi sorrindo. - Nada.
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